A armadilha das estatísticas

A minha fotografia mais popular (mas não necessariamente a melhor)

Deixei, propositadamente, caducar a minha conta «PRO» do Flickr. Não via grande sentido em pagar para ter uma capacidade de armazenamento ilimitada quando a subscrição gratuita suporta 1 TB e eu, com as mais de 1600 fotografias que carreguei, ocupo neste momento 0,8% daquela capacidade. Também não me agradava a maneira como vão ao cartão de crédito dos subscritores, sem aviso prévio, quando a assinatura se renova. Tiram o dinheiro sem dizer água-vai, o que não é muito elegante.

Portanto, eu não preciso de uma assinatura «PRO». Não é que seja muito cara, mas não preciso daquilo para nada. Aquele dinheiro compra quatro rolos Agfa Vista e ainda fico com algum troco. Mesmo a única desvantagem aparente de não ter esta modalidade de subscrição, que é a de não ter acesso às estatísticas, acaba por não ser desvantagem nenhuma.

Ora aqui está o cerne do texto de hoje. As estatísticas são altamente perniciosas. Elas podem fazer com que a pessoa fotografe em função delas, o que pode comprometer a integridade da fotografia, se levar o autor a cingir-se a um determinado género de fotografia em função do número de visualizações e das preferências dos visitantes das suas páginas.

Tomemos o meu exemplo: embora na verdade não me tenha deixado levar pelas estatísticas, o certo é que quem visita o meu Flickr demonstra uma preferência quase invariável por certas fotografias que faço com alguma abundância: fotografias urbanas – ou «de rua», caracterizadas pela inclusão de pessoas – com composições geométricas muito rigorosas. Se eu fosse um pouco menos íntegro na minha abordagem à fotografia, seria certamente tentador fotografar apenas dentro deste estilo, mas não o faço.

Não o faço porque não me interessa. Sentir-me-ia limitado se fotografasse sempre as mesmas coisas da mesma maneira. Eu não fotografo para ter muitos favoritos e muitas visualizações: fotografo para isolar motivos que me parecem interessantes e dar-lhes expressão gráfica. Dá-me tanto prazer fazer isto com transeuntes como com interiores ou pormenores que vejo em montras. Não é o facto de as fotografias com estes dois últimos temas serem relativamente impopulares que me impede de fotografá-los.

Eu publico no Flickr porque, apesar de as minhas fotografias serem uma emanação pessoal, entendo que elas só merecem existir se forem vistas por outras pessoas. Confesso que não sou capaz de fotografar só para mim, como fez, por exemplo, Vivian Maier. Não mostro as fotografias por andar à procura de um mecenas ou de um empregador, nem para que me considerem um grande fotógrafo (e logo eu, que nem sequer me considero um fotógrafo), mas admito que detestaria se ninguém visse as minhas fotografias.

O que nunca farei é fotografar em função da apreciação que fazem das minhas fotografias. Além de tal comprometer a integridade, seria um disparate porque a popularidade não é nem nunca foi sinónimo de qualidade. O que as pessoas procuram no Flickr é imagens deslumbrantes de paisagens maravilhosas e belos retratos de pessoas lindas (fotografias de gatos também são muito populares). As minhas fotografias não encaixam nestas categorias nem vou começar a fotografar dessa maneira só para agradar a muita gente e ter milhões de visualizações. Nada disso me interessa. Eu só quero fotografar o que me parece merecedor de ser fotografado segundo os meus próprios critérios. Já houve tempos em que senti necessidade de ter muitos likes, mas esse período foi, no meu trajecto de amador, o equivalente à puberdade, que é aquele período em que todos queremos vestir e cortar o cabelo como os nossos colegas da escola. Felizmente cresci – embora não tanto que possa considerar que a minha fotografia é madura.

Uma coisa é certa: não são as estatísticas que me vão ajudar a decidir o que quero fazer. Ignorá-las é uma verdadeira libertação, porque sei que, não as conhecendo, me livro da tentação de fazer o que os outros gostam. Eu tenho é de fotografar o que eu gosto. Se outros gostam do que faço, tanto melhor, mas é bom saber que esse facto não me pode condicionar.

M. V. M.

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