Uma tarde de Sábado

Ontem ofereci-me para tomar conta da minha sobrinha Maria Luís. Estava uma tarde de sol e propus-me levá-la a um parque infantil que existe nas imediações da rua onde vivo. Um bom parque infantil, diga-se, que, apesar de pequeno, tem equipamentos de qualidade e boas condições de segurança e se situa num lugar excelente, num jardim à margem do estuário do Rio Douro.

A chavala divertiu-se. Os pais não têm muitas oportunidades de passar tempo com ela, pelo que a Maria Luís apreciou devidamente aquelas duas horas – mas, como este é um blogue de fotografia, não é para narrar as brincadeiras de uma criança de 4-quase-5 anos que estou a escrever este texto. É, como os mais argutos de entre os meus leitores – i. e. todos eles – já terão intuído, mais umas resmunguices acerca da maneira como hoje se fotografa.

Não exagero se disser que havia ali pais que passaram mais tempo a tirar fotografias, com os seus inevitáveis telemóveis, do que a brincar com as crianças. Uma verdadeira tristeza. O próprio gesto de fotografar com um telemóvel parece-me invariavelmente frívolo e sempre despropositado, mas naquele caso tudo assumiu proporções ainda mais grotescas porque os telemóveis pareciam ser mais importantes que as crianças.

Eu sempre entendi que mais vale ver que fotografar. Numa ocasião como esta, ver as crianças a brincar – não vou tão longe que sugira brincar com elas, porque seria excessivo para alguns pais – devia ser mais interessante e instrutivo do que obrigá-las a fazer poses em cima de um escorrega, mas infelizmente era isto que as mamãs e papás faziam: empoleiravam os seus rebentozinhos no escorrega e fotografavam-nos avidamente.

Lamentavelmente, aqueles responsáveis parentais armados de telemóveis tiveram um efeito de contágio sobre a Maria Luís, que quase me obrigou a tirar fotografias. Muitas fotografias. Como sou um coração-mole, não tive alternativa – peguei no computador de bolso  que chamam «telemóvel» e fotografei-a.

A principal característica distintiva de fotografias como estas é serem completamente irrelevantes. Tirei uma dezena de fotografias, todas inúteis, desinteressantes e desnecessárias. Ter-me embrenhado no espírito daqueles progenitores fez-me perceber ainda melhor que as pessoas, hoje em dia, fotografam por fotografar. Fotografam tudo o que vêem porque sim e porque podem, porque têm os meios para o fazer à mão de semear.

Eu não queria tirar fotografias. Como foi apenas uma ida ao parque, não vi nesta ocasião nada que merecesse ser perpetuado numa fotografia; não aconteceu nada de memorável ou de particularmente importante para mim, mas talvez o fosse para a criança. Daí que tenha acedido a tirar aquelas fotografias.

Enganei-me. Já em casa, quando lhe mostrei as fotografias, a Maria não quis saber delas para nada. Viu uma ou duas durante cinco segundos, sem qualquer espécie de alegria ou entusiasmo, e depois disse: «não quero ver mais fotografias».

Há lições a extrair disto. A primeira é que nem tudo precisa de ser fotografado. Há momentos que, pela sua trivialidade, não têm por que ser fotografados. São momentos que se vivem e passam. Não há necessidade de gravá-los, a não ser na nossa memória (a da massa cinzenta entre as orelhas, não a do smartphone).

A segunda – que é uma decorrência da primeira – é que estas fotografias não têm valor nenhum. São, como disse, fotografias que se fazem porque sim, porque se tem à mão uma câmara. Não têm significado nenhum, não são importantes e nem sequer despertam a vontade de guardá-las para recordar seja o que for. (E que recordações há a guardar de uma ida ao parque infantil?)

Esta forma de fotografar é precisamente o que está a matar lentamente a fotografia. Já me referi a isto muitas vezes, mas a fotografia ostenta hoje o paradoxo de, querendo perpetuar momentos efémeros, se ter tornado ela mesma efémera à custa do abuso que se faz dela. Sendo assim, podemos perguntar-nos para que realmente serve.

Por fim, algo que não é lição nenhuma para mim porque já o sabia: há momentos que é mais importante vivê-los que fotografá-los. (Esta frase não ficou lá muito bem construída, mas percebem o que quero dizer.) Tenho a certeza de que a Maria Luís apreciou cada segundo daquelas duas horas em que brincou no parque. Vê-la brincar foi um prazer e, de resto, houve momentos em que participei nas suas brincadeiras – o que me pareceu bem mais adequado do que tirar fotografias. Sei que, para ela, foi uma tarde bem passada. A prova é que não precisou das fotografias para se lembrar de que se divertiu. Ninguém precisa de fotografias destas. Seriam inócuas se não fossem tiradas e mostradas até à náusea e se, em consequência, não estivessem a tornar as pessoas indiferentes à fotografia.

M. V. M.

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