E se tivéssemos um pouco de calma?

A actual obsessão da comunidade fotográfica é esta câmara:

Resultado de imagem para fuji GFX-50S

Isto é a Fujifilm GFX-50S. Muitos, incluindo a própria Fujifilm, referem-se a esta câmara digital que está agora a ser lançada no comércio como sendo de «médio formato», mas isto é obviamente um disparate porque a GFX-50S (claro que tinha de incluir um “X”, senão não era uma Fuji) tem um sensor com área de 43.8×32.9mm, enquanto o verdadeiro médio formato – aquele dos rolos de película 120 – tem as dimensões de 6×6 (em centímetros), 6×9, 6×7 ou 6×4,5. Portanto, esta é uma câmara 4×3; está algures entre o verdadeiro médio formato e o 36×24 a que se convencionou chamar «full frame». Numa palavra: esta não é uma câmara de médio formato (mas mais tarde voltaremos à área do sensor).

Esta câmara é cara – posto ser a mais barata das médio formato (chamemos-lhes assim) digitais –, é grande e é feia, o que teoricamente contradiz os argumentos que as pessoas usam para justificar o seu interesse pelas mirrorless (quase me esquecia de mencionar que esta GFX-50S é uma câmara sem-espelho). Com efeito, não é transportável, é desajeitada e vai usar lentes enormes, mas que se dane: é uma mirrorless e as mirrorless, afinal, não são boas por serem compactas e relativamente baratas: são boas porque nelas é tudo electrónico. Os fanáticos das mirrorless sentem-se tão incomodados que parece que lhes falta o ar quando lhes mostram uma SLR (digital ou não). «Oh, não, que coisa obsoleta e grotesca: um espelho – e ainda por cima de accionamento mecânico. Mas estamos no Século XIX, ou quê?», dirão eles, porque só o que é electrónico é bom, porque «electrónico» é sinónimo de progresso e de futuro. O mesmo quanto ao visor óptico, evidentemente, porque se é «óptico» é rudimentar e obsoleto.

E isto é uma Fuji. Sabem, aquela marca que conseguiu pôr alucinados que outrora usavam T-shirts a dizer «I shoot raw» a fotografar em JPEG, porque isto é a única coisa que as mirrorless da Fuji fazem bem: fotografar JPEG com o processador a aplicar à imagem um filtro que imita as transparências da Fujifilm – o Velvia, o Provia e outras já extintas, mas que viverão para sempre na sua imitação digital. No resto, as Fuji fazem tudo mal: os ficheiros Raw não têm nitidez, a focagem automática é um desastre e só se tornam boas depois de um número incomensurável de actualizações. Podia ser divertido, de uma forma mais ou menos lomográfica, fotografar com as Fuji X-Não-Sei-Das-Quantas, por causa das cores, mas estas câmaras são caríssimas. E as lentes também. E, embora a falsa médio formato tenha um sensor Bayer, e não os inúteis X-Trans, as pessoas babam-se por esta câmara porque é uma Fuji. A Hasselblad tem uma câmara mirrorless com um sensor enorme que é muito mais bonita (posto um pouco mais cara), mais pequena e manuseável, mas não tem os filtros que simulam o Velvia e o Provia, por isso não presta.

Voltando ao sensor: as pessoas deixaram-se convencer que precisam de um sensor enorme por causa do bokeh e daquilo a que chamam «gama dinâmica», pelo que vão andar à volta da Fuji GFX feitas abelhas ensandecidas à volta da colmeia. É um disparate. As pessoas deviam, antes de se deixarem embarcar numa aventura ruinosa, perguntar a si mesmas e responder com muita honestidade se são suficientemente boas na fotografia para tirar partido de uma câmara com esta resolução (também seria sensato se perguntassem a si mesmas se a placa gráfica do seu computador aguenta processar ficheiros deste tamanho). De certeza que, se fossem francos consigo mesmos, 99% dos interessados na Fujifilm GFX responderiam que esta câmara não é para eles. Quanto aos restantes 1%, são os profissionais. Estes têm à sua disposição câmaras modulares muito sérias que lhes possibilitam usar cassetes (backs) diferentes, em lugar de estarem limitados a um só sensor, com uma focagem decente e lentes com obturador central com as quais o flash sincroniza em todas as velocidades. Não precisam da Fuji GFX-50S para nada.

Portanto, temos aqui uma câmara que não se percebe para quem é, ou qual a sua utilidade, mas muitos vão comprá-la porque sim. Porque é uma Fuji. Porque é uma mirrorless. E porque tem um sensor enorme. Esperem só até ver a cara destas pessoas quando souberem quanto vão custar as lentes para esta câmara.

M. V. M.

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2 thoughts on “E se tivéssemos um pouco de calma?”

  1. Sim, estou de acordo que é preciso ter calma. Em quase tudo o resto estou em desacordo. Compreendo que a intenção seja uma provocação mordaz a um universo de fanáticos que se preocupa mais com a técnica e com as especificações do equipamento.
    Penso que a Fuji está no bom caminho e construiu uma alternativa para que muitos profissionais possam aceder a um equipamento de qualidade a um preço razoável. De resto, a Fuji GFX 50 tem o tamanho e o peso de uma DSLR com sensor full frame e parece-me que as objectivas não serão maiores do que as que as Canon 5D ou as Nikon D800 usam e é apenas 75 gramas mais pesada do que a Hasselblad. Quanto ao sensor enorme da mirrorless da Hasselblad, este tem exactamente as mesmas dimensões do sensor da Fuji:)
    Já quanto ao preço há uma grande diferença sendo que a Hasselblad é 3.000 euros mais cara do que a Fuji. O mesmo se aplica quanto às objectivas. As da Fuji são mais baratas e a sua qualidade é excelente. A Fuji sabe construir lentes de qualidade a preços razoáveis.
    No que me diz respeito sou um feliz possuidor de uma Canon 5D Mark II e a minha cervical e os tendões do braço e mão direita estão muito gratos à Fuji por ter construído a minha XT10 com que obtenho tão bons resultados como com a Canon e em certas circunstâncias até melhores resultados.
    Afinal o sensor XTrans não é tão mau como o pintam:)

  2. Eu já usei de tudo. De Canon à Nikon. De Sony à Olympus. Até Leica já usei. E nada no universo fotográfico se compara à qualidade atual das Fuji-X. Já tive X100s, XE1, XT1 e XPro2. Concordo que, talvez, a GFX-50S seja um trambolho desnecessário, haja vista seu preço nas alturas, mas estando com uma em mãos pra ter argumento pra falar sobre ela.

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