As aventuras do M. V. M. na Leicalândia

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O ponto vermelho caiu sobre a minha cidade como um sol crepuscular que sobre ela espalhasse a sua luz. A Leica decidiu abrir no Porto a sua primeira loja em Portugal – o que faz todo o sentido, porque a fábrica de Vila Nova de Famalicão fica a apenas uma vintena de quilómetros – e, em simultâneo, foi inaugurada a exposição Eyes Wide Open – 100 Anos de Fotografia Leica, aberta ao público (a entrada é livre) na Galeria Municipal do Porto até ao dia 5 de Fevereiro do próximo ano. Não tive muita sorte com a inauguração da loja: quando lá passei pela primeira vez, o único aparelho visível era um aspirador, o que me fez recear que a parceria com a Panasonic, que faz as compactas vendidas como Leica, se estendesse aos electrodomésticos. Ter um aspirador Leica poderia ser o sonho de qualquer fanático das limpezas que ostentasse este seu gosto adquirindo aspiradores caros, mas seria sempre um Panasonic com o ponto vermelho a acrescentar-lhe mais algumas centenas de euros ao preço. (Depois esclareceram-me que a abertura da loja ao público ainda não tinha acontecido no dia em que por lá passei e fiquei mais sossegado.)

Quanto à exposição, teve de esperar até hoje. Foi com incontida expectativa que a visitei: afinal de contas, a Leica é a marca com que toda a gente fotografava na era de ouro da fotografia e, em particular, era a preferida dos membros da Magnum. Podia deste modo contar, com alguma segurança, que iria ver fotografias maravilhosas, a despeito de ser bizarro e pouco promissor ver uma exposição cujo tema aglutinador é a marca das câmaras usadas pelos diversos fotógrafos.

Um pequeno interregno para esclarecer o seguinte: a Leica tornou-se popular por as suas câmaras serem pequenas, quando comparadas com o que existia até então. A opção pelo uso de película 135 e pelo recurso às ampliações constituiu, na verdade, um retrocesso na qualidade de imagem, o que leva alguns a encontrar neste facto uma analogia com o que se passa hoje em dia com o iPhone. Pensar assim é asinino, porém, porque a Leica soube compensar a perda de qualidade em relação aos médio e grande formatos com o fabrico de lentes fabulosas. O iPhone não tem nada a oferecer em troca da degradação dos padrões de qualidade que trouxe ao mundo da fotografia.

Seja como for, esta exposição tem o bom gosto de não colocar um enfoque excessivo nas máquinas. Elas estão lá, mas não se impõem ao visitante; e a ala dedicada ao fabrico das Leica, além de relativamente pequena, é discreta e convenientemente afastada das alas de interesse para quem vai a exposições de fotografia para ver fotografias.

A exposição começa com algumas fotografias feitas pelo inventor da Ur-Leica, Dr Oskar Barnack, que era um bom amador mas não um fotógrafo excepcional. O que não é assim tão mau: seria muito pior se tivesse usado a sua invenção para fazer selfies. Depois vem o resto: há uma secção dedicada à fotografia de reportagem, com fotografias óbvias de Robert Capa e Cartier-Bresson, mas felizmente há muito mais ao longo dessa e das outras secções, com fotografias mais ou menos desconhecidas de fotógrafos conhecidos e outras de fotógrafos que eu ainda não conhecia. Entre os primeiros estão, entre outros, Jeanloup Sieff, Aleksandr Rodchenko, Elliott Erwitt, William Eggleston e Erich Salomon. Quanto a este último, como apenas conhecia as fotografias das cimeiras internacionais, foi uma surpresa maravilhosa ver que ele era igualmente brilhante noutros temas. (Os leitores com memória de elefante lembram-se de um texto em que patenteei o meu horror por descobrir que Erich Salomon, que era judeu, foi capturado pelos nazis e morreu em Auschwitz.) Claro que não pude reprimir um sorriso de-orelha-a-orelha quando vi algumas fotografias familiares, como uma da série dos Yakuza de Bruce Gilden, mas o que gostei nesta exposição foi da possibilidade de ver grandes fotografias que ainda não conhecia.

https://www.icp.org/icpmedia/s/a/l/o/salomon_erich_107_1986_446029_displaysize.jpg
Por Erich Salomon

No que respeita aos fotógrafos que ainda não conhecia, prometo desde já aos leitores que vou voltar à exposição, desta vez munido de um bloco de notas e uma esferográfica. Contudo, houve um nome que fixei: o da austro-americana Inge Morath. Que surpresa fantástica!

https://i1.wp.com/ivorypress.com/cphoto/en/sites/default/files/imagecache/width450/Inge%20Morath-%20Mrs.%20Eveleigh%20Nash,%201953.jpg
Por Inge Morath

Sobretudo, esta é uma exposição que interessa ver com calma e, se possível, num dia útil. Assim poderemos demorar-nos mais contemplando as fotografias. Nas exposições de fotografia (e suponho que em todas as outras) a regra é: quanto menos gente, melhor. É que muitos patetas nunca vão conseguir meter na cabeça que as exposições se vêem no sentido dos ponteiros do relógio. (De que estavam à espera? De um texto inteiro sem refilar com alguma coisa? Não no Número f/!)

Vão à exposição. Façam esse favor a vós mesmos.

M. V. M.

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