Evoluir

 

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Finalmente encontrei inspiração para escrever qualquer coisa. E foi graças ao melhor website que se pode visitar quando não se tem nada para fazer, não apetece fazer nada e se está a morrer de tédio: o boredpanda.com

Pois bem: quando começamos a fazer algo de criativo – não vou ao ponto de lhe chamar artístico –, temos sempre a ilusão de que o que acabamos de fazer é brilhante. Exultamos; apetece-nos sair à rua cantando e dançando e apetece-nos mostrar o que fizemos a toda a gente.

Pode acontecer, porém, que entre essa «toda a gente» a quem queremos mostrar as nossas coisas esteja alguém com algumas noções acerca da arte que escolhemos. Mais raramente, podemos mesmo ser confrontados com uma opinião sincera. O que nos dirão pode ser doloroso: normalmente será qualquer coisa fazendo alusão à falta de originalidade, seguida de uma dissecação das falhas técnicas.

Evidentemente, todos nos sentimos profundamente ofendidos quando isto se passa connosco. Algumas pessoas, embora intuindo facilmente as falhas do nosso trabalho, são demasiado educadas para nos confrontarem com a sua opinião. Com isto, porém, não estão a fazer nenhum favor ao aspirante a artista: estão apenas a deixá-lo convencer-se de que o que fez tem algum mérito e estão a encorajá-lo a persistir nos erros. Muitas vezes esta indulgência tem qualquer coisa de complacente: o crítico sabe ou intui que não vale a pena fornecer uma opinião sincera porque o aspirante nunca atingirá um nível de qualidade que lhe permita afirmar-se como artista. Esta indiferença é, mesmo que não o percebamos, a mais contundente e dolorosa forma de crítica: mais tarde vamos perceber que aquela pessoa pensa que somos meros medíocres. E a mediocridade é o pior dos defeitos.

Mesmo sem críticas, porém, é possível que aqueles de entre nós que têm um espírito autocrítico, ou pelo menos que sentem vontade de evoluir constantemente, se apercebam da falta de qualidade dos seus esforços iniciais. No meu caso – eu não consigo fotografar com o grau de abstracção que pretendo para as minhas fotografias, mas tornei-me um crítico áspero de mim mesmo – olho com horror para o que fiz no meu não tão remoto passado. São muito poucas as fotografias que fiz nos meus inícios das quais me posso verdadeiramente orgulhar: foi tudo cheio de diletantismo, de autocomplacência, de ilusão. Dos muitos milhares de fotografias que fiz com a point-and-shoot, apenas duas se aproveitam; o mesmo quanto aos meus primeiros dois anos com a E-P1, E agora olho as fotografias do meu período analógico e concluo que por cada rolo há, quando muito, uma ou duas fotografias verdadeiramente boas.

O pensamento de que me cheguei a orgulhar de coisas que fiz em 2010 e 2011 chega a ser embaraçoso e deixa-me a pensar na figura que terei feito ao mostrá-las a outras pessoas. As minhas limpezas do Flickr são uma revelação: já devo ter apagado o correspondente a cinco vezes o número de fotografias que mantenho agora online. Ver aquelas fotografias foi embaraçoso. Nem mesmo no Flickr, cujos padrões estão longe de ser excelsos, aquelas fotografias mereciam ser mostradas. Apagá-las foi tanto um acto de higiene como de preservação do amor-próprio.

A única fotografia de principiante da qual me orgulho - e disseram-me que devia cortar a rapariga do lado esquerdo!
A única fotografia dos tempos de principiante da qual me orgulho – e disseram-me que devia cortar a rapariga do lado esquerdo!

Nada disto, porém, me parece ser exclusivo de mim mesmo. Penso que toda a gente passa por isto. Se não fosse assim, Cartier-Bresson não teria afirmado que as nossas piores fotografias eram as primeiras dez mil. E isto com referência à fotografia analógica – porque, se HC-B tivesse vivido e fotografado na era digital, esse número teria de ser multiplicado por dez ou mais. Penso que é um caminho que tem de ser percorrido – e, se nunca ficarmos satisfeitos, tanto melhor: é sinal que queremos sempre ir para a frente e revolucionar-nos a nós mesmos. A pior estultícia é pensar-se que se é bom e não se evoluir, conduta que infelizmente é mantida por uma imensa multidão de pretendentes a fotógrafo. Chacun a son goût

M. V. M.

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