Qualidade

À medida que se vai fotografando, vão-se perdendo ideias preconcebidas e erróneas. A sabedoria que adquiro com o tempo faz com que me cinja cada vez mais ao que é essencial e abandone o acessório. A minha evolução, tal como a vejo quando medito nisto que tenho feito desde há quase sete anos, é sobretudo quanto à necessidade de que as minhas fotografias digam alguma coisa. Estou ainda muito longe de fazer o que quero, mas uma coisa é certa: as minhas fotografias são hoje mais directas e despojadas.

Uma das ideias feitas que deixei pelo caminho é a procura daquilo que muitos referem ser a qualidade de imagem. Hoje esta é a menor das minhas preocupações. Não quero, com isto, dizer que o meu ideal é fazer fotografias tremidas e desfocadas: preciso da nitidez, mas não daquele tipo de nitidez que muitas pessoas hoje procuram, da que permite contar os poros da cara da pessoa retratada. Este tipo de nitidez pode ser importante para muitos, mas não serve para nada se a fotografia for vazia de ideias.

Referir a qualidade de imagem é sempre dificultado pelo facto de nem sequer haver um padrão objectivo que a defina. É o quê, a qualidade de imagem – a nitidez, o contraste e a saturação, como é lugar-comum entender-se? Muitos confundem qualidade de imagem com resolução, mas decerto que a qualidade de uma fotografia não pode resumir-se à definição do pormenor – e, de qualquer modo, uma fotografia desinteressante não se torna boa pelo facto de se poderem contar os cabelos da pessoa retratada.

A qualidade de imagem é um conceito abrangente e complexo. Mesmo excluindo a subjectividade, que faz com que uma fotografia que uma pessoa entende como boa não o seja para outra, há um problema em saber se a qualidade pode ser definida objectivamente. É um conceito que engloba a nitidez, o contraste e a saturação, certamente, mas mesmo isto é discutível. Há fotografias falhas de nitidez que têm de ser consideradas boas, como os retratos de Steichen, Stieglitz e Coburn. O contraste, por seu turno, é largamente uma questão de gosto: há quem não prescinda dele e há quem o despreze. Tal como a saturação, aliás: hoje a moda é cores desmaiadas e inefáveis.

A qualidade de imagem é também ausência: ausência de distorções geométricas, de aberrações cromáticas e de artefactos como o ruído e a moiré. A qualidade é uma noção inefável que, se extrairmos a carga subjectiva, pode ser entendida como a agradabilidade de uma fotografia. É o equilíbrio das cores (ou dos tons, no preto-e-branco), a ausência de aberrações da imagem e a inteligibilidade do motivo. Todos estes factores são visuais: eles dirigem-se à percepção estética, não enformando o conteúdo da fotografia. Este é percebido pelo intelecto e basta-se com a agradabilidade.

Por mim, fico satisfeito com esta agradabilidade. Só preciso que o motivo esteja bem evidenciado e nítido – mas não descrito com a nitidez clínica de algumas lentes Zeiss –, que as cores sejam harmoniosas e que a imagem seja razoavelmente isenta de aberrações. Prefiro continuar a tentar fazer fotografias que valham pelo que exprimem a tentar obter a maior qualidade possível. Não preciso. Eu não vou fazer impressões em tamanhos grandes.

E, contudo, há na qualidade de certas fotografias um esplendor indesmentível. Comparar as minhas fotografias, com cuja qualidade me sinto bastante satisfeito, com as que Artur Pastor fez com a Rolleiflex, é comparar a água e o vinho. A qualidade das películas de médio formato é viciante: não se consegue parar de apreciá-la. Ver hoje coisas feitas há cinquenta e mais anos pelo referido Artur Pastor, por Vivian Maier e Robert Doisneau leva a pensar que a indústria fotográfica evoluiu no sentido errado. Fê-lo porque o conceito de qualidade que prevaleceu se baseia na nitidez e na resolução, sacrificando aquilo a que chamei agradabilidade em favor de uma resolução superior à dos olhos humanos (e portanto supérflua).

Por mim, embora este fascínio pelos médio e grande formato seja algo que não posso negar, contento-me com uma qualidade menos que absoluta. Prefiro que as minhas fotografias valham pelo que dizem do que pelo que mostram – ou melhor: pela maneira como o mostram.

M. V. M.

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