Relatório trimestral

De volta a um assunto que apenas me interessa marginalmente, mas que nem por isso deixa de ser útil ir acompanhando: a evolução do mercado do material fotográfico. Como sabem, o mercado das câmaras e lentes tem vindo a diminuir de volume de ano para ano, o que acontece desde 2007, o ano do lançamento do iPhone. Esta descida tem sido progressiva, mas acentuada, e nem as mirrorless conseguiram inverter essa tendência. (De qualquer modo, as mirrorless não são tão populares como os seus donos gostam de acreditar, nem vão matar as DSLRs como alguns esperam.)

Após quase dez anos de declínio, as vendas parecem estar a recuperar no primeiro trimestre deste ano. Nada de particularmente entusiasmante – o crescimento das vendas em Março deste ano foi até um pouco menor do que em 2016 –, mas parece haver uma tendência consistente de aumento das vendas. (Fonte: CIPA.)

Isto tem algumas interpretações. Depois de uma explosão nas vendas, que teve lugar em concomitância com a afirmação das câmaras digitais – na viragem e início do século –, as vendas diminuíram dramaticamente. E mesmo estes números eram sustentados pelas compactas, as quais foram as câmaras que mais sofreram com o advento dos telemóveis equipados com câmaras. Isto significa que houve aquilo que agora se chama um ajustamento: o mercado voltou aos níveis anteriores ao boom digital.

Isto acontece por uma razão: o mercado especializou-se. Os níveis de vendas actuais são baixos, mas relevantes. São, sobretudo, adequados a uma nova realidade em que nem todos os consumidores compram câmaras DSLR, como acontecia há quinze anos. A qualidade de imagem passou a ser uma consideração secundária e as pessoas que dantes compravam compactas (incluindo as bridge) e DSLRs baratas aderiram aos telemóveis, deixando a Canon, a Nikon e a Pentax sozinhas num mercado que voltou a ser altamente especializado.

Isto significa que os fabricantes lidam agora com volumes de produção muito mais reduzidos, o que coloca um enorme problema porque as divisões de fotografia das principais marcas cresceram, à custa do boom de vendas a que aludi, fazendo com que adquirissem uma dimensão que hoje em dia é insustentável. A Canon, apesar da sua posição na área do material de escritório, adquiriu a divisão de imagiologia médica da Toshiba, o que foi decerto um excelente negócio num mercado que é, curiosamente, dominado pela Olympus. A Ricoh também tem uma actividade diversificada, tal como a Panasonic. A estas marcas é relativamente fácil amortecerem as perdas de vendas de material fotográfico.

O mesmo não se pode dizer da Nikon. Dos fabricantes japoneses, é o único que está verdadeiramente em maus lençóis. O seu volume de vendas em ópticas e imagiologia – a Nikon faz lentes oftalmológicas e microscópios, entre outros – é reduzido porque a Nikon foi sempre, e preponderantemente, um fabricante especializado de câmaras e lentes. Deste modo, é o grande fabricante mais afectado pela diminuição de vendas de material fotográfico, o que a levou a cancelar o lançamento das Nikon DL, uma série de compactas com sensores de 1” e zooms rápidos.

Estas melhorias de vendas não podem deixar de ser boas notícias para a Nikon. Entretanto, a rival Canon, a despeito do seu conservadorismo, vende quase duas câmaras por cada uma que a Nikon vende. E, por cada mirrorless vendida, vendem-se duas DSLR. Neste segmento particular das mirrorless, todas as marcas têm vindo a decrescer no seu volume de vendas, menos uma: não, não é a Fujifilm, que permanece num orgulhoso último lugar entre os fabricantes de câmaras mirrorless. A excepção ao declínio de vendas das sem-espelho é a Sony. O que é perfeitamente explicável: as Sony são câmaras tecnologicamente sofisticadas, incorporando inúmeras inovações, o que agrada a um público que se horroriza ao saber que as DSLR têm nas suas entranhas um espelho de funcionamento mecânico, o que lhes lembra barcos à vela e locomotivas a vapor. O lado bom é que, apesar de gritarem muito nas páginas de comentários do dpreview.com, estes consumidores são poucos.

M. V. M.

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