Absurdos, parte 2

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Noutras notícias – como agora se diz graças à internet –, terminei hoje mesmo a releitura de uma das obras mais geniais da literatura universal: O Estrangeiro, de Albert Camus. Já o tinha lido, mas foi há muito tempo e não o compreendi como o fiz agora.

Antes de mais, não consegui ler este livro sem que me assaltasse uma dúvida que me surgiu há uns anos: será que a tradução em português do título da obra está correcta? «Étranger» tanto significa «estrangeiro» como «estranho». Os anglo-saxónicos não tiveram qualquer problema em adoptar o título traduzido The Stranger, que significa «O Estranho». A meu ver, O Estrangeiro é um ensaio sobre a estranheza, pelo que o título traduzido para português me parece absolutamente inadequado. Meursault é um franco-argelino e a acção desenrola-se na Argélia, pelo que, a despeito de podermos usar uma justificação excessivamente rebuscada para a escolha do substantivo «estrangeiro», quer-me parecer que o título foi engendrado por alguém que não dominava o francês. (Luiz Pacheco, no seu Diário Remendado, conta que Baptista-Bastos traduziu la foule (a multidão) por «a maluca», e João Palma Ferreira, na tradução de Na Outra Margem, Entre as Árvores, de Ernest Hemingway, para o Círculo de Leitores, entendeu que as ostras enterravam a cabeça na areia porque pensou que «ostrich» (avestruz) significa «ostra». A estupidez e a ignorância não são, em definitivo, prerrogativas dos iletrados.

Seja como for, O Estrangeiro é uma obra sobre o absurdo da vida, tese na qual Albert Camus apoiou a sua construção filosófica. A personagem Meursault é alguém que se deixa arrastar indiferentemente pela vida. Tudo o que lhe acontece na vida é relativo: tudo é, mas tudo podia não ser. Ser-lhe-ia indiferente. Meursault podia casar com Marie, mas também podia não casar, e ambos teriam exactamente o mesmo valor. Podia ou não ser amigo de Raymond; seria idêntico. Mas o absurdo – tema que Camus desenvolveu no intragável O Mito de Sísifo – não se cinge à personagem Meursault: tudo o que o rodeia, tudo aquilo em que se envolve e o envolve, é absurdo. O funeral da mãe, o cão sarnento do vizinho Salamano, o homicídio do árabe e, evidentemente, o comportamento do juiz de instrução e a audiência de julgamento, tudo é absurdo. A única conclusão que se retira daqui é que a vida – ou melhor: a existência – é um absurdo. Tal como Camus concluiu em O Mito de Sísifo, especialmente quando alude à rotina de quem trabalha, mas desta vez sob vestes literárias. A vida é um absurdo, as normas são absurdas, a pena de morte e a religião são absurdas, as convenções sociais, as instituições e as pessoas, ridículas na complexidade absurda em que se deixam prender, são absurdas. As nossas vidas estão irremediavelmente condicionadas pelo absurdo. Quem se apercebe do absurdo e vive negando-o ou contra ele, como Meursault, sofre as consequências impostas pela sociedade absurda, mas paradoxalmente estas consequências são ditadas por acções elas mesmas absurdas. Numa palavra, tudo na vida é absurdo. Neste sentido, Camus integra-se numa micro-corrente literária e filosófica bem conhecida no Século XX e que também produziu Metamorfose e O Processo, de Franz Kafka.

A minha convalescença implicou alocar tempo que despenderia noutras actividades à leitura. Mesmo com todo este tempo, porém, surpreendi-me por ter relido O Estrangeiro (ou, de preferência, O Estranho) em apenas dois dias. Se este facto não demonstra o meu interesse pelo livro, não sei que mais dizer. (Eu costumo ler entre vinte e cinco e quarenta páginas por dia.) A minha leitura incidiu, infelizmente, sobre a edição da Livros do Brasil, que inclui um preâmbulo por Jean-Paul Sartre que, além de inútil à compreensão da obra, tem ainda o demérito de desvendar o seu desfecho (O Estrangeiro não pode ser lido como um mero romance, mas é um romance e convém que não exista um conhecimento prévio do enredo, pelo que o preâmbulo de Sartre é nocivo à sua leitura).

Mas pelo menos o preâmbulo está bem traduzido, ao contrário da obra propriamente dita. É repulsivo, numa obra literária, ler vírgulas entre o sujeito e o predicado, mas elas aparecem porque o tradutor não teve estaleca para mais do que traduzir palavra por palavra do francês, mantendo a estrutura das frases em lugar de a adaptar ao português. O que resulta em atropelos a regras gramaticais básicas. Se esta edição da Livros do Brasil não fosse tão antiga, diria que usaram o tradutor do Google. Depois há o «ter que» onde devia estar «ter de». O «ter que» é banal e anti-literário. É certo que as pessoas usam-no nas suas conversas quotidianas, mas tal não significa que esteja correcto porque «que» não é uma preposição. É assim que se diz em castelhano e no Brasil, que é um país rodeado de nações onde se fala o espanhol, mas tal não quer dizer que seja correcto.

***

Como vêem, consegui a proeza de escrever dois textos extensíssimos acerca de nada. Se o editor Gallimard não tivesse estampado o seu Facel Vega contra um muro no dia 4 de Janeiro de 1960, Camus teria encontrado aqui algo de absurdo. E consegui não escrever uma só linha acerca de fotografia. Com efeito, fiquei completamente desmoralizado por ter feito trinta e tal exposições em seco porque, no último rolo que usei, a película não ficou bem presa no carreto e não se movia quando accionava a manivela do avanço. Felizmente esta foi apenas a segunda de duas asneiras que cometi nestes três anos e meio que levo de fotografia analógica: a outra foi abrir o compartimento do rolo antes de rebobinar. Duas asneiras em três anos e meio dá uma média de 0,57 asneiras por ano. O que não é mau, mas não me redime de ter estado três ou quatro semanas a fotografar para nada.

M. V. M.

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