A Olympus OM-1 e eu

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Mentiria se negasse que a avaria da minha OM-2 me deixou a pensar na aquisição de um corpo, o qual teria, forçosamente, de ser uma outra OM por causa das lentes. Podia ter-se dado o caso de a reparação não se justificar por ser demasiado onerosa, ou mesmo o de a avaria ser irreparável. Em qualquer dos casos, a solução seria sempre a mesma: adquirir outra máquina.

Agora vem a surpresa: não seria outra OM-2. Nem uma OM-3 nem uma OM-4 (e muito menos uma das OM de dois ou três algarismos). Nada disso: a máquina que ponderei adquirir seria uma OM-1, que era, de resto, a que tinha em mente em 2013, quando me converti à película (como não consegui resistir ao estado de conservação perfeito em que a minha OM-2n estava quando a vi pela primeira vez, acabei por adquiri-la em detrimento da OM-1).

As razões para esta escolha da OM-1 são várias. Em primeiro lugar está ter sido a primeira OM. Eu sei que houve uma série de máquinas que receberam o nome de modelo «M-1» (o qual foi abandonado por insistência da Leica, que já tinha as suas «M» há muito), mas eram em tudo idênticas às que viriam a ser chamadas «OM-1».

(Um parêntesis histórico: as OM-1 mantiveram-se em produção já depois do lançamento da minha OM-2, que era uma alternativa semiautomática, e foram fabricadas até 1987, na versão «N». A OM-1 estava no mercado aquando do lançamento das sofisticadas OM-3 e OM-4. A isto chama-se longevidade. Mostrem-me uma câmara digital que tenha sido produzida durante quinze anos!)

As outras razões que me levariam a preferir uma OM-1 são o facto de ser inteiramente manual e ser mais simples. Ser manual implica que as únicas electrónicas são as do fotómetro, o que tem o potencial de tornar as OM-1 mais longevas que os modelos que se sucederam. (E, pelo que já li algures, a avaria que afectou a minha OM-2n poderia não ter acontecido se tivesse uma OM-1.) Não existindo modos de exposição semiautomáticos, não há electrónicas a comandar as cortinas do obturador.

Porque a OM-1 não tem o modo de «preferência à abertura» da OM-2, não existe comando de compensação da exposição. O que quer dizer que tem um comando a menos, potenciando assim a sua fiabilidade. A solução da OM-2, que junta o comando da compensação da exposição com o selector da sensibilidade da película, é elegante, mas pouco prática: é necessário levantar o comando rotativo para seleccionar a sensibilidade ASA (ou ISO). Na OM-1, a única função que o comando rotativo do lado direito serve é o de seleccionar a sensibilidade. É mais simples e mais bonito.

Mas a OM-1 tem uma desvantagem considerável: quando foi lançada, em 1972, ainda se fabricavam pilhas de mercúrio, e foi para trabalhar com estas pilhas que o fotómetro da OM-1 foi calibrado. O abandono do mercúrio – que foi impelido, pelo menos em parte, pelo desastre de Minamata, que já referi aqui a propósito de uma fotografia do meu predilecto W. Eugene Smith – obrigou ao uso de alternativas, que vão desde adaptadores até à utilização ad hoc de pilhas para próteses auditivas. Isto não é apenas mais uma das inúmeras discussões paranóicas da internet: a linearidade da voltagem é crucial para o bom funcionamento do fotómetro. As pilhas originais (de mercúrio) tinham cerca de 1,4 V, ao passo que as alternativas têm, em regra, 1,5 V.

É isto que me suscita reservas quanto à possível aquisição de uma OM-1. Entendo ser fundamental que o fotómetro funcione em condições ideais. O fotómetro da OM-2 é praticamente perfeito, desde que as pilhas estejam com carga suficiente. Detestaria ter uma máquina com um fotómetro em cujas medições não pudesse confiar. Usar o Sunny 16 é muito bonito, mas prefiro a comodidade de ter um ponteiro a dar-me indicações nas quais posso confiar e me permite resultados consistentes.

Se alguém me assegurasse que existe uma solução fiável para substituir as pilhas de mercúrio, poderia bem considerar a aquisição de uma OM-1 – mesmo que a minha OM-2 tenha conserto e este seja por um valor razoável, não seria um desperdício ter dois corpos similares. Um serviria para películas a cores, outro para o preto-e-branco. Se fosse assim, escolher entre fotografar a cores ou a preto-e-branco deixaria de ser um dilema cruel.

E não esqueçamos o funcionamento do anel de comando do tempo de exposição da OM-1, que desliza como faca quente em manteiga derretida…

M. V. M.

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4 thoughts on “A Olympus OM-1 e eu”

  1. Vejas estas : varta 675. Têm 1.4V. Parece que funcionam apesar de serem mais pequenas. Há um video no Youtube a falar desse problema.Vale o que vale mas se quiser ver deixo o link abaixo:

    Cumprimentos

  2. Tenho o mesmo problema com a utilização de um fotómetro Gossen Lunasix 3. As soluções são várias e nenhuma será perfeita, sendo que a perfeição seria uma pilha com caracteristicas exactas à PX635 de 1,35 V.
    Para mim uma solução boa o suficiente é a utilização de pilhas de óxido de prata de 1,55V (SR44), que mantêm a voltagem durante grande parte do processo de descarga, e utilizar um diodo para baixar a tensão. Este componente poderia ser instalado dentro da própria máquina, logo por baixo da tampa inferior e não é um processo muito complicado. Será uma solução permanente, mas não irreversível. Veja, por exemplo: http://www.butkus.org/chinon/batt-adapt-us.pdf. As pilhas SR44 são mais pequenas do que as PX625, pode utilizar um pouco de papel ou cartão para as centrar no compartimento. No caso do meu Gossen, uso duas pilhas e não preciso de as centrar: o contacto dá-se em qualquer posição que as pilhas fiquem e a pressão da tampa mantém-nas no lugar. Nunca tive problemas.
    No entanto, a voltagem poderá não ser exactamente igual. A resposta a esta alteração variará com cada equipamento. Será necessário fazer testes e poderá ser necessário compensar a leitura do fotómetro. A haver necessidade de compensação esta será constante para todas as pilhas do mesmo tipo. No caso do meu fotómetro não precisei de compensar.

    Cumprimentos
    Sérgio Rodrigues

  3. Sem falar que o seu fotômetro possui vida útil. Estou usando pilhas de 1,5V por conta disso. Na realidade, apenas um ajuste interno é necessário (calibração). Eu comprei uma nova célula para o fotômetro de minha OM-1, mas não achei ninguém de confiança (nos meus padrões, kkkkk) para realizar a substituição.
    Uma observação: estou a procura de relógios clássicos (diver) automáticos Seiko (Seiko 6217, Seiko 6215-010, Seiko 6159-022, Hi beat…), pois do mesmo modo que a Olympus me conquistou com sua série OM, a Seiko me conquista com suas ledárias peças!
    Abraços, Manuel!!

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