Balanço

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A minha decisão do ano: fotografar a cores

A vida é um contínuo e, se é certo que o tempo existe, as suas medidas são uma invenção do homem. Na verdade, tudo o que precisávamos de saber era em que altura se semeia e quando se colhe, para o que basta saber que estamos nas respectivas estações; mas, com a nossa mania do rigor e do controlo, inventamos os dias, as semanas, os meses, os anos e os séculos e dividimos os dias em horas, minutos e segundos; chegámos ao extremo de dividir os segundos em fracções.

Como estamos tão afastados da natureza, já só precisamos de contar o tempo pelas medidas que inventámos, não dependendo das estações para saber em que época estamos. Uma dessas medidas é o ano. Está prestes a acabar o de 2016, que foi (ainda é) um ano que não me vai deixar boas recordações. Os leitores conhecem as atribulações que já relatei aqui, mas não devo basear o balanço de um ano apenas no que de mau aconteceu. Por exemplo, à morte do Sousa sucedeu a chegada do Samuel, que, sendo muito diferente, tem as suas maneiras de conquistar afeição (quanto mais não seja, tem aquele pêlo preto simultaneamente macio e espesso).

Voltando-me para coisas importantes, 2016 foi um ano em que tive uma experiência profissional extremamente interessante: uma cliente procurou-me por uma questão de direitos de autor relacionada com fotografia. Eu gosto da minha profissão, mas quando o objecto do meu labor profissional coincide com a minha ocupação favorita, o trabalho é duplamente compensador. Sobretudo, fez-me ver que a atenção que dediquei, quer à fotografia, quer ao direito de autor, não foi nenhuma perda de tempo. Como bónus, fiquei ainda a conhecer a fotografia portuguesa de uma corrente artística importante do Século XX (como devem imaginar, não posso alongar-me quanto à questão que me foi confiada: nada de nomes ou de factos concretos).

E na minha fotografia? Não há nada de muito relevante a dizer, porque nada de muito importante se passou. Continuei a fazer as mesmas fotografias que tenho feito ao longo dos últimos três ou mais anos, mas em Novembro saturei-me e decidi voltar à cor, influenciado por Allard, Gruyaert, Leiter e Meyerowitz. Apesar de ter tido de adaptar a estética das minhas fotografias, porque não é indiferente fotografar a cores ou a preto-e-branco, a experiência está a ser satisfatória. Sobretudo porque, ao contrário do que imaginei inicialmente, me sinto menos limitado na escolha dos temas. De certo modo, é uma libertação. William Albert Allard não estava a ser nenhum lunático quando afirmou: «eu vejo a cores» (o que só aparentemente é um truísmo). Pode muito bem acontecer que esta tenha sido a decisão mais sensata que tomei desde que comecei a fotografar.

Os leitores do Número f/ sabem qual é, na minha apreciação, a fotografia do ano, porque foi sobre isto que escrevi o último texto. Nos dias que entretanto passaram não descobri nenhuma fotografia que pudesse considerar melhor ou mais relevante, pelo que a fotografia do ano continua a ser a do assassino do embaixador russo em Ancara. Eu não sou, felizmente, daquelas pessoas que agora gostam de refilar por as fotografias mais premiadas serem as de acontecimentos trágicos, porque estes acontecimentos fazem parte da realidade e, sobretudo, são documentos que, no futuro, ajudarão a compreender a história. As belas fotografias de paisagens com HDR e os macros de insectos nada nos dizem sobre o mundo e a vida.

Como por vezes trabalho e escrevo textos para o Número f/ enquanto ouço rádio – um hábito que me vem do tempo de estudante universitário –, o meu Tivoli Audio Model One está permanentemente sintonizado na única rádio que transmite música decente: a Vodafone FM. (A Antena 3 também passa música interessante, mas esporadicamente e sempre com interrupções, por sentirem a necessidade irreprimível de poluir as ondas hertzianas com entrevistas a idiotas e rubricas disparatadas.) Seja como for, a Vodafone FM está a escolher os discos do ano. Quanto a mim, e ao contrário do que é habitual, não ouvi nada, na música internacional, que me merecesse destaque; há Frankie Sinatra, dos The Avalanches, de que gostei, mas hesitaria em considerá-la a melhor canção do ano. Já entre os portugueses, foi lançada este ano uma canção que simplesmente esmaga todas as outras: é Dou-me Corda, do Samuel Úria. É a minha canção do ano – e juro que não a escolhi por o sujeito ser homónimo do meu gato novo. É mesmo por ser excelente, a despeito de as líricas pecarem por ser um pouco disparatadas em certas estrofes.

Tenham um bom 2017. Pelo menos, que seja melhor que 2016.

M. V. M.

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1 thought on “Balanço”

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