Eu e o Acordo Ortográfico (antecedido de um prefácio aliviado)

Uf! o povo neerlandês não se deixou enganar. Vou poder continuar a apreciar Toto Frima, Ed van der Elske e Rineke Dijkstra – e também, já agora, Bernard Haitink, Pieter Wiespelwey e Anner Bylsma. Entre muitos outros.

Agora que a parte da política deixou de ser uma preocupação, já posso voltar a torrar o sistema nervoso com uma neura antiga – o Acordo Ortográfico. Isto veio-me à cabeça por ter hoje começado a ler o primeiro livro que comprei escrito – ou, neste caso, traduzido – em português da chamada nova norma. O livro, ainda por cima, tem uma capa e um título que lembram os best sellers cor-de-rosa, embora não o seja: o grafismo da capa é piroso: inclui letras brilhantes em alto-relevo e uma menção aos prémios Pulitzer e Nobel no centro de uma coroa de louros e tudo. Pior ainda é o título da edição portuguesa: Home tornou-se «A Nossa Casa É Onde Está o Coração». Se este livro não tivesse sido escrito pela excelente Toni Morrison, teria vergonha de ser visto com ele na rua, mas o pior deste livro é mesmo ter sido traduzido segundo a nova norma ortográfica.

O mais benéfico que posso dizer sobre isto é que certas palavras parecem ter sido amputadas, e outras mutiladas. «Injeção» até pode ser perdoável, e eu não veria com maus olhos uma revisão da ortografia que eliminasse algumas consoantes mudas, desde que com um mínimo de critério. Hoje não escrevemos «contracto», a despeito de o étimo latino ser contractu: escrevemos «contrato». (Notem que estou apenas a referir exemplos esparsos: apesar de gostar de ler e escrever bem, não sou um filólogo nem um linguista.)

O que é completamente incompreensível é que se mude a ortografia de palavras como perspectiva, porque se o objectivo é unificar a ortografia de todos os países onde se fala o português, convinha que se tivesse tido em mente que, no português do Brasil, o «c» de «perspectiva» não é mudo. O artifício da «dupla grafia» consagrado no Acordo Ortográfico é, em si mesmo, a negação da necessidade da nova norma: se se reconhece a diferença, para quê unificar? E, se se quer unificar, porquê manter duas grafias? Não faz sentido.

Já palavras como «objeto» me parecem mutiladas além de amputadas. E que dizer de palavras como «perentório»? Isto não é português! Ou ainda «ato» no lugar de «acto», «ata» em vez de «acta» (a vontade que dá de fazer trocadilhos parvos!) e outras aberrações. Ainda para mais, como os portugueses não se distinguem pelos seus níveis de literacia elevadíssimos e já escrevem muito mal sob a antiga norma, o Acordo Ortográfico só vai trazer mais confusão: há gente que pensa que «facto» vai passar a escrever-se «fato» (outra fonte inesgotável de trocadilhos estúpidos), o mesmo acontecendo com «contato» e «contacto». Até tivemos um juiz famoso que pensava que «cágado» ia perder o acento e se divertiu com – adivinharam – trocadilhos escatológicos, e uma médica que houve por bom escrever «batéria» em lugar de «bactéria». Depois há aquelas palavras que só podem ser fruto de mentes alteradas, como «espetador» em lugar de «espectador». Não há dúvida: o Acordo Ortográfico foi concebido por alguém que quis pôr o país a fazer trocadilhos de mau gosto.

E há também a questão jurídica. Ao que parece, o Acordo Ortográfico não podia ter entrado em vigor sem que todos os países seus destinatários o ratificassem, algo que até agora apenas quatro países fizeram. Não compreendo qual foi a pressa em adoptar («adotar» também é muito canhestro, diga-se) um acordo tão mal amanhado, que não unifica nada e com o qual nem todos os países de língua portuguesa concordam. Por mim, vou adoptar a nova norma quando esta for eficaz na ordem jurídica nacional. Se me torcerem um braço e me apontarem um revólver à cabeça.

M. V. M.

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5 thoughts on “Eu e o Acordo Ortográfico (antecedido de um prefácio aliviado)”

  1. Concordo e continuo a escrever tal como aprendi na escola há imenso tempo! Há, no mínimo, confusões hilariantes com algumas alterações ou alterações inexistentes que passaram a existir por pura confusão…

  2. Obrigado por ter aceitado o meu comentário.

    Gostei do seu artigo, porque expõe com bonomia a sua opinião e não com a habitual “irritação da sanha anti-AO”.

