Da nitidez

Alfred Stieglitz, O’Keeffe In Black Coat with Hands to Neck

Ao que parece, hoje em dia o requisito essencial de qualquer lente é a nitidez. Aliás, retiro o «hoje em dia», porque, na verdade, desde há muito que a nitidez é procurada pelos fabricantes de lentes, mas nem sempre foi assim.

Com efeito, alguns pioneiros da fotografia moderna, como Alfred Stieglitz e Alvin Langdon Coburn, procuravam lentes – e frequentemente mandavam fazê-las por medida, com o nome do proprietário gravado no cano da lente – que não fossem completamente nítidas; lentes que induzissem uma névoa subtil, de maneira a que as fotografias tivessem uma aparência romântica e vagamente onírica. Olhando para as fotografias e retratos que Stieglitz fez da sua mulher, Georgia O’Keeffe, é fácil perceber que aquela nitidez imperfeita foi usada intencionalmente, sem corresponder a uma deficiência na concepção da lente.

Retrato por Alvin Langdon Coburn

Entretanto, Oskar Barnack inventou o formato 135, recorrendo a película de cinema e a um instrumento que possibilitava a transposição dos minúsculos negativos para tamanhos aceitáveis: o ampliador. Este instrumento necessita de toda a nitidez possível, de maneira a que as imagens possam ser gravadas em tamanhos grandes, pelo que a nitidez tornou-se num requisito essencial de todo o processo fotográfico – a começar, evidentemente, pela lente montada na máquina fotográfica.

O que nasceu daqui foi aquilo que todos sabemos: a busca da maior nitidez possível. Zeiss, Leica e Nikon quiseram fazer as lentes mais nítidas, o que, juntamente com a obsessão do superlativo que afecta os consumidores de material fotográfico e o advento da fotografia digital, redundou no que hoje vemos: fotografias com demasiada nitidez, tanta que chega a tornar os objectos inautênticos. A comunidade fotográfica não está preocupada com os resultados no papel ou no computador: ela avalia a nitidez através de gráficos e tabelas MTF.

Devo, contudo, ser justo. A nitidez não é um defeito. Pelo contrário. Aliás, é importante dizer que o cérebro reage negativamente à falta de nitidez. A nitidez é necessária, desde que corresponda ao que os olhos vêem. Simplesmente, as lentes e sensores actuais são capazes de uma resolução que é superior à dos olhos. Por vezes o recorte dos objectos é de tal maneira acutilante que a imagem sofre o paradoxo de, por querer ser hiper-real, se tornar irreal.

E não é bem isto que os fabricantes que citei pretendiam. O que a Zeiss, a Leica e a Nikon queriam era fazer lentes que suportassem bem as ampliações, sem que se perdesse muita nitidez no processo de transmissão de luz para o papel fotográfico. Só depois é que vieram os maluquinhos que comentam nos websites de referência pedir mais e mais nitidez só porque avaliam a nitidez da mesma maneira que os valores de sensibilidade ISO de uma câmara: quanto maior, melhor.

Tenho para mim que a nitidez é importante, mas não é tudo. Os antigos, como Langdon Coburn e Stieglitz, não deixavam de ter uma razão para procurar lentes de nitidez mitigada: a sua fotografia era um sucedâneo da pintura, pelo que essas objectivas convinham à sua linguagem estética. O excesso de nitidez que hoje vemos serve o quê? Nada. É a busca da nitidez pela nitidez, dos números, dos gráficos e das tabelas, como se tudo se resumisse a uma competição entre fabricantes para saber quem faz as lentes mais nítidas.

E os fabricantes entregam-se a estas puerilidades. Cada um procura o máximo de nitidez para satisfazer multidões que olham para o desempenho do equipamento como crianças a espreitar o interior de automóveis desportivos para ver quanto marca o velocímetro. E, contudo, essa nitidez toda não tem utilidade prática no mundo real. Pode ser deslumbrante num primeiro momento, mas o objectivo de um retrato é o de mostrar a pessoa retratada, não o de contar o número de poros que ela tem na cara. O excesso é sempre nocivo.

Felizmente, as lentes verdadeiramente boas são capazes de uma nitidez prodigiosa, mas realista. Com lentes como quase todas as Leica e a nova Zeiss Batis 135mm-f/2.8, os pormenores estão bem evidenciados, embora sejam apresentados de uma forma natural e orgânica. Infelizmente, este equilíbrio fica caro. (O que é mais uma razão para recorrer ao mercado de segunda mão.)

M. V. M.

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