A morte saiu à rua num dia assim

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Mário Soares pelo grande Alfredo Cunha

Este texto também é sobre fotografia, mas primeiro o mais importante. Ontem morreu Mário Soares. Como já foi dito tudo sobre ele, apenas escrevo que ele foi o pai da nossa democracia. Soares tornou-se numa espécie de figura paterna de quase todos os portugueses, com excepção de alguns ressentidos que, por a sua mente não conseguir abarcar o mundo e a realidade destes dias, vivem presos a um passado distante do qual nem sequer se recordam com precisão. Eu sou um dos que via em Soares uma figura paterna: foi o pai da democracia, da liberdade e da integração na Europa. Mário Soares era um colosso, um gigante da intelectualidade, com as suas três licenciaturas (em Filosofia, História e Direito) – e um dos últimos estadistas portugueses. Quando Adriano Moreira e Freitas do Amaral nos deixarem, não restará senão uma chusma de medíocres cujo nome a história bem cedo apagará.

Hoje de manhã soube da morte de Guilherme Pinto, antigo presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, que tive oportunidade de conhecer in persona. Literalmente, com palavrões e conversas informais e tudo. Era, mais que um político, um ser humano. O seu último gesto público deu-nos a medida da sua dignidade e grandeza: renunciou ao cargo de presidente da câmara uma semana antes de morrer.

E, ao almoço, chegou-me a notícia da morte do Professor Daniel Serrão. Apesar de não concordar com as posições que o seu catolicismo arreigado lhe determinou, e que defendeu estrenuamente enquanto presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, devo reconhecer a maneira serena como sempre participou nas discussões públicas.

O Professor Daniel Serrão morreu em consequência de complicações com origem num traumatismo craniano sofrido num atropelamento. Foi atropelado em 2014, numa passadeira, na rua onde morava. Não consigo conceber maior ignomínia, entre os condutores, do que atropelar um peão numa passadeira. É o epítome da ausência de civismo e da alarvidade do condutor português. E levou à morte um homem da grandeza do Professor Daniel Serrão. Revoltante.

Uma vez conheci o seu neto Filipe. Foi um episódio insignificante – ele tinha cerca de onze anos –, mas, no final de uma conversa breve, disse-me algo que, por me ter tocado tão fundo, me levou a responder-lhe com estas palavras: «Tu és um rapaz com cabeça e, sobretudo, com bons princípios. Continua assim». De facto, o mundo precisa de pessoas como ele. E como o avô, que terá tido uma quota-parte substancial na formação de um ser humano genuinamente bom.

Agora já posso votar a minha atenção para coisas insignificantes. Ontem entretive-me a processar as digitalizações do segundo rolo Agfa Vista que expus. Usei o DxO Optics 9, graças a um upgrade gratuito que a DxO resolveu oferecer. A versão 9 tem um algoritmo de redução do ruído muito sofisticado, mostrando, numa pequena janela, a ampliação a 100% de uma porção da imagem.

Ver esse pedacinho da fotografia ampliado confrontou-me de novo com a realidade de que o formato 135 não tem um nível de qualidade suficiente. Se, a esta falta natural de definição (à qual nem as lentes Zuiko podem acudir), somarmos o grão de uma película 400 ASA, temos por resultado uma qualidade equiparável a uma câmara digital com sensor pequeno.

Talvez seja o Agfa Vista que é muito fraquinho – ou melhor: a culpa é da Fujifilm, que fabrica esta película – e outros rolos tenham melhor qualidade, mas não gostei nada do que vi. Contudo, como nada é inteiramente mau – ou, pelo menos, tão mau que não haja algo que se aproveite –, descobri o seguinte: os tons de pele que o Agfa Vista descreve são simplesmente perfeitos. Qualquer alteração no HSL, por ínfima que seja, destrói de imediato o equilíbrio que faz deste rolo uma opção excelente para retratos. Desde que se acerte com a iluminação e a exposição, o Agfa Vista é capaz de uma veracidade na descrição dos tons de pele que envergonha o Kodak Portra 160.

O que me aproximou um pouco mais de me decidir por esta película como a minha favorita para fotografar a cores. Apesar de ainda precisar de ver o que o Fuji Superia X-Tra consegue fazer, o Agfa tem um equilíbrio entre defeitos e virtudes, e entre preço e qualidade geral, que o torna numa boa opção. Claro que não é uma película de slides, ou de médio formato – mas a qualidade de imagem não pode ser o único critério. De que me serve uma fotografia isenta de grão e com contornos imensamente bem definidos, se a pele de uma pessoa surgir azulada?

M. V. M.

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