Ah, os estereótipos! Onde estaríamos nós sem eles?

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Foto: Youg Hipster/Shutterstock

Os poucos que leram o texto do último Sábado sobre o aniversário da Câmaras & Companhia terão reparado que não fiz uma única alusão à solidez do crescimento da fotografia analógica, do qual a loja e laboratório do Raúl e da Leonor é uma verdadeira metáfora. Dispensei-me de referi-lo porque não gosto de ser repetitivo: já aludi ao assunto por várias vezes. O crescimento da fotografia analógica é um facto insofismável.

Contudo, muitos vêem a revivescência da fotografia analógica como um fenómeno tipicamente urbano, circunscrito a uma determinada subcultura e a um estilo de vida que, na verdade, é mais imaginado que real. Para estas pessoas, a fotografia analógica é um culto desenvolvido por aqueles a quem se convencionou chamar hipsters: sujeitos de barba e óculos, geralmente estudantes universitários com rendimento disponível, que gostam de roupas justas e vivem um estilo de vida alternativo, frequentando bares obscuros e ouvindo Yeah Yeah Yeahs (ou qualquer coisa muito mais underground). Simplesmente, se estas pessoas existem, não dou por provado que sejam elas quem fotografa com película. Pelo menos não é isso que vejo quando ando nas ruas – e acreditem que eu ando muito atento, como é obrigação de quem fotografa nas ruas (o que não é necessariamente o mesmo que fazer fotografia de rua).

De resto, quem atribui esta vitalidade da fotografia analógica aos hipsters não sabe do que fala. Em primeiro lugar – o que é um hipster? O que o caracteriza? É as calcinhas justas e as barbas? Também há habitantes de bairros sociais que vestem e se enfeitam da mesma maneira. São hipsters? Ou será o estilo de vida que os define? Quando ando por zonas frequentadas por gente que se assemelha a este estereótipo dos hipsters, o que mais vejo é iPhones; não se vê muitas máquinas fotográficas por ali, sejam elas analógicas ou digitais.

Mas também há os que pensam que a fotografia analógica é movida pela nostalgia, sendo praticada por gente que se recusa a largar os velhos hábitos e a acompanhar o progresso. Possivelmente, quando lhes falam de fotografia com película, imaginarão velhos corcundas, gotosos e atacados pelo Parkinson carregando máquinas 4×5 de madeira cobertas de teias de aranha.

Este último estereótipo ainda está mais afastado da verdade que o dos hipsters. Eu conheço uma boa parte da comunidade da fotografia analógica do Porto e não vejo ninguém que corresponda a este lugar-comum. As pessoas mais velhas que se dedicam à fotografia analógica são sensivelmente da minha idade; se eu podia ser considerado velho no Século XII, no tempo em que vivo sou alguém que ainda pode esperar viver umas boas três décadas. (E também não sou nenhum hipster, apesar de ter alguns pares de calças justas.) O que move essas pessoas como eu é o entusiasmo, característica que não é muito fácil de encontrar em gerontes (embora seja louvável de se ver quando acontece, como é o caso do meu mentor Fernando Aroso).

Reduzir tudo a estereótipos é estúpido. É abdicar de observar e raciocinar para aderir preguiçosamente ao que se ouve dizer. No caso da fotografia, os estereótipos que mencionei são de tal maneira asininos que chegam a assemelhar-se a caricaturas. Quem cultiva estes estereótipos faria muito melhor se experimentasse abrir os olhos e pensar pela sua cabeça. Se o fizesse, veria que não são os velhos nostálgicos que constituem a força motriz da fotografia analógica actual e que são muito raros os que, entre a multidão de jovens que usa máquinas de película, correspondem ao estereótipo do hipster.

E não é a nostalgia que move os entusiastas. Como podem os jovens sentir nostalgia de tempos que nunca viveram? E que nostalgia existe entre os que nunca abandonaram a fotografia analógica? Esta ideia da nostalgia pressupõe que a fotografia analógica entrou em desuso, como as grafonolas e os coches, o que nada tem de acertado. A fotografia analógica nunca deixou de existir; apenas perdeu terreno para a digital. Claro que nunca vai ter a expressão da fotografia digital, até porque entretanto esta última, graças aos smartphones, conquistou novas clientelas da ordem dos milhões – muitos milhões – de pessoas, tornando-se assim inalcançável, mas é inegável que a revivescência da fotografia analógica existe, está a crescer e não dá sinais de ir abrandar tão cedo. Não pode ser tudo à conta dos hipsters e de velhinhos corcundas!

M. V. M.

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2 thoughts on “Ah, os estereótipos! Onde estaríamos nós sem eles?”

  1. Olá. Como eu gosto de o ler (ainda que a fotografia analógica esteja arredada do meu processo criativo eheheh), acho que já lho disse anteriormente! Continue, continue.

  2. A mim o que me moveu para a fotografia analógica foi mesmo a tecnologia digital. Sem esta, talvez a meu retorno mais intensivo à fotografia estivesse comprometido. De resto, e como não gosto de compartimentações, quer o analógico quer o digital, como processo de captação de imagens, convivem alegremente. Apenas os separo fundamentalmente pelo processo de abordagem. A fotografia analógica faz-me abrandar, pensar duas, três, quatro vezes antes de fazer a imagem. Pelo equipamento. O equipamento é bem mais simples, e essa simplicidade, essa redução ao essencial, faz-me quase esquece-lo. Pelo próprio acto físico de fotografar com analógico, que é algo que me dá gozo.
    Depois há quem fale da magia da espera pelas imagens, da questão da surpresa. Isso ainda não senti…se calhar é por não ser religioso…
    E não, não sou hipster…

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