Os malefícios do tabaco

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Hoje completei um ano sem fumar. Foi a tentativa mais longa das três que ensaiei – uma em 1994, que durou apenas três meses, outra em 2003, que se prolongou por oito meses, e finalmente esta, iniciada no dia 31 de Janeiro de 2016. Apesar de ter passado um ano sem fumar, ainda não me considero um não fumador – qualidade que só ostento quando me cravam cigarros.

A verdade é que, em espírito, ainda sou um fumador. Ainda sinto vontade de fumar e, apesar de um ano ser um período de tempo considerável, tenho a sensação estranha de que esta abstinência é transitória e vai terminar um dia. Não é que o queira: a minha mente é que ainda não concebe uma vida sem tabaco. Ou então é algum truque que inconscientemente desenvolvi para suportar a privação, não sei. (Eu desisti há muito de tentar compreender como a minha mente funciona.)

Seja como for, o meu método para deixar de fumar foi 100% natural e gratuito: não implicou consultas médicas, nem medicamentos ou sucedâneos do tabaco. Eu conheço um sujeito que decidiu enveredar pelos cigarros electrónicos e usava argumentos imensamente lógicos para justificar a inalação de nicotina – aparentemente, recusava-se a ver o paradoxo de estar a ingerir a substância mais nociva e viciante do tabaco sob outra forma –, com o resultado, provavelmente bastante previsível, de ter trocado aquela espécie de narguilé miniaturizado por cigarros a sério ao fim de poucos meses. O meu método foi muito simples: não fumei. Foi tudo quanto precisei. Deixei de comprar cigarros e, consequentemente, de fumá-los. Nada de Nicorettes ou de consultas de desabituação. A minha permanência sem fumar durante um ano foi, exclusivamente, um triunfo da vontade. Foi duro? Sim. Houve momentos em que me apeteceu desistir? Sim. (Ainda há.) Fumei uma só passa que fosse durante este período de um ano? Não.

E, contudo, ainda penso que fumar é uma coisa com imensa classe e que transmite um prazer incomensurável. Muitas vezes é mais fácil pensar no que o tabaco tem de bom – se é que tem alguma coisa – do que nos seus malefícios. Chego ao extremo de romancear o acto de fumar: com efeito, já não me lembra a violentação dos brônquios que o primeiro cigarro do dia produzia: só consigo pensar em como era bom fumar aquele cigarro, especialmente depois de um bom café. Também não me lembra do cheiro do tabaco nas roupas e nos dedos, das paredes amareladas, do cheiro repugnante dos cinzeiros, dos dentes e pontas dos dedos amarelados nem do dispêndio obsceno de dinheiro: só me lembro do cafezinho e do cigarro que se lhe seguia e cuja falta me deixou um curioso sentimento de solidão, desamparo e tristeza nos primeiros tempos.

Benefícios? No Verão, resolvi dar umas corridas. Eu não sei correr – magoo sempre os gémeos –, mas numa dessas corridas resolvi subir uma rua particularmente íngreme. Tinha a certeza de que ia fraquejar, porque era essa a reacção que esperava do meu organismo tal como o conhecia depois de mais de trinta anos como fumador; contudo, não só completei a subida como senti que podia aumentar o ritmo e, uma vez chegado ao cimo, não demorei a recuperar a respiração. Porém, não dou valor a isto, nem aos dentes mais claros, à ausência de odores ou ao dinheiro que se esvai muito mais lentamente. Tudo o que sinto é saudades dos cigarros – e uma preocupação crescente com o aumento de peso, mesmo se este se resumiu a dois insignificantes quilos.

Esta é a força do vício: a despeito de toda a evidência, continuo a só pensar no que o acto de fumar tinha de bom: os momentos de convívio, o preenchimento de tempos vazios, o sabor que o cigarro adquiria em certos momentos. Seja como for, consegui resistir durante um ano. Nada me diz que não conseguirei atravessar outro ano e mais outro, nem vejo por que razão não o faria. A força que me tem mantido afastado dos cigarros é suficientemente poderosa para que eu encare o regresso à condição de fumador como uma impossibilidade. Basta que me lembre daquele médico que me atendeu nas urgências do Hospital de Santo António no dia 23 de Janeiro de 2016 e da maneira como ele me perguntou, depois de ver o Raio-X dos meus pulmões: «quando é que vai deixar de fumar?» Dei-me a mim mesmo uma semana para me preparar e, no dia 31, iniciei a minha tentativa. Não há retorno possível quando se é posto diante de uma premência como a que me foi tão subtilmente evidenciada.

M. V. M.

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3 thoughts on “Os malefícios do tabaco”

  1. Boa noite!
    Eu gosto muito do seu blogue, pelo gosto na fotografia.Não leio por completo todos os posts, mas fico muitas vezes deliciado ao ler e também ver as suas fotografias. Parabéns!

  2. Tive dois enfartes e não consegui abandonar a companhia do cigarro, mas há quase um ano, no dia 9 de março, fumei o último (espero que sim!) cigarro.Partilho as mesmas sensações descritas por si.

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