Mais leituras (ou como a literatura pode mudar a maneira como fotografamos)

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Stefan Zweig

Alguns leitores poderão, porventura, interrogar-se por que surgem tão frequentemente, aqui no Número f/, textos que nada têm que ver com fotografia. Já escrevi aqui sobre música, literatura, política e mesmo alta fidelidade e automóveis, temas que não estão nem remotamente ligados à fotografia.

A razão é muito simples: este não é um blogue de fotografia como os outros. É o meu blogue e eu tenho outros interesses para além da fotografia. Contudo, este não é, em sentido estrito, um blogue pessoal; se fosse, ter-lhe-ia dado um nome que não estivesse tão intimamente relacionado com a técnica fotográfica. A minha opção por escrever e publicar textos fora do âmbito da fotografia é deliberada. Cada fotografia que o leitor faz – ou eu mesmo, evidentemente – carrega consigo muito do que o seu autor é. Cada fotografia incorpora o acervo de conhecimentos e experiências de vida do seu autor, mesmo que este fotografe casualmente e procure ser objectivo e textual. Mesmo quando imita, o fotógrafo está a mostrar algo de si, nem que seja que é uma pessoa limitada, sem imaginação e que gosta de seguir caminhos já trilhados e bem batidos.

Penso que é muito importante compreender o que acabei de expor. Se virmos bem a obra dos fotógrafos verdadeiramente bons, não temos como negar a influência da sua experiência de vida, das suas concepções sobre o mundo e da sua erudição. Numa palavra, a fotografia revela muito de cada um. Por vezes mais do que o desejado pelo autor.

Porque tenho esta concepção de que a fotografia contém em si tudo o que o seu autor é, parece-me muito natural que um blogue como este não se circunscreva à sua temática. Com efeito, quanto mais variado for o mundo do fotógrafo, maiores serão as possibilidades de a sua fotografia ser rica em significados.

Vamos, então, sem mais delongas, ao assunto que motivou esta longa tergiversação. Contei aos leitores que estive num outlet do livro, onde aproveitei para comprar algumas obras que me mereceram interesse. Uma delas foi Amok, do austríaco Stefan Zweig. Este autor ganhou uma reputação imerecida de ser um escritor de banalidades cujos livros, repletos de lugares-comuns, dificilmente merecem ser havidos como literatura. Com efeito, Zweig era imensamente popular no seu tempo, mas seria injusto pensar nele como o Nicholas Sparks do início do Século XX. Pelo menos na minha opinião, que é pouco fundada. Com efeito, apenas li três obras de Zweig – e uma delas é uma biografia –, o que não me autoriza a discorrer sobre ele.

Contudo, hoje aconteceu-me algo de singular que me atiçou a curiosidade por um autor que escreveu livros como Confusão de Sentimentos ou Segredo Ardente. Estava a ler Amok e notei que, apesar de o livro ainda não ir a meio, a narrativa aproximava-se rapidamente do seu desfecho. À medida que me aproximava do que se tornava óbvio que seria o final do conto, pensava como poderia Stefan Zweig ter prolongado o texto por todas aquelas páginas que faltavam. Percebi um pouco depois, quando atingi o fim de Amok (que, diga-se, é excelente), que, apesar de não haver qualquer menção disso na capa, o volume continha outra novela, esta intitulada Carta de Uma Desconhecida. Conhecendo a reputação de Stefan Zweig, imaginei que seria algo de xaroposo, mas predispus-me a ler sem preconceito.

Ainda bem que o fiz. Diante dos meus olhos, nestas páginas anacronicamente tipografadas – o meu exemplar de Amok é um fac-símile da 3.ª edição da Livraria Civilização, a qual foi lançada em 1942 – desenrolou-se, para minha enorme surpresa e incontida estupefacção, o mais belo conto de amor que alguma vez li. É um conto epistolar que narra a paixão de uma jovem mulher por um vizinho que teve na adolescência, um romancista abastado mas ainda jovem. A intensidade da paixão da jovem é contada de uma maneira tão bela e arrebatadora, tão plena de força e de sensibilidade, que me fez perceber de imediato que estava a ler uma obra de génio, escrita por alguém de intuição penetrante e sensibilidade romântica (romantismo, no sentido da corrente artística que caracterizou o Século XIX, é o predomínio da sensibilidade sobre a razão).

Será esta, porventura, uma leitura fácil, acessível a uma massa que se estende muito além do círculo restrito da intelectualidade; mas – e depois? Acaso não se passa o mesmo com o nosso Camilo e o Amor de Perdição? O amor e o romantismo são uma parte importante da vida. E, acreditem ou não, a sua presença nas nossas vidas vai ficar embebida nas nossas fotografias. Leiam Carta de Uma Desconhecida e deixem-se comover e arrebatar, mesmo que a sua leitura se venha a tornar no vosso pecadillo inconfessável. Vai ser bom para a vossa fotografia. Bem melhor do que saber as equações da equivalência será de certeza.

M. V. M.

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