    Os “Tradutores contra o Acordo Ortográfico” que partilharam este artigo, bloquearam-me e apagaram todos os meus comentários, porque não toleram quem tenha opinião diferente:

    14.março.2017

    João Nogueira da Costa Que coita já não se escrever “escholar” com o agazinho! Assim, perde-se a etymologia do vocabulo e a lingua portugueza fica completamente desfigurada. Melhor seria continuarmos a escrever como no seculo XIX, mandando ás urtigas todas as reformas e os accordos antigos… Proponho um chartaz com os seguintes dizeres:

    A lucta continua:
    graphia moderna para a rua!

    Podemos também começar um abaixo assignado, com a participação de philologos, philosofos, psychologos, psychiatras et alii, para se voltar á orthographia antiga. Para commissario, poder-se-ha convidar, solemnemente, o mui nobre senhor Dom Payo d’Antanho, pae do mui digno herdeiro do reyno.
    Gosto · Responder · 1 · 8 h

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João, ninguém pretende o regresso à ortografia pré-1911, não entendemos o seu comentário.
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    João Nogueira da Costa Para bom entendedor…
    Gosto · Responder · 1 h

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, não entendemos o que quer dizer. Está-se contra estas alterações em específico, mas vem escrever com a ortografia pré-1911? Não entendemos ou talvez seja você que não entende nada do assunto nem do que está em causa. Lamentemos.

    João Nogueira da Costa Talvez com a seguinte transcrição, possa tentar entender:

    Contestação à reforma

    A adoção desta nova ortografia não se fez sem resistências em Portugal, mas a maior polémica em seu torno estalou no Brasil. Alguns linguistas defendiam a ortografia etimológica em detrimento da ortografia puramente fonética das palavras, alegando que a reforma ortográfica cortava o elo entre os praticantes da língua portuguesa e os escritos deixados pelos seus antepassados.

    Outras pessoas resistiram à mudança, seja por receio de não saberem escrever pelas novas regras, seja por elo emocional ou intelectual à memória gráfica da escrita. Esse sentimento aparece refletido neste trecho de Alexandre Fontes, escrito nas vésperas da reforma ortográfica de 1911 (respeitando-se a escrita original do autor):

    Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase. Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto (…) Affligimo-nos extraordinariamente, quando pensamos que haveriamos de ser obrigados a escrever assim!

    E Teixeira de Pascoaes:
    Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.
    in Wikipedia
    Gosto · Responder · 47 min

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, leia o nosso comentário anterior. E leia o texto do acordo, já agora, convém saber o que está em causa.
    Gosto · Responder · 22 min

    João Nogueira da Costa Blá-blá…
    Gosto · Responder · 17 min

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, quando não há argumentos…
    Gosto · Responder · 14 min

    João Nogueira da Costa Não há é pachorra!
    Gosto · Responder · 12 min

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, não há vontade em compreender, é lamentável. Fique com a sua ortografia pré-1911, nós não a queremos.
    Gosto · Responder · 9 min

    João Nogueira da Costa Para quem ainda não percebeu ou não se apercebeu e se gasta e agasta em lutas inglórias:

    “Os acordos, como sempre se provou, são feitos para as gerações seguintes”.
    Gosto · Responder · 4 min

    João Nogueira da Costa Boa tarde.
    Gosto · Responder · 4 min

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, e as gerações actuais, da qual faz parte, fcam no limbo? Quer legar um sistema ortográfico tecnicamente mal feito, incongruente, ilógico e ambíguo? Mais uma vez, não se debruça uma única vez sobre as medidas concretas deste acordo, apenas perora sobre coisas vagas sem compreender o essencial. Assim, é difícil.
    Gosto · Responder · 2 min

    João Nogueira da Costa Boa tarde.
    Gosto · Responder · 1 min

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, leia o acordo e o que se escreveu sobre ele, e reflicta, é o mínimo.
    Gosto · Responder · 3 min · Editado

    João Nogueira da Costa Boa noite.
    Gosto · Responder · Agora mesmo

    João Nogueira da Costa Sempre que se altera a ortografia da língua que aprendemos desde a nossa infância, é da natureza humana que haja vivos e veementes protestos, comentários inflamados, insultos dos mais diversos, reações pró e contra de quem é entendido na matéria e de quem pouco ou nada percebe do assunto.

