As aventuras do M. V. M. pela Leicalândia (adenda)

https://numerofblog.files.wordpress.com/2016/12/8c4c9-nyc151414.jpg?w=427&h=643
Por Bruce Gilden

Não é de todo desprovido de sentido, nem tão-pouco é limitador, fazer uma exposição subordinada à fotografia feita com Leicas. Embora seja certo que também se podia fazer exposições com centenas de fotografias feitas com material da Nikon ou da Pentax, tais mostras não teriam nem de perto nem de longe o mesmo alcance do que esta que visitei ontem.

Vendo as fotografias expostas – e ainda mais quando se olha as fotografias publicadas nas revistas e outras publicações das primeiras décadas do século passado, as quais são profusamente mostradas nesta exposição –, torna-se fácil perceber a extensão da mudança operada pela Leica (ou, mais exactamente, pelo formato 135) na forma de fotografar e de reportar. Não me refiro à técnica, porque essa não é a questão que me interessa aqui: foi a fotografia, mesmo quando servia para ilustrar eventos, que se tornou mais subjectiva. E isto é visível desde as fotografias de Capa e Cartier-Bresson até às meras reportagens nas capas de jornais e revistas. Há, em todas estas imagens, uma concepção completamente diferente da fotografia. Já não se procura fotografar o motivo em si, mostrando-o tal como ele é (o que, convenhamos, é impossível), mas tal como ele é visto pelo fotógrafo, transportando a fotografia todas as idiossincrasias do fotógrafo.

Evidentemente, muito disto se tornou possível pela portabilidade das Leica, mas antes delas já se fazia fotografia subjectiva. A diferença é que as Leica, que podiam ser facilmente transportadas para qualquer lado e segurar-se com uma só mão, possibilitaram a transposição dessa subjectividade para o jornalismo. Com isto, a Leica criou o fotojornalismo actual.

Tudo isto é fascinante de se ver na exposição Eyes Wide Open, mas ter visitado esta última trouxe-me mais uma vez à mente que as fotografias não têm uma existência verdadeira se não forem fixadas em papel. As fotografias ganham transcendência quando são vistas em papel e em tamanhos decentes. Um recanto da exposição é dedicado aos retratos a cores de Bruce Gilden. São close-ups de rostos crus, garridos, muitos deles feios e incómodos, todos eles humanos na sua imperfeição por vezes grotesca – mas, ao vê-los fixados em ampliações, fazem todo o sentido. Aquelas fotografias são uma semiótica da espécie humana. Bruce Gilden, que nem sempre apreciei, cresceu na minha admiração depois de ver aquelas fotografias expostas.

Podemos discutir e argumentar que, se a Leica não tivesse existido, muito provavelmente a fotografia teria evoluído exactamente na mesma direcção. Talvez – só que teria levado muito mais tempo. Entretanto, como teria Robert Capa podido usar uma Rolleiflex no Dia D?

A Leica e o formato por ela inventado mudaram para sempre a face da fotografia. Só por este facto, a exposição merece uma visita.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s