Pulitzer

Eu não sei quantos dos meus leitores seguem o que se passa pelo mundo. Para além da mãe de todas as bombas, das ameaças pífias do comediante que governa a Coreia do Norte e do plebiscito que pode transformar Recep Tayyip Erdogan num califa e a Turquia num Estado medieval, há um país onde, a pretexto da guerra ao narcotráfico, acontecem carnificinas todos os dias. Esse país é as Filipinas.

Rodrigo Duterte, actual presidente das Filipinas, é um daqueles psicopatas sem ideologia nem um plano para a sua nação que conseguem engodar o povo e ganhar eleições com um discurso que vai ao encontro, não das necessidades reais das pessoas, mas do ódio que lhes é inculcado. Esse ódio, em regra, não corresponde a uma ameaça real ou iminente, nem a nada de essencial, referindo-se a fenómenos de diminuta repercussão, mas que, por uma propaganda eficaz, são percebidos como fundamentais. Donald Trump ganhou as eleições com esse discurso e foi com ele que o Brexit ganhou o referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia. No caso de Duterte, o fenómeno que lhe deu a vitória não foi a imigração ilegal nem a perniciosidade da livre circulação de pessoas, mas o tráfico de droga. Sob o pretexto do combate ao tráfico, está a acontecer um verdadeiro massacre nas Filipinas. Num relatório da Amnistia Internacional pode ler-se que não se trata de uma guerra contra as drogas, mas de uma guerra contra os pobres, e que as operações policiais são dirigidas contra pessoas pobres e indefesas, mediante provas forjadas e com recurso ao recrutamento de assassinos a soldo.

Este ano o Prémio Pulitzer de fotografia, na categoria de notícias da actualidade (breaking news: não há uma tradução literal e fidedigna em português) foi atribuído ao fotojornalista Daniel Berehulak. O texto de hoje é sobre uma das fotografias que Berehulak fez em Manila, no velório de um homem assassinado na sequência da guerra às drogas de Duterte, a qual adquiriu importância por ter sido a que o The New York Times publicou no seu Twitter para anunciar a atribuição do Pullitzer.

O fotojornalismo cumpre a sua missão quando tem por objecto acontecimentos como este. O fotojornalista ajuda a dar uma impressão sobre os acontecimentos para a qual as palavras podem não ser suficientes. O bom fotojornalista vai mais longe e consegue criar fotografias emblemáticas do acontecimento que cobrem, como fizeram Koudelka e W. Eugene Smith. Deste modo, é função do fotojornalista gerar uma consciêncai universal para o acontecimento que se está a testemunhar. Se o fizer através de uma fotografia altamente simbólica, maior será o valor dele.

O que vou escrever de seguida pode parecer frívolo, e deixo aos leitores o eventual juízo sobre a futilidade do meu entendimento. A fotografia que mostro é simbólica, no sentido em que a expressão da criança que se vê ao centro é, de facto, emblemática –  embora tenha algumas reservas quanto à sua eficácia na necessária agitação das consciências embotadas –, mas de resto é uma fotografia indigna de um Prémio Pulitzer. Sinto que posso dizer isto com toda a rotundidade, porque Daniel Berehulak fez fotografias incomparavelmente melhores. Esta, porém, causa, antes de mais, a impressão desnecessária de o fotojornalista estar a espreitar um velório, violando algo íntimo e sagrado. Essa impressão é acentuada pela perspectiva e pela composição, que é completamente descuidada e apressada. A posição da câmara, olhando a cena do alto, torna a imagem banal, e a composição está longe de ser a mais expressiva: há corpos indevidamente cortados e há aquele objecto, no lado direito da imagem, que parece ser um espanador e que rouba a atenção que devia concentrar-se no corpo que está a ser velado. Não há nada a fazer: aquele espanador retira toda e qualquer pretensão de dignidade e seriedade à fotografia. Incomoda, os olhos vão involuntariamente cravar-se nele. Não vemos a criança a chorar nem o morto: só vemos um espanador. A luz é demasiado festiva para a ocasião, sendo mais apropriada a uma sessão de karaoke que a um velório, o que, evidentemente, não é culpa do fotógrafo (embora a conversão para preto-e-branco pudesse ter ajudado), mas o que esta fotografia parece é uma intromissão de alguém num velório para tirar uma fotografia com um telemóvel. Ah – e é tão fácil colocar uma criança a gritar de dor no enquadramento para obter um efeito pungente! Infelizmente, não consigo afastar a palavra «exploração» da minha mente ao ver aquela criança e a sua dor.

Velórios? Comparem esta fotografia com as que W. Eugene Smith (acima) e Josef Koudelka fizeram. Eu não quero ser negativo ou destruidor: o mundo precisa de ganhar consciência acerca da barbárie que está a acontecer nas Filipinas – mas será que esta fotografia de Berehulak contribui para esse despertar? Duvido. Melhor: tenho a certeza que não.

M. V. M.

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