As minhas aventuras no reino das cores

Resultado de imagem para agfaphoto vista plus 400Por norma, quando experimento uma película, espero pelos resultados antes de decidir se volto ou não a usá-la. Hoje, porém, entreguei um rolo para revelar e comprei imediatamente outro igual, sem saber se gosto ou não do que fiz com essa película. Neste caso foi a Agfa Vista 400 e não o fiz por ter uma confiança cega nas suas qualidades: fi-lo porque quero fotografar a cores.

Há duas razões que me levaram a fazer uma interrupção no preto-e-branco. A primeira é o contacto que tenho tido com a obra de fotógrafos que usaram a cor; além dos que já conhecemos (Allard e Gruyaert), há ainda Joel Meyerowitz, um fotógrafo absolutamente excepcional que um dia destes merecerá um texto só para ele aqui no Número f/. A outra razão é muito simples: quero fazer qualquer coisa diferente. Nem que seja só por algum tempo.

Na verdade, estou um bocado farto de fotografar a preto-e-branco. Não é por falta de motivos: se fotografar em Bruxelas, faço-o da mesma maneira que no Porto ou em Lisboa, pelo que não é o lugar que é importante. É mais por esta busca de linhas e de estruturas me estar a impedir de ir mais longe e a estabelecer-se como um padrão. E eu não quero ficar prisioneiro de um estilo e fazer sempre as mesmas coisas. E há também a sensação, deveras perturbadora, de que fotografar a preto-e-branco se tornou cliché. Com efeito, parece que toda a gente que quer dar um toque artsy às fotografias usa o preto-e-branco. Até os fotojornalistas fazem isto. E, no que respeita aos amadores, parece haver uma regra escrita que proíbe fotografar nas ruas sem ser a preto-e-branco. Isto são prisões, não são linguagens ou estilos.

Eu desenvolvi uma maneira de fotografar graças à película a preto-e-branco com a qual me sinto bastante bem. Digamos que uso uma linguagem que procuro ser tão pessoal quanto possível. Esta linguagem, que se libertou da cor, concentra-se nas formas, nas linhas e nos contrastes. Simplesmente, foi muito tempo a fazer a mesma coisa. Inicialmente, quando me resolvi a experimentar o Agfa Vista (atenção: eu ainda não sei se vou gostar desta película), foi por uma necessidade vaga, ligeiramente abstracta, de variar; contudo, expor este rolo fez com que buscasse qualquer coisa diferente – mesmo se, na prática, acabei por fotografar em lugares que me são conhecidos. Isto estimulou-me e divertiu-me mais do que contava. O que foi bom.

O grande desafio é este: eu não posso transpor a linguagem que emprego no preto-e-branco para a fotografia a cores. Os requisitos de ambas são muito diferentes. Isto torna a busca de motivos mais interessante, porque me obriga a desviar-me substancialmente do tipo de fotografia que costumo fazer. Note-se que não é impossível fazer fotografia nas ruas: o que se passa é que vai ser uma fotografia em que o interesse se vai centrar na própria cor, e não já nas formas e nas linhas. Sendo uma fotografia mais ligada ao real, torna-se mais difícil encontrar o grau de abstracção que o preto-e-branco possibilita.

Depois há as questões mais técnicas. Fotografar com pouca luz exige um cuidado especial por causa do equilíbrio das cores e não posso usar um dos meus números favoritos quando fotografo a preto-e-branco: a contra-luz. Quer dizer: posso, mas corro o risco de os resultados serem decepcionantes. É, até neste particular, uma forma de fotografar completamente diferente. É como se fosse uma língua estrangeira, muito diferente – no vocabulário, na gramática e na sintaxe – da que me habituei a empregar.

Como já disse – por duas vezes –, ainda não sei se vou gostar do que fiz com o meu primeiro rolo Agfa Vista. O que vi na internet feito com esta película deu-me motivos para estar confiante quanto aos resultados: parece-me uma película com cores discretas, mas essencialmente correctas. Contudo, muito disto depende da revelação, pelo que não posso fazer mais do que esperar pelas digitalizações. Simplesmente, a busca da cor foi tão excitante que decidi repetir a experiência apesar das incertezas. Por vezes há que sair dos trilhos batidos.

M. V. M.

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