Absurdos, parte 1

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No texto anterior referi que havia sido submetido a uma intervenção cirúrgica. Não disse qual, ou a quê; referi que a cirurgia veio com quarenta anos de atraso, mas este hiato aconteceu porque fui educado como católico (embora agora seja agnóstico). Se tivesse sido educado como judeu, porém, não teria sido quarenta anos, mas cinquenta e três anos e mais ou menos quatro meses de atraso. Não vou revelar, com todas as letras, qual a intervenção cirúrgica a que me submeti; vou deixar essa descoberta à inteligência do leitor (o que, atento o elevado nível do leitor médio do Número f/, não será difícil); apenas direi que o meu Brit Milah – que poderia ter sido o meu Kitah, se tivesse nascido muçulmano – correu bem, apesar de, por ser tão serôdio, implicar mais riscos e uma recuperação mais longa.

Como sou curioso por natureza, fiz algumas pesquisas sobre o assunto. Descobri, com espanto, que esta simples remoção de alguns milímetros quadrados de pele é objecto de enorme controvérsia. A razão ainda não triunfou entre os humanos – pelo contrário, nos dias que correm parece sofrer derrotas atrás de derrotas –, pelo que até aqui, nesta questão meramente sanitária, existe uma campanha de desinformação baseada em factos não verificados nem verificáveis, porque são apresentados como tal sem qualquer fundamentação, sem um esboço de prova. Estas campanhas são sobretudo usadas pelos meios mais conservadores, servindo para justificar crenças como o criacionismo e falsidades como as da inexistência de intervenção humana no aquecimento global.

Isto está a tornar-se comum. Um dia cruzei-me com um comentarista de um website qualquer que clamou que o comunismo havia matado cem milhões de pessoas. Apesar de não gostar de comentar na internet (já sabem o que penso sobre discussões destas: arguing on the internet is like taking part in the Paralympics; you might win, but you’re still a retard), pedi-lhe que provasse a sua afirmação. Respondeu-me com umas estatísticas sobre a União Soviética e a Coreia do Norte (podia ter incluído a Revolução Cultural de Mao Zedong, mas curiosamente não o fez), mas o que eu queria era que ele me dissesse onde foi buscar aqueles números. Já desisti de esperar pela resposta.

Aprendi também que um dos instrumentos de propaganda política que surgiu graças à internet é a criação e divulgação de notícias falsas. Assim de repente, vem-me à memória a notícia, posta a circular no início deste ano, que sugeria ter havido uma vaga de violações perpetrada por refugiados provenientes do Médio Oriente, que se estendeu de algumas cidades alemãs para o resto da Europa. Quando o ruído finalmente desapareceu, tinha afinal havido uma só violação colectiva na noite de passagem de ano em Colónia, na qual a maioria dos violadores era alemã, mas em que participaram um ou dois refugiados.

Onde eu quero chegar, com tudo isto, é que se torna cada vez mais difícil filtrar a verdade dos factos quando a fonte de informação que se elege é a internet. No caso da minha intervenção cirúrgica, o ruído é tal que não se consegue perceber qual dos lados tem razão. Aliás, a existência de lados nesta questão é, em si mesma, um absurdo. Há oponentes fundamentalistas que contrapõem pretensos factos infundados aos argumentos médicos a favor da intervenção cirúrgica.

Claro que uma discussão desta natureza sobre o assunto em questão é um paroxismo de irracionalidade. Discussão esta que tem o inconveniente de, pelo menos de forma potencial, obstar a que o eventual interessado seja devidamente informado. Pode acontecer que, mesmo depois de uma consulta médica em que esta cirurgia lhe foi aconselhada, o interessado se depare com a barreira de desinformação existente na internet e desista por se deixar convencer das desvantagens.

A desinformação usa eficazmente o artifício de se apoiar em testemunhos aparentemente reais, o que tem sempre o efeito de fazer com que o leitor se identifique mais facilmente com aqueles do que com a informação, por vezes densa e obscura, que é apresentada a favor do fenómeno em análise. Voltando à problemática das migrações, é muito fácil usar dois ou três casos isolados de criminalidade – ou, pelo menos, de desvios sociais e comportamentais – para que a generalidade das pessoas julgue toda a comunidade de onde aqueles casos são oriundos e a condene globalmente. O mesmo na cirurgia a que me tenho vindo a referir: dois ou três testemunhos negativos, apresentados por websites com uma aparência de credibilidade, é tudo quanto basta para lançar a dúvida nos espíritos mais influenciáveis.

Não há pior asneira que procurar informação exclusivamente na internet. Esta faz com que se acredite nas coisas mais absurdas. Mas leva também – o que é pior – à criação de verdadeiros fanatismos à volta de assuntos em relação aos quais não devia sequer haver discussão. No caso da cirurgia, ela é praticada por certos povos em obediência a tradições religiosas e, noutros casos – em especial os dos adolescentes e adultos – por motivos sanitários, higiénicos ou de simples comodidade. Não era necessário criar-se aqui um debate semelhante ao do aborto, mas a discussão existe e assume foros de radicalidade em tudo semelhantes.

M. V. M.

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