Ren Hang (1987-2017)

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Acontece-me com a fotografia o mesmo que com a literatura: sinto uma necessidade tão grande de estruturar os meus conhecimentos que não quero conhecer os contemporâneos sem antes me familiarizar com os clássicos. O que existe agora é o culminar do que se fez antes; há uma evolução, decerto caracterizada por rupturas e ciclos, mas não deixa de ser importante – pelo menos para mim – compreender até que ponto a evolução da arte determinou a produção actual.

O problema de pensar assim é que o passado é tão vasto que exige uma vida inteira para ser conhecido – e mesmo esta dedicação não chega senão para conhecer uma parte do que foi feito. Resta-me, pois, orientar-me segundo algumas referências para tentar compreender a arte, sempre com a consciência de que o meu conhecimento será sempre necessariamente superficial, incompleto e inconsistente. O que é uma pena, evidentemente, mas a vida que escolhi não é a do estudioso das artes.

Mesmo na fotografia, que é uma arte muito recente, pouco sei sobre os clássicos. Não por estes remontarem a um passado remoto e indocumentado, mas pela profusão que a fotografia possibilitou. Nunca conhecerei todas as fotografias de Alvin Langdon Coburn e de W. Eugene Smith. Contudo, sinto que, enquanto este conhecimento dos mestres do passado não estiver completo, não poderei compreender o presente. O que, evidentemente, obsta a que conheça bem os contemporâneos. Já li a Ilíada e a Odisseia, mas não conheço nada de Paul Auster; vi inúmeras fotografias de Henri Cartier-Bresson (mesmo em exposição), mas não consigo lembrar-me de uma só de Wolfgang Tillmans. Triste, não é?

Não surpreende, atento o facto de o tempo que dedico aos históricos não chegar para os contemporâneos, que a obra de Ren Hang me tivesse passado de todo despercebida até ler notícias sobre a sua morte, no dia 26 de Fevereiro, com apenas 29 anos. O que foi uma injustiça.

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As fotografias de Ren Hang não são grande coisa para uma comunidade obcecada pela técnica que exige sensores de médio formato nas suas compactas e se deixa maravilhar por artifícios técnicos superficiais: por exemplo, as fotografias nocturnas sofrem de excesso de iluminação do flash. Contudo, nada disto é importante. O que conta, nas fotografias de Ren Hang, é a enorme sensação de liberdade e beleza que delas exala. E é também a transgressão, claro. Os nus de Ren são integrais, impúdicos – mas são, sobretudo, naturais. Pelo menos quando se é jovem, porque os modelos são jovens, de corpos firmes e plenos de vida. Pela concepção de Ren, a nudez é comum a todas as pessoas. Qual o problema de mostrá-la, se é assim? Infelizmente, nem todos pensam tão saudavelmente e Ren Hang foi proscrito e censurado pelas autoridades chinesas (o que talvez lhes devamos agradecer, porque assim aumentaram a notoriedade do fotógrafo).

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Mas a transgressão das fotografias de Ren não é tão superficial que se circunscreva à nudez dos modelos: há também o facto de os modelos serem fotografados em cenários improváveis e serem frequentemente acompanhados de animais, sendo que, nas fotografias em que estes últimos figuram, Ren se empresta a jogos de sobreposições que nem sempre são bem sucedidos (na minha opinião, que é apenas a minha opinião). O resultado é que a obra de Ren Hang é uma das mais originais com que me deparei. E fez-me pena que ele tivesse morrido tão novo, com apenas 29 anos. Algumas das suas fotografias – aquelas em que os corpos moldam formas esculturais – fazem-me lembrar, com simpatia, uma das minhas fotografias favoritas de sempre, que tanto me fez reflectir sobre a arte contemporânea, a nudez e a beleza: refiro-me a Dois Nus Vistos de Trás, do mestre japonês Kishin Shinoyama.

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Apesar da vibração de vida, da pujança, da beleza e do sentido de humor estampados nas fotografias de Ren Hang, ele sofria crises de depressão que o levaram ao suicídio. Isto deixa-me a pensar: a depressão é um traço comum em muitas das mentes mais brilhantes e criativas. Não sei se será provocada pela incompreensão, pela dificuldade que alguém sensível tem em integrar-se num mundo frio e duro ou por outra razão qualquer – mas, seja o que for, é suficientemente forte para que se perca a força motriz que nos faz levantar de manhã com a coragem – e o prazer – de viver mais um dia. Como se, de repente, tudo tivesse perdido valor e deixado de valer a pena. Ou talvez seja por a sensibilidade fazer intuir com mais profundeza o absurdo da vida e a falsidade do mundo. Quem sabe?

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O que sei é que o mundo perdeu um grande fotógrafo. Felizmente, dele ficará a sua obra.

M. V. M.

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