Gatografia e outros temas (2)

Fotografia por Claudio Rasano

(Continuação) O que é um verdadeiro libelo contra um mundo que pretende reduzir todos os indivíduos a massas homogéneas. Os alunos de um colégio são uma metáfora de outros grupos homogeneizados à força. O estudante poderia facilmente ser um «eleitor», um «consumidor» ou um «contribuinte». Impõem-nos estes estatutos, mas eles são completamente contra natura e privam-nos do nosso melhor, que é a capacidade de sermos seres humanos autónomos e diferenciados.

Esta fotografia nada tem de óbvio. Ela obriga a vê-la para além da mera aparência, a interpretá-la e a entender o que o fotógrafo quis exprimir com ela. Eu já me deparei com esta dificuldade em relação a fotografias minhas, que não foram compreendidas por alguns, embora seja possível que não me tenha sabido exprimir fotograficamente; neste caso, porém, trata-se de uma fotografia que recebeu um prémio de £15,000 de uma instituição reputada.

E como reagiram os gatógrafos do dpreview.com a esta fotografia? Da maneira mais obtusa possível. Apenas uma mão-cheia entendeu o que o fotógrafo quis exprimir. O resto comparou a fotografia a retratos à la minuta, queixou-se da iluminação e do fundo branco (provavelmente teriam gostado mais se tivesse um fundo com bokeh cremoso). E, invariavelmente, protestaram que é uma fotografia vulgar que qualquer um seria capaz de fazer. Ou seja: apenas olharam o lado técnico, como seria mais ou menos previsível de parte de quem nutre uma obsessão por equipamento fotográfico. A ignorância e a incapacidade de ver para além da evidência são verdadeiramente constrangedoras, mas há pior.

Os leitores terão decerto presente qual o tipo de reacção que as imagens premiadas pela World Press Photo causam quando os prémios são anunciados. Se forem fotografias de palestinianos, os judeus fazem uma vozearia tremenda e tentam provar que as imagens são falsas; se forem imagens de outra guerra qualquer, dizem que o mundo precisa é de paz e de beleza – o que convém, para se esquecer as broncas que foram as últimas guerras (especialmente a invasão do Iraque). Pois bem: este retrato do rapaz desalinhado suscitou a crítica de ser «politicamente correcto». Fiquei a saber que «politicamente correcto» é um apodo que os votantes que elegeram Donald Trump (e gente semelhante) arremessam contra quem demonstrar simpatia por minorias ou não seja racista, xenófobo ou homofóbico. O júri atribuiu um prémio a uma fotografia com um rapaz negro? É por ser «politicamente correcto». Estas pessoas entendem que toda a gente é como eles e que, se alguém manifesta simpatia por minorias ou não é racista, é por ser hipócrita, pelo que «politicamente correcto» é uma forma de hipocrisia. Esta forma de pensar funda-se na maneira de ser destes indivíduos que só se vêem e entendem a si mesmos e imaginam que o mundo se resume àquilo que conhecem, além de pensarem que toda a gente partilha os seus instintos básicos. De modo que, se outras pessoas manifestarem ideias diferentes da deles, estão certamente a mentir. Porque a única maneira de pensar concebível é a desses que agora se sentem com rédea solta.

Com efeito, a vitória de Donald Trump fez com que uma multidão de gente arrogante, intolerante, racista, homofóbica e xenófoba se sinta poderosa e capaz de impor a sua forma de ser e de pensar. Tenho muito medo das implicações desta vitória do obscurantismo. A seguir ao Brexit já houve provocações a imigrantes no Reino Unido e nos Estados Unidos há relatos de gente que avisa cidadãos estrangeiros que são meros convidados, bem como – espero que isto não seja verdade – de adolescentes que molestam raparigas agarrando-as pela púbis, influenciados pela conversa privada de Donald Trump que foi divulgada durante a campanha eleitoral. Depois da vitória de um candidato que apelou ao que há de mais baixo, incivilizado e mesquinho que há em cada pessoa, penso que há razões para ter medo.

E anda gente desta em fóruns de fotografia. Não me surpreende que sejam obcecados por equipamento, porque a sua mentalidade leva-os a querer ter uma câmara melhor do que a do vizinho, mas de que tipo de fotografia serão eles capazes, se não têm qualquer criatividade e são incapazes de pensar para além dos confins estreitos da sua limitada mundividência? Seria bom que não tivessem nem fotografassem gatos. Os felídeos não merecem.

M. V. M.

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