O meu novo dilema

A imagem com que ilustrei o texto de ontem – a minha fotografia, não a de Fred Herzog – não dá senão uma pálida ideia do que ali referi sobre a nova dimensão que a cor acrescenta às fotografias ditas de rua. Podia ter escolhido outra, que ilustrasse melhor os benefícios da cor, mas não o fiz. Por uma razão: é que aquela ilustração é exemplificativa do tipo de fotografia que teria feito se estivesse a usar o preto-e-branco. Como o texto tentou ser acerca da possibilidade de fazer fotografia dita de rua a cores, a ilustração pareceu-me adequada: quando faço fotografia nas ruas, gosto daquele tipo de cenário todo bem compostinho e cheio de simetrias e geometrias. O facto de esta fotografia ser a cores não retira nada à estética.

Por outro lado, tem-me passado pela cabeça uma ideia que pode ser disparatada, mas não deixa de ter a sua racionalidade. Uma possibilidade que tenho é converter digitalizações de fotogramas a cores para preto-e-branco. Eu sei que alguns podem pensar que é sacrilégio converter fotografias analógicas a cores para preto-e-branco, mas se pensarmos bem o mal de raiz já está feito e não é a conversão: é o que foi feito antes – a digitalização. Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?

Sinto-me cada vez menos preconceituoso – e, o que é o mesmo, mais aberto – em relação à edição de imagem. Quando o negativo é digitalizado, torna-se numa imagem digital. Assim sendo, por que não havia de tirar partido dos instrumentos que a fotografia digital trouxe? Uma grande parte das fotografias a cores que publico no Flickr teriam muito pior aspecto se eu as mostrasse tal como o scanner as deixou. Especialmente no caso das fotografias feitas com o Fujifilm Superia, que deixa todas as imagens com um tingimento verde que é difícil de suportar. O tingimento vermelho do Agfa Vista é muito mais benéfico, embora também seja capaz de produzir resultados indesejáveis. Seja como for, não vejo qualquer problema em editar imagens a partir de digitalizações de negativos.

Claro que isto levanta uma questão que, por esta altura, o leitor dotado de um mínimo de perspicácia já terá formulado: se é assim, não seria melhor usar uma câmara digital? Esta questão é extremamente pertinente, mas soçobra por duas razões. A primeira é que as imagens a cores feitas com película têm mais latitude que as digitais. É muito simples: com os rolos nunca tenho altas luzes estouradas nem sombras excessivas (a menos que falhe por completo a exposição, o que quase nunca me acontece). A segunda razão, e a mais importante, é que não há nenhuma câmara, nem nenhum programa de processamento de imagem, que seja capaz de simular o efeito de uma fotografia analógica a preto-e-branco. Quando inventarem uma câmara com sensores intermutáveis, sendo um deles o da Leica Monochrom e o outro o da Nikon D5, terão criado a câmara digital perfeita, mas por enquanto esse monstro de Frankenstein não existe.

Sendo assim, será que converter digitalizações a cores para preto-e-branco é boa ideia? Para tentar preservar um mínimo de pureza analógica, usei o célebre comando do Photoshop CS Image → Mode → Grayscale com a fotografia do texto de ontem.

O resultado é decepcionante. Mostra, em primeiro lugar, um facto importante: as fotografias a preto-e-branco precisam de uma nitidez de que o Agfa Vista não é capaz. Mas também se vê que os contrastes não são idênticos àqueles que consigo quando uso películas muito contrastadas, como as Ilford FP4 e Pan F. Meh – até as de alta sensibilidade, como a Tri-X, saem melhor que isto. Esta imagem não é verosímil enquanto fotografia analógica a preto-e-branco: tem a palavra «digital» espalhada em toda a sua superfície.

O que me deixa num dilema: estou a gostar demasiado de explorar a cor, mas não vou, de maneira nenhuma, renegar o preto-e-branco. Tal como não tenho de desaprender a minha língua pátria quando falo ou escrevo em inglês, também não preciso de excluir o preto-e-branco das minhas fotografias. A possibilidade de comprar um segundo corpo OM para fotografar exclusivamente a preto-e-branco começa a ganhar foros de inevitabilidade.

