Das regras

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retrato de Piet Mondrian por Arnold Newman

Eu não quero – não posso – envolver-me em debates com os leitores. Estes já fazem um grande favor em ler o que eu escrevo e merecem por isto a minha estima, mas há casos em que sinto necessidade de intervir. Como, por exemplo, quando nos comentários surge algo que pode ser mal interpretado, ou que não me parece suficientemente bem expressado.

Foi o que aconteceu quando li um comentário onde se dizia que «a regra da arte é não haver regras». Esta frase tem uma sonoridade muito ribombante, quase wildiana (no sentido em que poderia ter provindo da pena de Oscar Wilde, cujo gosto por hipérboles é por demais conhecido). Contudo, como todas as frases sonantes, incorre nos pecados da superficialidade e da ligeireza, não logrando ser inteiramente verdadeira.

A arte não é o vazio ou a inexistência de regras. Eu já escrevi no Número f/ sobre isto; disse, na altura, que «[nenhuma] arte é tão livre que dispense algumas regras. A música nunca se libertará das escalas e dos tons e a literatura nunca dispensará a gramática. Isto acontece porque a arte precisa de ser inteligível; precisa de se exprimir fora da mente do artista se este quiser que as suas obras sejam compreendidas por alguém para além dele mesmo. As regras servem esta inteligibilidade. Não podemos usar palavras desconexas para escrever um livro nem prescindir desse primo direito da matemática que é o solfejo para compor uma peça musical.»

Muitas pessoas poderiam ser levadas a interpretar a frase que o leitor Nuno Oliveira citou no sentido de as regras serem dispensáveis. O perigo de se pensar assim é que consigo imaginar uma multidão de gente a conjecturar que pode fazer o que muito bem entender por levar essa frase às últimas consequências: se a arte é a inexistência de regras, estas não são necessárias, pelo que estou dispensado sequer de conhecê-las. Nada podia ser mais vicioso que pensar assim. Voltando ao que escrevi, «é preciso entender as regras antes de se partir para uma linguagem que permita prescindir delas. Criar e inovar não é ignorar as regras: é contorná-las, desafiá-las e pô-las em questão a cada momento. Ora, isto implica conhecer e compreender as regras».

Decerto, fotografar (ou escrever, ou pintar ou compor) seguindo estritamente as regras pode produzir resultados extremamente medíocres – e, em geral, é precisamente isto que acontece –, mas é necessário entender que as regras não precedem a criação: as regras são uma síntese dos princípios que orientam a produção artística de uma determinada época. À semelhança, aliás, das normas jurídicas: estas são a consagração (o sancionamento) dos valores e princípios vigentes num determinado conjunto de circunstâncias históricas e sociais.

Com efeito, as regras existem por uma razão, e essa razão é a inteligibilidade. Tomemos o exemplo da regra dos terços: ela foi estabelecida em função da maneira como vemos as fotografias (e também com vista a conferir alguma dinâmica à imagem, acrescentando agradabilidade à inteligibilidade). Simplesmente, tal não quer dizer que só as fotografias em que o motivo figura num dos pontos em que as linhas que dividem o enquadramento se cruzam funcionem visualmente. É sempre possível fazer as coisas de outra maneira que não seja a prescrita pelas regras; a isto chama-se transgressão. De novo citando-me a mim mesmo (o que é um paroxismo de vaidade mas poupa-me tempo):

«Nenhuma regra está acima desta transgressão criadora. Todas elas podem ser subvertidas. Tomemos um exemplo: a linha do horizonte. Esta, segundo a tradição, deve situar-se a 1/3 ou 2/3 do enquadramento e deve estar direita. Contudo, tem mesmo de ser assim? E se me apetecer fazer um horizonte a meio, ou no fundo do enquadramento? E se eu quiser que surja descaído? (…)

Outro risco é o de esta frase («a regra da arte é não haver regras») ser usada para justificar o desconhecimento e as limitações de alguém. Imagino ser muito fácil a alguém, ao ver-se criticado por fazer uma fotografia desfocada ou mal enquadrada (por não saber fazer melhor), usar esta frase para se justificar. Como a ignorância anda muitas vezes de mãos dadas com a sobranceria, o uso desta citação como desculpa parece-me perfeitamente natural.

Se alguém não pretende fazer arte quando fotografa, escreve ou pinta, é avisado que conheça e use as regras. Caso não o faça, limitar-se-á a ser, não medíocre, mas mau. Só quando dominar a arte e as suas regras terá o direito de ultrapassar o patamar que essas regras têm por referência.

«Estas transgressões são válidas se obedecerem a duas condições. A primeira é a que se tenha consciência de que se está a transgredir. Desconhecer a regra implica que se desconheça também a transgressão; é, deste modo, fruto da ignorância. A outra condição é que sirva um propósito expressivo. Caso contrário não passará de uma fotografia mal executada e será vista por todos como tal.»

É necessário conhecer as regras antes de transgredir. Antes de mais, porque só assim sabemos que estamos a transgredir. Só assim a transgressão é intencional e pode fazer evoluir a arte. Desconhecer as regras não implica transgressão nenhuma: só ignorância. Daí que advogue algum cuidado com o uso de máximas, aforismos e hipérboles como esta.

M. V. M.

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3 thoughts on “Das regras”

  1. O meu comentário sobre a arte e as suas regras surge como comentário ao artigo ” os sete mandamentos…..”
    Deve por isso ser lido integrado nesse contexto, até porque, a frase está aberta e complementada com a questão da originalidade na imagem. A arte deve ser um acto de libertação e é aí que quero chegar, a diferenciação estará possivelmente nesse grau de libertação e não na rigidez das regras, como se fossem mandamentos.
    Assim sendo, não acredito muito em teorizar sobre a arte, como se houvesse uma receita para a produzir.
    Claro que deve ser estudada, a obra e os seus actores. Tudo o que é produzido de bom é muita das vezes feito por camadas que não conseguimos ver à primeira a não ser se tivermos algum domínio da linguagem em causa.
    Não sou Oscar Wilde, não quero ser, não sou artista nem quero ser mas apenas porque não posso, se fosse já me teria revelado de alguma maneira.
    Acho que a veia artística é algo de inato, apenas é moldado pelas pessoas que conhecemos, os livros que lemos, os filmes que vemos, o que sofremos, a inteligência que temos. A diferença está aí, acho.

  2. esta ‘crónica’ fez-me recordar um pequeno vídeo em que a personagem principal ADORAVA ler, para atingir o seu objectivo (ler determinadas obras) contratava o seu advogado para que este lhe obtivesse penas de prisão cujo o tempo coincidisse com o tempo que ele estimava que necessitaria para ler o livro X, o livro Z, e por aí fora

    (RE)CONHECER AS REGRAS PARA QUEBRÁ-LAS DE FORMA CONSCIENTE

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