A fotógrafa política

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Não é possível esperar, das pessoas que tomaram o poder em Washington D. C., que tenham qualquer tipo de sensibilidade artística. Aquela gente é grosseiramente materialista, inculta, ignorante e fanática. Não me quero alongar acerca de decretos presidenciais lunáticos (mas perigosos) que não têm qualquer verosimilhança com a realidade – como o de suspender a entrada nos EUA a pessoas oriundas de sete países árabes invocando o 11 de Setembro como pretexto, mas não incluindo entre esses países os de origem dos terroristas que desviaram os aviões –, mas traçar, se me é possível e permitido, o perfil psicológico daquela gente. São gananciosos e egoístas, têm tendências psicopáticas e são fanáticos, intolerantes e dúcteis – no sentido em que dizem o que for necessário para justificar os seus actos, mesmo que seja a mentira mais descarada e o desdigam no dia seguinte, ostentando a mesma cara com que haviam mentido no dia anterior. Não é de esperar que pessoas como estas tenham um mínimo de sensibilidade. Não têm um mundo interior (a não ser as suas neuroses e obsessões), são incapazes de fantasia e imaginação (embora lhes seja de reconhecer alguma habilidade táctica, o que não é o mesmo) e tudo nas suas vidas é orientado para os seus interesses, todos eles de natureza material. O que não quer dizer que vivam na realidade: eles têm os meios para construir uma realidade própria que não é a do mundo, mas a sua, e que conseguem impor a todos os demais.

Tudo isto pode parecer um preâmbulo para mais um texto fora do tema, mas não é. Os presidentes norte-americanos – ou melhor: aquilo a que se chama a Casa Branca, conceito que abrange mais que a presidência – têm um fotógrafo oficial. No caso de Barack Obama, esse fotógrafo chamava-se Pete Souza e, evidentemente, todos simpatizamos com ele porque o apelido denuncia uma origem portuguesa, mais exactamente dos Açores. Mas, sobretudo, é um excelente fotógrafo em cujas fotografias se nota ainda a influência do maravilhoso Erich Salomon. (Se não acreditam em mim, podem ver com os vossos próprios olhos aqui.)

Ora, o Trump – uma boa notícia é que já lhe está a pegar o cognome «Gump», que lhe fica bem – também designou um fotógrafo oficial da Casa Branca. Mais exactamente uma fotógrafa, de nome Shealah Craighead. E agora o leitor vai ver como o primeiro parágrafo deste texto não é nada despropositado, antes encaixando perfeitamente no resto como uma peça num puzzle: é que a senhora não tem um mínimo de talento fotográfico. Não tem imaginação nas cenas que escolhe, não tem qualquer sentido de composição e enquadramento, escolhe crops irracionais e inestéticos (é o tipo de pessoa que corta as pessoas que figuram no enquadramento pelos tornozelos), é descuidada com a iluminação. Por outras palavras: não tem sensibilidade fotográfica. Eu, que não tenho equipamento adequado nem qualquer tipo de vocação para fotografias daquela natureza (além de ser um mero amador e de ser um pouco lento no acto de fotografar), faria melhor. O Instagram dela parece o de uma rapariga de 12 anos que pediu emprestada a câmara do tio e onde não faltam selfies e fotografias de comida.

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Não sei do que gosto mais: o tecto ou a coluna de som?

Por que foi ela a escolhida? Bem, por alguma razão há-de ter sido. Pelo enorme talento não foi com certeza, mas esta Shealah Craigslist foi a fotógrafa da campanha de Sarah Palin que a levou até ao topo da sua carreira: o cargo de governadora do Alaska (que é tão importante como ser presidente da Câmara Municipal de Barcelos, mas é de Sarah Palin que estamos a falar). Penso que está tudo explicado: a Casa Branca escolheu Shealah Propellerhead porque não encontrou ninguém melhor. E também porque a direita é assim mesmo: como nutre desprezo pela cultura artística – isto não é uma declaração política: é um facto tão natural como a rotação da Terra, porque a direita ocupa-se do material, do monetário e do individual –, de pouco importa que as fotografias façam mais que mostrar as pessoas a fazer algo num dado momento. O problema é que a Shealah Dickhead nem isto faz bem: as suas noções de perspectiva são mais que discutíveis e os seus erros de composição chegam a ser ridículos.

Seja como for, é ela a fotógrafa oficial da Casa Branca. A sua contratação, se formos a ver bem as coisas, nada tem de surpreendente ou escandaloso. O que seria de estranhar, atendendo à rudeza e boçalidade daquela gente, seria que tivessem contratado um bom fotógrafo. (Ou uma boa fotógrafa, claro.)

M. V. M.

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3 thoughts on “A fotógrafa política”

    1. Fantástico.
      Lembro-me de ter lido um artigo acerca deste livro. Ao que parece, foi rejeitado porque W. Eugene Smith se encarregou do trabalho de paginação e artes gráficas. O livro foi considerado inviável por Smith não ter noções de composição tipográfica. Lembro-me que, no artigo que li, o sujeito entrevistado foi particularmente cáustico com W. Eugene Smith por causa disto.
      Seja como for, este é um livro que quero ter.

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