Da familiaridade

No texto que acompanha as fotografias de Harry Gruyaert a que aludi no dia 28 de Março, o grande fotógrafo belga refere a dificuldade que é fotografar na cidade onde se vive. Isto interessou-me, já que faço a vasta maioria das minhas fotografias na cidade onde vivo, e despertou-me duas ou três considerações.

Antes de mais, convém referir que Harry Gruyaert pode viver em Paris, mas não é alguém nascido e criado na capital francesa. Não direi que é um estrangeiro, porque ser cidadão europeu é viver num espaço sem fronteiras – os tolinhos que apoiam o Brexit nunca poderão compreender isto, coitados –, mas os seus olhos nunca serão os de um natural de Paris. Compreendo o que ele quer dizer, mas possivelmente é-lhe mais fácil fotografar em Paris do que ele pensa.

Com efeito, viver diariamente numa cidade implica uma habituação, uma familiaridade com os diversos locais do nosso quotidiano que faz com que não nos apercebamos do seu interesse fotográfico. Aqueles lugares estão de tal maneira embrenhados nas nossas vidas que não lhes prestamos atenção. Eu, que vivo muito perto do estuário do Douro, não consigo perceber que interesse têm os turistas na paisagem composta pelo rio, pelo vale por onde se despenham as duas cidades, pelo mouchão a que chamam «Ilha do Frade» e pelo elemento de ligação entre as duas margens que é a Ponte da Arrábida. Sou daqui e os meus sentidos estão calejados: não vejo onde está a beleza do que me parece corriqueiro e não compreendo que vêem os turistas naquilo que os leva a fotografar compulsivamente aquele lugar.

Chamei a isto familiaridade. É o mesmo fenómeno que nos impede de ver o génio de um irmão ou de um primo, mas nos deixa vê-lo no filho do vizinho. Os lugares tornam-se de tal maneira parte da nossa vida que deixamos de conseguir vê-los com olhos frescos. A nossa rua é a nossa rua, é onde vivemos; não há nela nada de novo, nada que possamos assinalar porque já a integrámos nas nossas rotinas. As pessoas que vivem na Sé – no lugar que já foi uma freguesia do Porto, não na catedral, evidentemente – só se apercebem da beleza das ruas onde vivem por causa dos enxames de turistas. Para os moradores, pode mesmo ser apenas um amontoado de casebres degradados em ruas estreitas e insalubres que de bom grado trocariam por habitações condignas, mesmo que estas se situassem em bairros sociais longe do lugar onde nasceram. (E, no entanto, não há como negar a beleza daquela povoação antiga.)

E será verdade o oposto – isto é, que quando estamos fora vemos melhor o interesse fotográfico dos lugares? Neste caso, e referindo-me apenas à minha experiência como amador da fotografia, já não tenho tanta certeza. Isto é certamente verdade quando se fotografa com intuitos turísticos, mas não necessariamente quando se quer dar uma expressão gráfica ao que se vê, como é o meu caso (e o de Harry Gruyaert, suponho). Os desafios de fotografar são exactamente os mesmos. Já me aconteceu: fotografei em Lisboa e Bruxelas exactamente como costumo fazer no Porto.

Na verdade, eu não sou a melhor referência nestas coisas de fotografar no meu lugar ou noutro lugar. Quando viajo, não me preocupo muito em tirar fotografias – mas ponho um empenho muito especial em ver esses lugares. Não conheço nenhuma maneira melhor de apreciá-los. Confiar exclusivamente na fotografia pressupõe ver, evidentemente, mas priva quem o faz da necessidade de contemplar. É assim que conheço visualmente um lugar: se for agora a Évora, Lisboa ou Bruxelas, que foram as minhas três últimas deslocações cuja distância em relação ao Porto as torna relevantes como viagens, sou capaz de me recordar de todas as ruas por onde passei, de todos os edifícios, estabelecimentos, parques e paisagens. Porque os vi. Não me limitei a fotografá-los e confiar nas fotografias para reavivar a memória mais tarde.

E na cidade onde vivo? Admito que não é fácil descobrir interesse fotográfico quando se tem os olhos embotados pela rotina, mas esta habituação, ao tornar a fotografia mais difícil – porque já não vejo tão claramente o interesse dos lugares –, torna-a também mais desafiadora. Faz com que procure maneiras novas de ver as coisas, longe do lugar-comum que o turista procura e sem transmitir o enfado das rotinas. Lembra-me um dos slogans que ouvia na defunta Voxx: «Parecendo difícil, não é nada fácil».

M. V. M.

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