Ressurreição

E, ao décimo dia, ressuscitou

Estamos ainda a um dia do início da Semana Santa, altura em que celebramos a morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas hoje já me sinto ufano e o meu espírito regozija: a minha OM levantou-se dos mortos e renasceu – embora duvide que tenha sido a Paixão que levou a minha máquina a perecer. Tenho a certeza que não morreu para me salvar e me redimir dos meus pecados, porque, francamente, não me recordo de ter incorrido em nenhum. A não ser o de fazer más fotografias, mas muitos cometem este pecado (e outros bem piores, como o de imitar) e não intervém uma avaria que os redima. Só acontece a mim.

Foi assim com incontida satisfação que hoje fui buscar a ressuscitada. Apesar de ter estado nas mãos de um homem chamado Igor – tal como o assistente de Frankenstein –, não consta que a OM tenha recebido partes de outros corpos nem que tenha sido trazida de volta à vida por um relâmpago fulminante, pelo que devo concluir que não houve intervenção divina nem sobrenatural na sua ressurreição. Devo também, evidentemente, estar grato por haver pessoas como o Igor e o R. S. D., porque sem eles tudo teria sido mais difícil (e provavelmente mais oneroso). Provavelmente a máquina teria de ter feito uma viagem até Souselas – parece que ali, no centro de assistência da Europa Ocidental da Olympus, também consertam máquinas analógicas – que me privaria dela durante muito mais tempo do que aquele em que estive abstinente de fotografias.

Se bem se recordam, o anel de selecção dos tempos de exposição da minha OM-2n havia encravado em 1/1000. Embora fosse possível fazer fotografias com este tempo – desde que existissem boas condições de luz –, pareceu-me boa ideia repará-la. Em boa hora o fiz: o comando dos tempos de exposição veio a trabalhar perfeitamente. E, sobretudo, com uma suavidade que nunca teve, pelo menos enquanto foi minha. Não é bem a suavidade de uma OM-1 em bom estado, que comparei à de uma faca quente deslizando em manteiga derretida, mas quase. Será mais uma faca morna deslizando sobre requeijão cremoso.

No primeiro fim-de-semana sem câmara não me senti particularmente angustiado por não fotografar. Foi até uma espécie de férias retemperadoras. Contudo, devo confessar que a perspectiva de outro fim-de-semana sem expedições fotográficas estava a começar a deixar-me preocupado – até porque entretanto sobreveio este estímulo que encontrei no website da Magnum e que me fez querer sair imediatamente à rua para fotografar.

Pois bem: este impulso teve de esperar mais alguns dias, mas valeu a pena. Não apenas porque a máquina me foi devolvida em perfeito estado, mas também porque a conjugação do contentamento por voltar a fotografar e do estímulo a que acabei de me referir resultou uma sessão divertida em que as oportunidades surgiram com muita naturalidade.

A privação teve os seus benefícios. Graças a ela, redescobri uma alegria em fotografar que pensava já ter esquecido. Não que fotografar se tenha tornado uma tristeza, ou um sacrifício, mas a sombra insidiosa da rotina começava a pairar sobre as minhas sessões fotográficas. Isto fez-me pensar se não será um exercício salutar privarmo-nos de fotografar durante um lapso considerável de tempo. Pelo menos parece-me ter o potencial de ser tão ou mais produtivo que aquela experiência de fotografar apenas com uma câmara e uma lente durante um ano que alguns advogam e clamam ser uma fonte de aprendizagem. A privação pode, quem sabe, fazer-nos reconsiderar os nosso objectivos e redireccionar a nossa fotografia. Pelo menos será uma ruptura na rotina, o que só por si é bom e estimulante.

Seja como for, sinto-me reconfortado por ter a OM de volta. Cheguei a temer o pior e a havê-la como irremediavelmente avariada e a ter de substituí-la. Felizmente não aconteceu – ou, se aconteceu, o bom do Igor trouxe-a de volta ao mundo dos vivos. Esta é uma boa altura do ano para ressurreições. Aliás, não podia ser melhor. Não consigo pensar em nenhuma outra época mais oportuna.

M. V. M.

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