A fotografia do ano (seguido de votos festivos)

https://pbs.twimg.com/media/C0DtY85XUAEyd1E.jpg
Chegámos novamente àquela altura do ano em que se costuma fazer balanços e decretar os melhores do ano (seja o que for, de automóveis a fornos micro-ondas). Esta é uma tendência a que eu sou normalmente avesso – quem sou eu para fazer juízos desta natureza? –, mas este ano houve uma fotografia que me pareceu mais importante que todas as demais. Foi a que ilustra este texto.

Esta fotografia foi feita pelo jornalista turco Burhan Ozbilici, ao serviço da Associated Press, e refere-se ao assassínio do embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, no dia 19 deste mês. O homicídio, cometido por Mevlüt Mert Altıntaş, teve lugar em Ancara, durante a inauguração de uma exposição de fotografia, mas não foi por isto que esta fotografia me pareceu a mais importante do ano.

É que esta fotografia é um hino ao fotojornalismo, em tudo o que ele tem de heróico. Os leitores do Número f/ hão-de ter já reparado, por esta altura, que a maioria das minhas referências é constituída por fotojornalistas, a começar por aquele fotógrafo que prezo mais que todos, W. Eugene Smith, e a terminar no nosso (ex æquo com a África do Sul) João Silva. Ser fotojornalista é uma profissão de risco: os dois que citei são testemunhas, mas tiveram mais sorte que Robert Capa ou Anja Niedringhaus.

É preciso ter uma coragem do tamanho de um planeta só para manter o sangue-frio diante de um ataque como este que Ozbilici presenciou; mas mantê-lo e ser ainda capaz de compor e executar uma fotografia perfeitamente composta e, além do mais, carregada de simbolismo – sim, é uma das fotografias que nos leva a deduzir que o mundo ensandeceu – é, já não apenas coragem, mas verdadeiro heroísmo.

É isto que aprecio nesta fotografia: num tempo em que vemos vídeos verticais filmados por patetas com telemóveis e se despedem fotojornalistas porque sai mais barato dar iPhones aos repórteres, esta fotografia diz-nos tudo sobre a necessidade de fotojornalistas e mostra-nos que não basta ter um telemóvel para reportar visualmente um acontecimento. Nada substitui o profissionalismo e o saber de um fotojornalista.

***

Mas este é também tempo de celebrar. Não gosto do Natal: está completamente corrompido e desvirtuado e o seu sentido original não é mais que um pretexto para exacerbar a venalidade do mundo em que vivemos. E, sobretudo, não sou crente. Contudo, não deixa de ser uma época em que nos sentimos mais próximos da família e amigos. Só por isso vale a pena celebrá-lo.

Espero que os meus leitores tenham um bom Natal. Quanto mais não seja, que se divirtam no meio das pessoas que amam. Aos que não puderem ou não quiserem fazê-lo, para quem este é um dia como todos os outros, lembrem-se que ele vai passar e amanhã é outro dia. Cada dia nasce com novas promessas e esperanças.

Bom Natal para todos.

M. V. M.

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