    Para quem se interessa e trabalha estes temas, todos os artigos de opinião e sobretudo os seus comentários são um riquíssimo alfobre para a análise sociológica.

    É o caso deste artigo e das várias opiniões na caixa de comentários.

    É contra o novo acordo ortográfico?
    ENTÃO, ESTE ARTIGO É PARA SI.
    2016-10-16 José Ribeiro

    https://redator.pt/…/e-contra-o-novo-acordo-ortografico/
    Gosto · Responder · 1 · 6 h

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico Basta ler os comentários a esse artigo para perceber o que está em causa, se é que quer perceber…
    Gosto · Responder · 1 h

    João Nogueira da Costa «Não é o mérito do AO que me entusiasma, é a irritação da sanha anti-AO que me causa efeitos»
    Gosto · Responder · 1 h

    Tradutores contra o Acordo Ortográfico João Nogueira da Costa, é uma posição digna sem dúvida, não atenta ao próprio acordo, mas a quem está contra ele. É uma posição de inteligência?
    Gosto · Responder · 50 min · Editado

    João Nogueira da Costa Ahahah! Para o colar de pérolas ficar mais completo, falta aqui o inenarrável Bagão Félix…
    Gosto · Responder · 14/3 às 10:35

    17.março.2017

    João Pedro Forjaz Secca E os inenarráveis Santana Lopes, Cavaco Silva e José Sócrates, defensores do açordo…
    Gosto · Responder · 1 · há 3 horas

    João Nogueira da Costa O teu “açordo”, João Pedro, está para durar…
    Gosto · Responder · há 2 horas

    João Pedro Forjaz Secca O teu “açordo”. Não o meu…
    Gosto · Responder · há 49 minutos

    João Nogueira da Costa João Pedro, teu ou meu, tanto faz – ele está aí para durar…
    Gosto · Responder · há 41 minutos

    João Pedro Forjaz Secca Enquanto as decisões forem tomadas por linguistas e políticos incompetentes, vai durando, infelizmente.
    Gosto · Responder · há 18 minutos

    João Nogueira da Costa É a vida, João Pedro…
    Gosto · Responder · há 16 minutos

    João Pedro Forjaz Secca Poderia dizer: “stultus lex sed lex”… mas acontece que o açordo nem legal é!
    Gosto · Responder · há 12 minutos

    João Nogueira da Costa Pois é, João Pedro, continuas a meter foice em seara alheia e as asneiras, claro, aparecem sempre… Sendo a palavra latina “lex” do género feminino, deverias ter escrito: “stulta lex sed lex”…
    Gosto · Responder · há alguns segundos

    João Pedro Forjaz Secca Sim, professor, já foi corrigido…
    Gosto · Responder · há 4 minutos

    João Pedro Forjaz Secca Um erro corrige-se. É o que devia fazer o Malaca perante os erros tão calamitosos do açordo.
    Gosto · Responder · há 3 minutos

    João Nogueira da Costa Tá bem, João Pedro…
    Gosto · Responder · há alguns segundos

    João Pedro Forjaz Secca :-)

    1. Curiosamente, algum do pior português que tenho lido vem das traduções de obras literárias!
      Além disto, a pessoa que respondeu em nome dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico parece particularmente obtusa. Mas tenha atenção, porque o desaparecimento dos seus comentários pode não ser censura: as publicações de terceiros em páginas “institucionais” só são visíveis se se abrir a caixa “Publicações”, e os comentários na página principal são removidos ao fim de algum tempo.
      Eu não sou nenhum assanhado, não sou um hater nem um fundamentalista. O que não me agrada é a forma como o AO foi feito, cheio de paradoxos e de soluções de continuidade absurdas como as da dupla grafia e a da atenção ao contexto. De resto, não vejo razões para que o acordo seja necessário: ingleses e americanos usam grafias diferentes e nunca sentiram a necessidade de unificá-las. E como seria possível fazer uma unificação com o português, quando há diferenças tão acentuadas na forma como ele é falado e escrito nos vários países? Vamos passar a escrever «ônibus», ou vamos passar a obrigar os brasileiros a escrever «autocarro»? Por que não podem as coisas ficar como estão? Por que havemos de ter a pretensão colonialista de obrigar os outros países onde se fala o português a escrever como nós (porque um acordo é isso mesmo: as partes obrigam-se a fazer algo)?

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