Inspiração

Eu sou um tipo estranho: enquanto toda a gente tira cerca de 1020 fotografias por dia (presumindo que tiram uma fotografia por minuto durante dezassete horas de vigília, mas há quem tire mais), eu sou capaz de sair à rua com a máquina durante um dia inteiro e não fotografar uma única vez.

É uma questão de inspiração. Por vezes a minha mente fica estéril e não consigo extrair nada dela. Isto, contudo, é muito melhor do que incorrer num vício em que recaio habitualmente: vou a determinados lugares onde já fotografei inúmeras vezes e faço aí várias fotografias – com o resultado, evidentemente, de serem muito iguais a outras que tinha feito anteriormente. Sou eu a imitar-me a mim mesmo.

Estes lugares são sempre os mesmos: os mais atentos à minha produção fotográfica sabem quais são, pelo que escuso de mencioná-los. É evidente que é sempre possível, com um pouco de atenção – ia escrever imaginação, mas na fotografia a atenção é mais importante –, fazer fotografias diferentes de todas as outras, mas são, para todos os efeitos, fotografias dos mesmos lugares. Começa a tornar-se enfadonho.

Como disse: prefiro não fotografar a fazer isto. Se não vai sair nada de verdadeiramente novo, não vale a pena desperdiçar película. Mais vale esperar que me surja alguma inspiração – e, mesmo se esta chegar, é preciso saber se não haverá já vários milhares de pessoas a fazer o mesmo que eu. Sim, porque num meio de expressão tão disseminado como a fotografia, é difícil encontrar seja o que for de verdadeiramente original. Por vezes é como se tudo já tivesse sido fotografado – e muitas vezes melhor do que eu saberia fazer.

Acontece-me o mesmo com a escrita. O Número f/ não é literatura, mas exige inspiração. Muitas vezes dou comigo a invejar bloguistas que publicam textos todos os dias – pelo menos até reparar que os textos que publicam são minúsculos e superficiais. O Paulo Moreira, que é uma pessoa que todos os entusiastas da fotografia analógica conhecem (pelo que me dispenso de apresentações) protestou-me uma vez o seu espanto pela profusão dos meus escritos, imaginando que o Número f/ me ocupava imenso tempo. Na verdade, não. Por uma razão simples: quando tenho inspiração – i. e. quando encontro um bom assunto para escrever –, as palavras fogem-me da ponta dos dedos a uma velocidade impressionante. Digamos que, nessas alturas, as teclas do meu teclado se devem sentir tão exaustas como as teclas do Steinway de Maurizio Pollini quando este toca Sonatas de Beethoven (embora não tão bem tratadas, evidentemente).  Os textos do Número f/, com excepção daqueles que requerem algum esforço de fundamentação, não me ocupam mais de uma hora .

Tal como na fotografia, prefiro não escrever nada a escrever sem sentido – embora por vezes o faça, e talvez este texto seja um exemplo. Se fotografar gratuitamente, sem vontade e inspiração, é uma estultícia, escrever – mesmo que seja num mísero blogue quase confidencial – não o é menos. Tal como detesto as fotografias que faço por desfastio nos lugares mais batidos – evidentemente, ficam sempre desinspiradas –, também não me agrada que os leitores leiam prosas sem sentido, sem um conteúdo que possam sentir, no final, que valeu a pena ler.

O que explica esta semana inteira sem escrever. Não escrevi nada porque senti que não havia nada de relevante sobre o qual pudesse (ou quisesse) escrever. Por vezes surgem-me ideias que, de tão esparsas, não ocupam mais que algumas linhas. Ora, o Número f/ é um blogue, não é uma conta do Twitter. Tal como as minhas fotografias pretendem ser mais que selfies e fotografias de comida, os textos do Número f/ requerem desenvolvimento; longe de mim escrever textos epidérmicos e voláteis (mesmo que não sejam nenhuns tratados online).

É cada vez mais difícil lutar contra algumas das sensações que a overdose de fotografias possibilitada pelos telemóveis e pela internet me suscitam, sobretudo a de que fotografar se tornou de tal maneira banal que a fotografia perdeu todo o interesse, deixando de ter qualquer conteúdo artístico. É evidente que isto não aconteceu, mas hoje fotografa-se como se fala. A imagem está a substituir-se à fala e à escrita, o que só é mau porque a linguagem falada e escrita cujo lugar a fotografia está a invadir é a da tagarelice. Tal como há conversas tagarelas, também há fotografias tagarelas. Ora, o meu bom senso diz-me para falar apenas quando é oportuno e o que tenho a dizer interessa aos outros. Por que não havia a fotografia de ser igual? E, se é assim para a fotografia, também o é, a fortiori, para os textos do Número f/.

M. V. M.

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2 thoughts on “Inspiração”

  1. A propósito das imagens deixo aqui uma ligação que valerá a pena ouvir ( caso ainda não conheça) . Trata-se de uma conversa entre o fotografo Paulo Nozolino o Realizador Pedro Costa e o Público presente na Cinemateca.
    O ligação é do primeiro video. O encontro é composto por três videos , as quais serão fáceis de encontrar a partir do primeiro video.

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