M. V. M.

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3 thoughts on “O meu novo dilema”

  1. Não é sacrilégio nenhum converter fotografias analógicas a cores em fotografias a preto e branco. Farto-me de o fazer sem problemas de consciência. E nem sequer me preocupo muito com a qualidade das digitalizações já que digitalizo as minhas com um scanner Braun NovoScan que é bastante limitado e, no fundo, o que faz é tirar uma fotografia digital (possui um sensor cmos de 5 megapixeisl) ao negativo e invertê-la. Se achar que a fotografia vale a pena edito-a e até poderei publicá-la. O facto de a digitalização ser fraca apenas me limita na fase de edição já que as possibilidades de manipulação para obter um resultado satisfatório ficam bastante reduzidas.De resto, a tecnologia traz-nos novas possibilidades e cabe-nos a nós discernir e decidir o que melhor fazer com ela.
    É curioso que há 5 anos atrás tirei uma fotografia quase no mesmo local da foto que ilustra este post:-)

  2. “Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?” – esta conclusão, bem como o texto que a antecede, não é tão correcta como pode, aparentemente, parecer.
    Senão vejamos: eu posso imprimir, analogicamente, um P&B de um negativo de côr, bem como posso imprimir a côr uma separação de tons a partir de um negativo P&B. Dá bastante mais trabalho do que com o Photoshop. Mas é exequível. E eu fiz várias.
    Se partirmos do princípio de que o Photoshop não é mais do que uma câmara escura com mais possibilidades, nada nos impede de utilizar as múltiplas variações, quer as antigas (ou em desuso) quer as actuais.
    Não acha meu caro Manuel?

  3. Tenho acompanhado há algum tempo as suas crónicas, mais concretamente desde o dia em que fiz mais uma pesquisa acerca do Paulo Nozolino e fui parar à sua página ( meados de 2016, talvez). Na altura, o Manuel, ainda não tinha entrado na fase a cores. Já visitei a sua página do Flickr e quando o fiz a grande maioria das fotos recentes eram a preto e branco. O que reparei, quer pelo que vi quer pelo que li, é que tinha o preto e branco como linguagem preferencial.

    No meu caso, até voltar à pelicula, fiz muita fotografia digital, tendo iniciado uma conta no instagram onde as primeiras fotos foram a p&b e maioritariamente de rua ou algo semelhante. Depois cansei-me e comecei aos poucos a ir para a cor ( muito por culpa das Fujifilm que entretanto adquiri e que das quais já me ausentei). Quando comecei a fotografar mais vezes a cores tive alguma dificuldade em “ver a cores” e acho que essa transição não é fácil.

    Voltando às suas fotografias, pelo que tenho visto, acho que ainda tem uma linguagem muito marcada pelo preto e branco onde ainda não há uma presença muito colorida na composição, nomeadamente das cores primárias, que são cores fortes. Os fotógrafos que referiu são os indicados ou fundamentais para se estudar as fotografias a cores mas também, e principalmente, os grandes mestres da pintura – Caravaggio, Renoir, Van Gogh, Degas, Bosh, entre muitos outros.

    Tal como referi em comentários anteriores, continuo a fotografar em digital. Isto permite-me experimentar mais, e no que concerne à composição, é indiferente se a foto é feita com uma máquina digital ou analógica.
    Nunca utilizei uma máquina de sensor 36×24, mas hoje em dia esses sensores já conseguem intervalos de exposição superiores às películas de 135mm, com gamas dinâmicas acima de 14 EV. Na fotografia digital somos nós a controlar todo o processo de edição da imagem. Fazemos a foto em ficheiro raw, trabalhamos esse mesmo ficheiro num programa de edição e podemos testar os limites do sensor, por paradoxal que isso pareça estamos a trabalhar no “puro”. No analógico existe um processo de digitalização que nós não controlamos. Mas tudo isto no campo da cor.

    No P&B acho que o analógico ainda é rei, mesmo digitalizado. Tem mais alma. Tem grão.
    Eu partilho inteiramente as suas preocupações e dilemas, inclusivamente o facto de andar a pensar em adquirir um segundo corpo Nikon fm/fm2. Ainda hoje chegaram 2 rolos de FP4 para juntar ao Agfavista200 que ainda tenho para testar.
    Mas é assim, vamos caminhando e isso é o importante.

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