Fora do tema: o Brexit, a pós-verdade e o estado da União

Resultado de imagem para theresa may
Theresa May, a. k. a. The Cow

É difícil manter a lucidez nos dias que correm. Há uma verdadeira avalancha de desinformação e são constantes as notícias falsas que todos os dias são postas a circular. Este fenómeno é de tal ordem que já lhe deram um nome: pós-verdade. Nada é verdadeiro ou falso, tudo é relativo.

Isto tem um efeito que é procurado e desejado por sejam quem forem os ideólogos nacionalistas, em especial os que conduziram a campanha de Donald Trump. Num dia afirma-se que Hillary Clinton é uma criminosa, no outro que foi uma grande adversária que se respeita. E não há nenhuma contradição nisto.

É evidente que esta teoria da pós-verdade é uma espécie de legitimação ideológica da mentira. Mentir é útil e rende votos, mas há que dizer algo para que o discurso não se afigure contraditório quando as mentiras são desmentidas. Neste caso diz-se que não eram mentiras porque os conceitos de verdade e mentira não existem. Com isto pode dizer-se tudo e o seu oposto sem que haja contradição. Conveniente, não é?

Eu sei que os leitores com juízo pensam o mesmo que eu: que isto é ignóbil e que nos conduz ao niilismo ético e moral. O que é certo é que ajuda a conquistar votos – e, o que ainda é pior, a legitimar políticas.

Na semana passada, Theresa May, a primeira-Ministra britânica (é melhor dizer inglesa, como propugna Miguel Esteves Cardoso, pois é improvável que os britânicos do Ulster e da Escócia concordem com ela), disse finalmente quais eram os seus verdadeiros propósitos: negociar os termos da saída do Reino Unido (Brexit) da União Europeia rapidamente e controlar a chegada de imigrantes vindos dos Estados-Membros.

A despeito de os conservadores terem feito campanha pela permanência, isto nada tem de ilógico ou incoerente porque se baseia na verdade em que os apoiantes do Brexit acreditam. Como sabemos, há no Reino Unido, em especial na Inglaterra (mas fora de Londres, que ainda é uma cidade bastante liberal e acolhedora), um sentimento xenófobo muito acentuado quanto a alguns cidadãos de Estados-membros, em especial os polacos. Porque um punhado de polacos bebe, tem problemas de higiene e assiduidade ao trabalho e ainda assim recebe subvenções do Estado, conclui-se que todos os cidadãos oriundos dos Estados-membros da UE são bêbados, porcos e preguiçosos que vivem à custa dos nacionais. Lança-se esta atoarda e toda a gente (ou quase) acredita porque sim, porque leram na internet e por isso é verdade.

Agora vem esta Theresa May tomar medidas concordantes com a propaganda, não do seu Partido Conservador, mas do UKIP do execrável Nigel Farage. O que só prova que os Tories não passam de um partido sem ideias, sem rumo e sem outro objectivo que não seja ficar no poder. E agora, com Donald Trump, sentem-se apoiados na sua rejeição da União Europeia: os Estados Unidos apoiá-los-ão se forem bons agentes da desagregação da Europa (a Trump convém uma Europa fraca e desmembrada). Há trinta anos, gostava de uma canção de Matt Johnson (The The) chamada Heartland, que tinha um verso onde se cantava: This is the 51th state of the USA. Agora ainda é mais verdade do que em 1986…

Eu, apesar de viajar pouco, não consigo conceber nada melhor do que viajar para outros países e não necessitar de cambiar dinheiro nem de carimbar o passaporte. Vejo nisto um benefício inestimável: todos pertencemos a um todo, mantendo contudo as nossas identidades nacionais. E podemos circular, residir e trabalhar livremente em qualquer Estado-membro sem que este perca a sua identidade e soberania e sem perdermos nós a nossa individualidade. Isto é fantástico; é um dos sonhos de Schuman e Monnet que felizmente se tornou realidade. Com o Brexit, com Donald Trump e com o crescimento dos nacionalismos, este edifício está prestes a desmoronar-se. Em parte por culpa dele mesmo – há razões para que chamem «Berlaymonster» ao Edifício Berlaymont, sede da União Europeia (que, já agora, posso dizer-vos que não tem a imponência que parece ter quando visto na TV!) –, já que o funcionamento da UE se tornou num pesadelo desde que foi abolida a regra da unanimidade para as deliberações do Conselho Europeu e a Europa é, na prática, governada por cegos como Jeroen Dijsselbloem, mas não é abandonando-a que isto se melhora.

Tudo isto por causa de propaganda mentirosa. No Reino Unido, o Brexit só venceu porque fizeram passar as ideias de que a União Europeia impunha imigrantes (o que é uma falsidade gritante, mas muitos acreditaram) e de que os cidadãos de outros Estados-membros que vivem lá (ao abrigo do princípio da livre circulação de pessoas, lembrem-se) estão a roubar os nacionais, privando-os de empregos e subvenções do Estado. E a Theresa May alinha com estas mentiras, porque agora o Reino Unido pode sentar-se ao colo dos Estados Unidos e pode dizer farewell à Europa. Good riddance to them, digo eu. Só tenho medo de que haja novas cisões na União.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s