A noite

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Gosto da noite e de fotografar à noite. A noite é quando a vida se torna mais vívida: de dia tudo parece encoberto, como se uniformizado por um manto a que chamamos «quotidiano», ou «dia-a-dia»: mesmo as emoções mais intensas passam despercebidas debaixo da normalidade do dia.

À noite, porém, tudo se torna mais nítido, como quando pomos um objecto de metal brilhante defronte a um fundo negro: as emoções represadas durante o dia libertam-se, sensações como o medo e o desejo tornam-se mais visíveis, mas também a desolação, a miséria e a solidão se tornam mais angustiantes. É como se os contrastes da vida se tornassem mais fortes, mais vibrantes. De dia tudo é normal; à noite tudo muda.

Há muito tempo que não fotografava à noite. Ou melhor: há muito tempo que não fotografava a noite. Fotografar à noite foi algo que fiz muitas vezes, com longas exposições e outros tédios de iniciado na fotografia. Fotografar a vida à noite, isso, fi-lo bem menos.

Como os leitores portugueses sabem, o mês de Janeiro é tipicamente frio, mas este Janeiro está a ser, na semana do dia em que escrevo, um dos mais frios que me lembro. Tão frio, especialmente à noite, que a Câmara Municipal da minha cidade decidiu abrir uma estação do metro aos sem-abrigo, o que, a despeito de eu já estar um pouco cansado de fotografar nestes lugares, me tentou. Tenho enormes objecções a fotografar sem-abrigo – é quase imoral, do meu ponto de vista –, mas pensei que esta abertura poderia dar bons temas para fotografar.

Infelizmente, enganei-me. Devo ter ido demasiado cedo, porque só vi dois sem-abrigo e estavam ambos a dirigir-se para a estação. Contudo, não me abstive de fotografar, mesmo se as fotografias vão certamente ficar muito iguais a outras que fiz anteriormente.

Quando saí da estação do Bolhão, o frio só impelia a voltar para casa, mas quando resolvi ir fotografar tinha apenas sete ou oito exposições no rolo que estava a usar. Uma vez que ainda não tinha gastado todos os fotogramas, parei na estação do metro da Trindade e esgotei o rolo. Há pelo menos uma destas fotografias que pode ser uma keeper, como dizem os anglo-americanos.

Mas foi quando conduzia pelo caminho de volta a casa que me deu verdadeira vontade de fotografar mais vezes à noite. As formas humanas defronte a montras coloridas, os semáforos e as luzes dos automóveis, a iluminação de alguns lugares públicos, tudo isto pareceu-me mais irresistível do que nunca. A razão para isto? Estar nesta onda de fotografar a cores.

É verdade. Se a vida é a cores, à noite ainda o é mais. Se faz sentido fotografar a preto-e-branco de dia, à noite já não é bem assim. A noite acentua as cores e dá-lhes vibração. Pareceu-me, enquanto olhava certas oportunidades fotográficas que estava a perder por já não ter mais exposições, que só faz sentido fotografar a noite a cores. De súbito, esta minha opção pelas cores em detrimento (pelo menos provisório) do preto-e-branco pareceu ainda mais inteligente. Só espero que o Fuji X-Tra não me deixe ficar mal.

Se ao menos não estivesse tanto frio…

M. V. M.

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