Fidel Castro (1926-2016)

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Por René Burri

2016 é o ano de todas as mortes. Algumas pessoas, mesmo não tendo falecido, entraram em morte cerebral. Mais exactamente sessenta e dois milhões trezentas e trinta e sete mil setecentas e noventa e nove, que é o número de eleitores que votaram em Donald Trump. Entre eles estão, seguramente, os americano-cubanos de Miami que ontem foram para a rua festejar a morte de Fidel Castro Ruz. Contudo, dizer que estes últimos entraram em morte cerebral pode ser inexacto, pois um pressuposto da morte cerebral é ser-se dotado de um cérebro, o que está por provar.

Eu não sou um fervoroso da revolução cubana, não ando com estampados da fotografia que Korda fez de Che Guevara nem passo a vida a assobiar a Guantanamera, mas há certos factos que são indesmentíveis: Cuba é um dos países com melhores níveis de literacia do mundo e está na frente de muitos países ditos democráticos em matéria de cuidados de saúde e de mortalidade infantil. Os cubanos são pobres? Sim, mas só pelo conceito capitalista de riqueza. Ao menos não existe a desigualdade económica chocante dos países capitalistas e, a julgar pelos relatos que vejo (e pelas fotografias de Peter Turnley), os cubanos parecem ser um povo bastante feliz. Há problemas, certamente, mas eu não incluiria a falta de liberdade entre eles. Mais uma vez, os ocidentais avaliam a liberdade pelo conceito que têm dela, o qual pode não ser o mais correcto. Seria Cuba um país livre no tempo de Fulgencio Baptista? Só se fosse para os americanos ricos que frequentavam os casinos de Havana.

E a revolução cubana foi uma epopeia heróica. Foi a vitória dos ideais sobre a força, ideais tão poderosos que derrotaram uma superpotência na invasão da Baía dos Porcos. Foi o fim de um regime profundamente corrupto e opressivo que reduziu um povo à miséria e transformou o país numa espécie de recreio de milionários. E os líderes da revolução são justamente os símbolos desses ideais, mesmo se estes últimos deram lugar ao pensamento único e ao arredamento dos ideais democráticos (mas temos de nos perguntar que democracia é esta que autorizou o Brexit e elegeu Donald Trump, tal como há oitenta anos elegera Adolf Hitler).

Fidel Castro era, sobretudo, um homem inteligentíssimo com uma visão do mundo absolutamente ímpar. Os seus discursos podiam ser longos, mas diz quem os ouviu que nunca eram cansativos, por serem tão brilhantes. Se havia líderes admiráveis até ontem, Fidel Castro era seguramente um deles. Isto é um facto que deve ser reconhecido independentemente da ideologia que se professe, como fez o nosso Presidente da República – que, a despeito de não poder estar mais distante da ideologia de Fidel, fez questão de visitá-lo e conhecê-lo. (Caso alguém não saiba, Marcelo Rebelo de Sousa é um homem de uma inteligência fora do comum: é doutorado em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra – que escolheu por ser mais prestigiosa e exigente que as escolas de Lisboa – e a sua tese teve a classificação mais alta de sempre neste ramo do direito, tendo o único reparo, formulado pelo Professor José Joaquim Gomes Canotilho, consistido na escassez de referências bibliográficas!)

Mas esta entrada do Número f/ é sobre fotografia, mesmo que não o tivesse parecido até agora. Serve para vos mostrar, através de uma ligação por não ter a necessária permissão autoral, algumas fotografias admiráveis de Fidel Castro por fotógrafos da Magnum. Entre estes está René Burri, que foi quem fez os retratos mais notáveis de Ernesto «Che» Guevara (sim, foi ele e não Alberto Korda).

https://www.magnumphotos.com/newsroom/politics/magnum-photographers-fidel-castro-life-in-pictures/?utm_source=fb-social&utm_campaign=Editorial_CastroPictures&utm_medium=social&utm_content=Linkpost

M. V. M.

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1 thought on “Fidel Castro (1926-2016)”

  1. Leio com tristeza esse relato, e pelo que entendo, a admiração por esse homem.

    Fidel era o homem que iria libertar o país da situação vigente em 1959.
    E o que foi feito por ele fez durante todo esse tempo?
    Oprimiu o povo. Perseguiu todos os opositores.
    Relegou o país e uma distância do resto do mundo, aceitou as gordas esmolas da URSS enquanto aquela estava viva e retirou toda a liberdade da população.
    E se perpetuou no poder. Tornou-se um Ditador…

    A população desde o início passou a ser tratada como um animalzinho de estimação, que é criado por seus donos, sujeito apenas às vontades e caprichos deles.
    Comida básica e cuidados de saúde em troca de total obediência e nenhuma vontade própria.
    Nenhuma liberdade. Nem o direito de ir embora.

    Desapontador estar ainda hoje acompanhando a triste situação de Cuba e seu Povo, desde a “revolução”.

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