Isto promete

https://i2.wp.com/bergger.com/media/catalog/product/cache/3/image/650x650/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/d/s/dsc00856.jpg

Este ano está a começar com muitas coisinhas boas para os aficionados da fotografia analógica. Primeiro foi a notícia do regresso da Ektachrome; e hoje fiquei também a saber que a Bergger, uma empresa francesa que está no mercado há mais de um século (apeteceu-me acrescentar «sem ninguém dar por isso», mas pode não ser verdade…), relançou a película para preto-e-branco Pancro 400 (lê-se «Pancrô catressã», carregando nos rr) nos formatos 120, 135 e em chapas 4×5, 5×7, 13×18 e 8×10. Como se diz para aquelas bandas: oh-la-la (lê-se «ô-lá-lá»). Contudo, o rolo 135 custa, se for importado directamente do website da Bergger (pelo que há que acrescentar os custos da remessa), a quantia de €6,46. O que o torna pouco competitivo quando comparado com o Ilford HP5 e, sobretudo, com o excelente Kentmere 400. (Mas, ao preço que o Tri-X está, pode ser uma boa alternativa para os adeptos da película mitológica da Kodak).

E a FILM Ferrania, na qual eu começava fundadamente a descrer, vai finalmente colocar no mercado a película preto-e-branco P30 Alpha. Que, apesar do nome, tem uma sensibilidade ASA 80. A FILM Ferrania, que, como sabem, renasceu graças a um crowdfunding – seria disparatado dizer que é uma startup – tem uma grande tradição e um orgulho muito particular no seu passado. E não sem razão, diga-se. No entanto, eu esperaria um pouco, em lugar de pernoitar à porta da loja para ser o primeiro comprador: o projecto FILM Ferrania baseou-se na recuperação de maquinarias da primitiva Ferrania e isso vê-se bem nas fotografias com que se exemplificam as qualidades do P30. Estou certo que os problemas verificados (riscos e variações no contraste) serão resolvidos, mas isto pode demorar. Seja como for, parabéns à FILM Ferrania – não apenas por relançar películas, mas também pela honestidade de não esconder os problemas dos potenciais clientes e assumir que esta película está ainda, como o nome indica, na fase alpha de desenvolvimento (segue-se o beta-testing e, depois, o produto final).

Eu não vou ser cabotino ao ponto de dizer que os dois últimos produtos não me interessam por ter decidido usar película a cores. Ambos me interessam. A julgar pelas amostras disponíveis na internet, a Bergger parece ter uma qualidade muito límpida (a despeito de ser ASA 400) e a P30 deve ser interessante, a julgar pelo contraste muito agudo que surge em algumas fotografias (embora este contraste possa ser resultado dos problemas iniciais a que aludi). Eu faço questão absoluta de experimentar ambas e vou fazê-lo quando estiverem disponíveis em Portugal.

Há mais. O que vou escrever é quase um truísmo, mas tem de ser mencionado. O facto de haver empresas a renascer e a lançar novas películas no mercado (ou novas versões de velhas películas) só pode querer dizer uma coisa – a fotografia analógica está hoje mais pujante do que há dez ou quinze anos, quando a fotografia digital se impôs no mercado. Este entusiasmo crescente não é uma coisa de velhos nostálgicos de vistas curtas que se recusam a aceitar os benefícios da fotografia digital e insistem nas suas práticas arcanas: quando vou a lojas onde se vende material para fotografia analógica, vejo que os clientes são predominantemente jovens, alguns dos quais ainda sem terem chegado aos vintes. O mesmo quando ando na rua e atento nas máquinas que as pessoas transportam consigo. É extremamente salutar ver este interesse crescente pela fotografia analógica. Egoisticamente, assegura-me que o material – especialmente as películas, evidentemente – ainda estará disponível por muitos anos, mas este interesse dos jovens significa, sobretudo, que há uma multidão que ainda leva a fotografia a sério. O que é motivo de esperança.

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “Isto promete”

  1. Pegando no ultimo paragrafo e relativamente ao facto de serem os jovens a pegar nas máquinas analógicas, acho que haverá duas razões para tal. Primeiro porque haverá um certo romantismo à volta do analógico e segundo porque para imagens digitais já têm os telemóveis, que me parece ser um produto indispensável no bolso de qualquer adolescente ou adulto em inicio de carreira.
    Ou seja, para a juventude que pretende ou gosta de estudar fotografia fará sentido esta atitude em relação ao analógico e ao digital….. e depois porque as Fujifilm são caríssimas para carteiras ainda jovens.

    No entanto, e falando por experiência própria, estou tão saturado de imagens e maquinas digitais e as suas super características, que realmente é preciso nunca perder a noção do essencial. Para mim, tecnicamente, a fotografia são três coisas – velocidade, abertura e ISO. Todos aqueles que querem mais do que isto na realidade não querem, apenas acham que por terem mais coisas vão tirar melhores fotografias.

    A fotografia analógica ensina-me a ver, a pensar melhor na imagem, a seleccionar melhor o rectângulo onde eu quero condensar uma ideia no tempo e no espaço. No entanto, o digital dá-me uma vantagem enorme, que é a seguinte: a capacidade de produzir imagens em qualquer circunstancia, e isso, para gravar momentos, por exemplo, em família, é importante. Não ostracizo o digital nem endeuso o analógico. São apenas formas diferentes de abordagem aos assuntos e ainda bem que vou podendo escolher…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s