Fui a Honolulu e mostrei o meu c*

Eu tenho 53 anos. Já vi muita coisa na minha vida e fiz o que estava ao meu alcance para preencher a minha quota de disparates quando era novo, pelo que há muito pouco que me surpreenda vindo da parte dos jovens.

Uma das coisas que mais me irrita nas pessoas mais velhas que eu – e irrita-me também estar mais perto da idade delas do que da juventude – é estarem constantemente a rabujar contra as novas gerações. Provavelmente esquecem-se que também tiveram os seus excessos quando eram jovens, ou será talvez a amargura de terem perdido a juventude que os faz invectivar os jovens, mas enerva-me ouvir alguém dizer que no seu tempo havia respeito.

Não havia. O que havia era menor percepção pública. O que quer que se fizesse era apenas do conhecimento de alguns. Hoje é diferente: os jovens orgulham-se em público de se comportar como cretinos. Mostram todas as suas idiotices no snapchat, no facebook (aqui só as mais polidas) e no instagram. Vão embebedar-se e destruir tudo num hotel em Torremolinos e orgulham-se disso no facebook e no twitter. Isto, porém, é universal. Se, no nosso tempo, existisse esta coisa das «redes sociais», tenho a certeza de que o usaríamos tal como os jovens de agora. A parvoíce existe desde que existe humanidade. E nós não nos gabamos dos nossos excessos da juventude junto dos amigos?

O que difere agora é o facto de a internet possibilitar a divulgação instantânea de tudo o que se faz, induzindo, por imitação, comportamentos porventura ainda mais ousados do que aqueles em que as gerações anteriores incorriam. Com a internet a imagem tornou-se preponderante e, com isto, o narcisismo, a vaidade e a frivolidade exacerbaram-se. Os jovens gostam de se mostrar na internet – o que, por si só, nada tem de intrinsecamente mau, mas parecem não ter a noção de que se estão a mostrar a milhões de pessoas. Ou têm essa noção e não se importam porque são uns cabeças no ar, não sei.

O que eu sei – e agora o leitor vai começar a aperceber-se que este texto não é tão fora do tema como parece – é que esta indução de comportamentos pela internet a que aludi no parágrafo acima ultrapassa tudo o que as pessoas da minha idade podem conceber. Indo ao assunto: agora surgiu uma moda completamente ridícula, quase estúpida demais para ser plausível. Pessoas, por norma jovens, visitam lugares maravilhosos, com paisagens belíssimas, e fazem-se fotografar… com as nádegas à vista! Depois publicam as fotografias no instagram, onde podem ser catalogadas e encontradas usando @cheekyexploits. Ou seja, o conceito de turismo destas criaturas consiste em mostrar o rabo no instagram.

Eu pensava que as selfies eram o zénite do narcisismo, mas não: isto é que é. Já não se contentam em mostrar a cara, mostram também o c*. O mais interessante, no meio de tudo isto, é que fazem isto por simples moda. Porque é viral. Porque sim. E porque, como li em alguns artigos, os instagrammers que fazem isto têm orgulho no seu rabo e não se importam de quem o vê (mesmo que seja a mamã).

E não houve quem lhe disparasse uma chumbada nas nalgas

O problema não é geracional nem me suscita reacções semelhantes às dos gerontes que proclamam que no seu tempo havia respeito, mas isto é profundamente decadente. Eu fiz e vi fazer muita coisa, mas eram excessos. Parvos, mas apenas isso: excessos. O cheeky exploits não é um excesso: é estúpido. Melhor ainda: é um excesso de estupidez. É de uma falta completa de tino e, sobretudo, de algo que ainda existe e a maioria das pessoas tem: chama-se decoro. Não tenho medo de usar esta palavra que alguns poderão considerar obsoleta e antiquada. A esmagadora maioria das pessoas não mostra partes íntimas do corpo em público por decoro. À excepção de alguns indivíduos estouvados, frívolos e estúpidos que não compreendem que o seu gesto é desagradável, repelente e absurdo. Eu reagiria muito mal se visse um palhaço – ou uma palhaça, porque as mulheres parecem gostar ainda mais disto que os homens – a fotografar-se com as calças em baixo na Ribeira ou na Foz. Ninguém gosta de ver a sua terra conspurcada – é este o termo – pela presença de parvalhões que não têm nada na cabeça e lhes parece ser muito giro mostrar o rabo em público.

Aprender que este fenómeno existe não me fez sentir velho e preconceituoso: fez-me sentir lúcido e seguro do bem fundado da existência de valores como o decoro. E isto está a ser escrito por alguém que já fez nudismo por um bom par de ocasiões – mas fi-lo num lugar onde mostrar o c* (e o resto) não era indecoroso: numa praia de nudistas.

M. V. M.

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