Temporalidade

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Há uma questão, na criação artística (não exclusiva da fotografia), a que ainda não me referi, mas a leitura de uma passagem de Os Moedeiros Falsos, de André Gide, impeliu-me a fazê-lo agora: tem que ver com a temporalidade das obras.

O trecho de Gide, na tradução de Isabel St. Aubyn, é o seguinte:

«O que mais depressa parecerá velho é o que inicialmente mais moderno se apresentar. (…) Pouco lhe importa o futuro. É à geração actual que se dirige (o que é preferível, sem dúvida, a dirigir-se à de ontem) – mas como só se dirige a essa, o que escreve corre o risco de perecer com ela.»

Penso que isto é tanto mais verdade quanto mais acelerado é o progresso. Escrever – ou fotografar – o presente pode ajudar a documentar a época actual, mas terá sempre o inconveniente de parecer irremediavelmente datado no futuro. Evidentemente, se estamos a escrever um artigo sobre um acontecimento presente, ou a fotografá-lo, o artigo e a fotografia serão documentos que, dependendo da importância do assunto, poderão acrescer ao acervo da história; mas o que acontece com obras cujo propósito não seja descrever o presente?

Basta, para termos uma ideia desta transitoriedade, ler obras de ficção como, por exemplo, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Embora, no essencial, a mensagem seja actual, a prognose que Huxley fez das tecnologias do futuro é hoje risível: este é um bom exemplo de a ficção ser ultrapassada pela realidade. Mais flagrante ainda é a profusão de filmes que têm por tema a internet, as redes sociais e outros assuntos com uma vertente tecnológica acentuada: estas «obras» estão condenadas ao ridículo. Dentro de trinta anos será embaraçoso vê-las, de tão datadas.

A arte existe porque a essência do ser humano é intemporal. As emoções humanas são hoje as mesmas que no tempo de William Shakespeare. O que muda é as circunstâncias. A arte consiste em tratar esta essência humana de uma forma que ninguém experimentara antes. O resto não é importante: centrar demasiada atenção no que é efémero tem, invariavelmente, o resultado de as obras produzidas se tornarem datadas ao fim de pouco tempo.

Penso, deste modo, que a arte deve aspirar à intemporalidade. Deve, para isto, ser despida de todas as distracções e centrar-se no que verdadeiramente importa, no que nunca muda. O amor pode ser escrito de milhares de maneiras, porque nunca mudará. A poesia é o melhor exemplo disto mesmo: uma cantiga de amor do Século XV versa as mesmas emoções que os poetas de hoje tentam transmitir. É daqui que advém a sua intemporalidade.

Senhora, partem tam tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Estes versos, descontada a anacronia do grafismo de algumas palavras, podiam ter sido escritos hoje, mas foram escritos por João Roiz de Castelo-Branco no Século XV. Estes versos nunca morrerão, nunca passarão de moda, nunca serão esquecidos: são intemporais porque tratam um tema intemporal. O mesmo na música: parece-me não carecer de qualquer discussão que os nossos tetranetos – se forem educados para tanto – continuarão a ouvir Beethoven e Bruckner, mas serão poupados a saber quem foram os Dire Straits.

Tudo isto se aplica à fotografia. Mesmo num domínio altamente estratificado como a fotografia de autor, há fotografias que surgem hoje irremediavelmente datadas. Servirão, quando muito, de testemunho histórico. Isto acontece porque os respectivos fotógrafos, ao lugar de se preocuparem com o essencial, se ocupam com o que é secundário, com o acessório. A fotografia artística não tem nada que se preocupar com relatar o presente: essa é tarefa dos fotojornalistas (aos quais, porém, não fica nada mal usar intenções criativas).  Mesmo se, por ter invariavelmente por referência objectos reais, a fotografia usa motivos actuais, ela nunca perderá actualidade se o seu autor souber exprimir algo que seja intemporal.

Isto veio a propósito de André Gide, mas é uma questão que me tinha surgido em Julho, quando tive por bem fazer fotografias de jogadores de Pokémon Go (espero que ainda haja alguém que se lembre do que isto foi). Um pensamento que me ocorreu – a mim, que não me rotulo de artista – foi este: que valor terão estas fotografias daqui a dois anos? Já posso dar a resposta: nenhum. Estas são fotografias que serão miseravelmente esquecidas: o seu interesse morreu em concomitância com o jogo mais parvo de todos os tempos. (E quem se quer lembrar do jogo mais parvo de todos os tempos?)

M. V. M.

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