O Samuel e outras histórias

Interrompo hoje um longo silêncio que teve três causas: a primeira foi o trabalho – elaborar um recurso para o Tribunal da Relação exige um dispêndio de tempo e disponibilidade consideráveis, e esta não foi a minha única ocupação profissional da semana; outra foi uma pequena intervenção cirúrgica a que fui submetido ontem (uma intervenção que chegou com quarenta anos de atraso!) e, por fim, uma razão que me ocupou quase todo o tempo que sobrou: um gato novo. É verdade – o Sousa tem agora um substituto, de nome Samuel, um gato preto que adoptei, libertando-o da jaula do Canil Municipal que ocupou durante quatro meses.

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A pantera!

O gato é uma delícia. É ainda bastante jovem, mas já tem um crescimento apreciável. Ao contrário do Sousa, que adoptei quando tinha apenas dois meses, este veio já quase completamente formado. A escolha de um gato preto teve que ver com dois factores: 1) estes gatos são extremamente distintos e 2) por causa de superstições absurdas, são sistematicamente preteridos nas adopções. A verdade é que o Samuel tem classe e é manso, mas brincalhão. Não sei se vai ser um bom substituto do Sousa, mas também tinha dúvidas se este último ia alguma vez conseguir ocupar o lugar da gata que o antecedeu (o que ele mais que superou).

Chega de gatos. Não é por causa do Samuel que me vou tornar num gatógrafo – embora fotografar a negritude daquele pêlo tenha qualquer coisa de desafiador – e o assunto que pretendia para este texto não tem nada que ver com gatos: era para ser (e vai ser) a narrativa do choque que senti quando confrontei as minhas expectativas relativamente aos meus hobbies com a realidade.

Pois é. Quando comecei a ter rendimento disponível para hobbies, escolhi a alta fidelidade. Por que não? Era (sou) um apreciador omnívoro de música, pelo que reproduzi-la com a maior qualidade possível era um objectivo perfeitamente lógico.

Esperava que as pessoas que partilham este hobby fossem também elas grandes amantes da música, mas enganei-me redondamente. Custou-me a percebê-lo, porque os meus primeiros passos foram guiados pelo Francisco da Luz e Som, dono de um gosto musical particularmente distinto e variado, mas a realidade atingiu-me com o impacto de uma bola de demolição quando me apercebi que as revistas de alta fidelidade usavam discos de música banal para aferir as qualidades dos equipamentos testados. Nunca imaginei que alguém comprasse um amplificador Cyrus para ouvir Shola Ama, mas aparentemente havia uma revista que entendia ser tal facto perfeitamente plausível. Mais tarde, estava eu ao balcão da Imacústica à espera da minha vez quando interceptei uma conversa entre um cliente e o empregado; o cliente tinha uma meia-dúzia de CD’s na mão e estava a confessar que os tinha ali para ouvir «umas vozes». Os discos eram de gente como a Dulce Pontes. Comprar equipamento extraordinário para ouvir música ordinária pareceu-me uma aberração, mas era esta a realidade: os audiófilos são gente arrogante, sem gosto e com a mania que percebem de electrónica e de acústica. Não percebem. São uns otários com mais dinheiro que juízo que só dizem baboseiras quando abrem a boca.

Também me aconteceu pensar que quem despendia muito dinheiro em máquinas fotográficas e lentes o fazia porque esses eram os instrumentos de que necessitavam para exprimir melhor os seus ideais estéticos. Ops! – enganei-me outra vez. Não são. O fenómeno foi o mesmo que em relação à alta fidelidade, mas as referências foram diferentes. Depois de conhecer a obra de alguns fotógrafos como Koudelka, Cartier-Bresson e Doisneau (eram poucas as referências que tinha por essa altura), pareceu-me abjecto haver gente capaz de gastar fortunas em equipamento fotográfico por causa do desempenho. Se ao menos tivessem essa obsessão pelos números, mas fizessem fotografias decentes… nada disso: há os gatógrafos e há os que fotografam paredes de tijolo e quadros de cortiça.

Isto não faz sentido nenhum. Por vezes parece-me que os melhores melómanos são aqueles a quem não interessa como ouvem a música de que gostam e que os melhores fotógrafos são os que usam qualquer coisa para fotografar. Claro que não é bem assim: há audiófilos que constroem um sistema como se fosse um altar do qual adoram a sua música e há fotógrafos que se sacrificam para comprar bom material fotográfico porque só com ele podem exprimir as suas ideias fotográficas, mas estes são grupos minoritários.

Não estou com isto, de maneira nenhuma, a conferir legitimidade aos iPhonógrafos: estes aliam o vício dos gadgets à presunção, pelo que reúnem tudo o que o hobby da fotografia tem de deplorável. O que me espanta é ver gente carregada de câmaras e lentes (ou a imaginar que o seu telelé é uma câmara a sério, o que é delirante) a fazer más fotografias. O que é tão mau – se não for pior – do que usar um amplificador Audio Research e colunas Sonus Faber Guarnieri para ouvir Dulce Pontes.

O mundo é um lugar estranho.

M. V. M.

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