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A minha transição de 2016 para 2017 foi acompanhada por dois livros, ambos de Marguerite Yourcenar: A Obra ao Negro e Memorias de Adriano. Foram dois livros belíssimos que reli, depois de tê-los lido há cerca de vinte anos.

Na verdade, porém, foi como se os tivesse lido pela primeira vez: não retive nada das primeiras leituras. Não percebi que por detrás das narrativas históricas estava uma análise profunda dos dias que se viviam à data em que as obras foram escritas, como se Marguerite Yourcenar tivesse querido dizer que existe um devir eterno – ou melhor: uma continuidade que eternamente se renova. Nem me apercebi, nas primeiras leituras, da luta entre as forças da razão e do obscurantismo que se manifestavam ainda – e são agora ainda mais actuais – quando A Obra ao Negro foi escrita, do carácter profético de Memórias de Adriano quando se conta a repressão dos judeus pelo império romano, ou da apologia do amor livre com que Yourcenar se antecipou em três décadas aos movimentos que despontaram no anos 60 do século passado. Não sei com que estado de espírito terei lido aqueles livros, mas fi-lo desatentamente. Ou talvez as reflexões que a leitura me mereceu então não tivessem perdurado na minha memória.

Ler um romance nunca é, para mim, seguir uma narrativa: é sempre um teste à minha atenção. Um autor nunca se limita a escrever uma história: está permanentemente a deixar em escrito a sua visão da vida e do mundo. O que me seduz, na leitura, é descobrir essa visão. As minhas leituras tendem a ser pessimistas, pois os meus autores predilectos vertem pessimismo nas suas obras. Nelas se descrevem os vícios e os defeitos que são naturais ao homem. Nem podia ser de outra maneira: se as pessoas fossem perfeitas, que haveria para contar?

Este pessimismo a que aludo não é, porém, o mesmo que negativismo: a única obra cínica e completamente descrente do homem e das suas virtudes que li foi Nana, de Émile Zola, que era decerto um homem amargo e descrente na humanidade. Os revolucionários chineses de A Condição Humana (André Malraux) são capazes de matar, fraquejam e são assaltados por dúvidas, mas existe neles uma fraternidade uma pureza de ideais que enobrece a espécie humana; o capitão Ahab de Moby Dick tudo sacrifica na sua loucura de capturar o mastodonte branco, mas que seria do homem sem o sonho e a ambição?

Não é nenhum sentido oculto que procuro nos livros que leio: é uma mensagem. Porque o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum. O que procuro é o que o autor incorpora das suas ideias nos seus contos e romances; é o que ele quer que percebamos, sem contudo o deixar explícito. Cada autor confia na inteligência dos seus leitores para descobrir que ideias subjazem à construção das suas personagens e ao destino que lhes dá.

Claro que, tal como na fotografia, na literatura há a artística e a de pechisbeque. Não sei dizer quando a literatura se tornou num negócio (se não o foi sempre), mas o surgimento de uma indústria literária – há autores que apenas dão o nome aos seus best sellers, que são escritos por equipas de escritores assalariados – foi algo de muito mau. Abastardou a literatura. Eu nunca conseguirei abrir, ou sequer tocar, um livro de Dan Brown, Nicholas Sparks ou de Sveva Casata Modignani (entre muitos outros). Livros como os destes autores seguem fórmulas para agradar a públicos amplos, mas que dizem eles sobre a vida? Nada. Tudo o que pudermos aprender com eles se situa num nível que nunca ultrapassa a frivolidade e o comezinho. São livros cientificamente estudados para vender aos milhões, mas, depois de lidos, nada resta, nada perdura.

Felizmente, livros como estes são facilmente esquecidos. Hoje leio obras que foram escritas há um ou dois séculos; quem se lembrará de O Código da Vinci dentro de cinquenta anos? E as imitações de José Rodrigues dos Santos, sobreviverão elas ao seu autor?

Esta efemeridade do pechisbeque literário tem uma manifestação corpórea nos milhares de livros que ficam por vender. Não há nada mais deprimente do que ver livros de Ken Follett numa banca de uma feira do livro, num escaparate da M Books ou num alfarrabista pouco criterioso. São objectos inúteis, sem valor, que ninguém quer porque nada têm de genuíno a dizer. Leram-se uma vez e cumpriram a sua função epidérmica de entreter, como um filme medíocre de Hollywood.

Isto veio a propósito da minha visita de hoje ao «outlet do livro» que está instalado no Pavilhão Rosa Mota. É deprimente ver aqueles livros: são guias da sexualidade (porque há quem precise de aprendê-la em livros…), obras com títulos ridículos que ninguém no seu juízo quer ler – e muito menos comprar –, livros datados de episódios históricos irrelevantes, e, evidentemente, muitos best sellers de literatura barata. De todos os livros que ali havia, só alguns me mereceram atenção. Já lera alguns deles e outros não me interessavam, pelo que saí de lá com apenas quatro livros: um pequeno conto de Thomas Hardy (porque a leitura do seu Judas, o Obscuro, foi um momento memorável das minhas leituras) intitulado O Pregador Atormentado, Amok, de Stefan Zweig, uma colectânea de contos de Henry James (autor do qual nada conheço) e um ensaio de Mario Vargas Llosa sobre o conflito israelo-palestiniano (porque me interessa conhecer a opinião de uma mente brilhante sobre este tema, ainda que não me identifique com as ideologias que ele propugna). E foi tudo. O resto era bafiento e tão útil como cadáveres depois de autopsiados.

M. V. M.

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