Adivinhem quem ganhou

https://www.worldpressphoto.org/sites/default/files/styles/gallery_main_image/public/m2aj3s1qzzvayrcapet2.jpg?itok=T8zc2Vg6
Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a capacidade de avaliação e clarividência do M. V. M., agora vai provavelmente encher-se de certezas. O M. V. M. elegeu uma fotografia como fotografia do ano – podem confirmar aqui – e a World Press Photo atribuiu, hoje mesmo, o primeiro prémio a essa mesma fotografia. Quem sabe os membros do júri não são leitores do Número f/.

Antes que chovam críticas à minha presunção, devo esclarecer que estava apenas a ser jocoso no parágrafo anterior. Sim, é verdade que, num texto escrito no dia 24 de Dezembro do ano passado, considerei a fotografia do turco Burhan Ozbilici «mais importante que todas as demais»; e é também verdade que esta mesma fotografia ganhou o prémio de fotografia do ano da World Press Photo de 2016. Contudo, não há nenhuma relação causa-efeito entre ambos. Decerto ninguém da WPP lê o Número f/, nem o M. V. M. tem dons divinatórios. A única coincidência é a de esta fotografia ser excepcional. Se algum mérito tenho, este foi, não o de adivinhar qual ia ser o prémio – o qual era, francamente, mais que previsível –, mas o de ter reconhecido o mérito da fotografia e do seu autor.

Esta fotografia de Burhan Ozbilici tem tudo o que é imprescindível para ganhar prémios de fotojornalismo: é extremamente forte e expressiva, relata um acontecimento actual e tem um cunho fortemente simbólico: é um libelo contra a obscenidade da violência e a gratuidade do homicídio. Acima de tudo, porém, é uma prova da necessidade do fotojornalismo: o mundo precisa de profissionais com estofo para fazer fotografias como esta. O «jornalismo de cidadão», entendendo-se como tal o facto de um transeunte ter um telemóvel à mão aquando de um dado acontecimento e fazer uma foto ou um vídeo (o qual, aparentemente, tem de ser vertical), nunca será capaz de produzir fotografias como esta. É preciso um olhar bem treinado e uma capacidade de fazer escolhas complexas numa fracção de segundo (como por ex. quanto ao enquadramento) para que aconteçam fotografias assim. E uma coragem a toda a prova, acrescente-se.

Contudo, nem toda a gente pensa desta maneira. Quando os prémios da WPP são tornados públicos, segue-se sempre um chorrilho de críticas de gente que se declara chocada por ter sido mais uma vez o horror e a violência a servir de tema à fotografia premiada.

O que queriam eles que a WPP premiasse? Fotografias de uma cascata com arrastamento da água? Uma flor com imenso bokeh? Um macro de um insecto? Estas críticas parecem-me provir de pessoas que não fazem a menor ideia do que é fotojornalismo e vituperam tudo quanto deixe a nu a realidade crua da violência e do horror (como se o mundo não fosse composto deles). Tendi a ver, nesta recusa do fotojornalismo mais directo, uma espécie de pudor, de puritanismo, mas agora tudo encaixa na perfeição: o que essas pessoas têm é horror à liberdade, em especial à de imprensa. Estas pessoas gostariam, certamente, de apenas ser informadas do que há de maravilhoso no mundo, mas o fotojornalismo não pode desempenhar esse papel. A sua função é informar, e não transmitir uma ideia falsa do mundo.

Estes críticos querem censura e querem que apenas aquilo que lhes seja agradável constitua notícia. Não é surpresa nenhuma que Donald Trump e a sua entourage tenha escolhido a imprensa como principal inimigo: há pessoas para quem a imprensa apenas serve para ser instrumentalizada e reagem mal quando as notícias não fantasiam um mundo cor-de-rosa. Uma imprensa livre é um enorme obstáculo para estes construtores de factos alternativos.

É assim que anda o mundo. Há pessoas que, em lugar de ficar gratas por haver quem lhes mostre a verdade dos acontecimentos, refila e resmunga por não lhes mostrarem um mundo de sonho. O mundo não é de sonho: apesar de toda a sua beleza, é também composto de crime, violência, miséria e horror. Ignorar isto não vai fazer com que os males desapareçam.

M. V. M.

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