Gatografia e outros temas (1)

Fotografia por Claudio Rasano

A fotografia é um universo muito variado. Apesar de o meu interesse se centrar no aspecto gráfico – ou artístico, se preferirem – da fotografia, esta minha preferência não é partilhada senão por uma minoria. O que levanta a questão de sabermos do que se fala quando o tema é fotografia.

Para muitos, a fotografia é um mero meio de comunicar por imagens. É muito mais fácil tirar uma fotografia e mostrá-la do que escrever um pequeno texto, pelo que o visual está progressivamente a sobrepor-se à linguagem falada e escrita. O que, atenta a maneira como as pessoas se exprimem hoje em dia, com os erros mais grosseiros que se possa imaginar, acaba por não ser mau de todo. Prefiro ver uma má fotografia a uma frase cheia de erros.

Depois há aqueles que são fanáticos do equipamento. Embora não me surpreenda que este grupo exista de todo – eu fui audiófilo e vi gente que não aprecia música a discutir sobre o mérito dos cabos de colunas X comparados com os Y e Z –, o que me espanta é ser tão numeroso. E ser tão fácil encontrá-los: seja qual for a hora ou o dia, estão todos a escrever comentários no dpreview.com.

Este grupo tem características específicas. Não percebem nada de fotografia, não usam câmaras sofisticadas por necessitarem delas para se exprimirem melhor, mas porque sim e não têm um mínimo de imaginação. Mostrem-lhes uma fotografia de August Sander (por exemplo) e dirão que não é nada de especial e qualquer um é capaz de fazer fotografias bem melhores. Muitos deles compram câmaras como a Nikon D810 ou a Canon 5D Mk IV – note-se que estas pessoas compram câmaras pelas suas especificações, sendo as lentes meros “periféricos” – e o uso que lhes dão é, sobretudo, o de fotografar… os seus gatos! Há gente que publica dezenas de fotografias dos seus gatos com diferentes sensibilidades, aberturas e tempos de exposição, mas fotografam-nos junto a frigoríficos, em enquadramentos completamente desinteressantes e sem a menor noção de composição. Estes gatógrafos tornaram-se numa das principais fontes de irrisão da internet. (Para ser justo, já vi pior: um indivíduo que, em vez de fotografar um gato, preferiu fotografar quadros de cortiça, daqueles onde afixamos os avisos-recibo do telemóvel para não nos esquecermos de pagar.)

Eu, que só tenho uma fotografia do meu gato para mostrar (já a viram em dois ou três textos anteriores), não consigo ver qualquer sentido em comprar câmaras caríssimas para fotografar gatos (ou quadros de cortiça). Estas pessoas compram câmaras por comprar, porque podem, e não porque precisam. Em muitos casos compram câmaras semi-profissionais. Apesar deste disparate (é claro que nunca conseguirão perceber que é um disparate), e da sua profunda ignorância quanto a tudo o que é fotografia, não se coíbem de ir fazer comentários completamente absurdos para a caixa de comentários do dpreview.com.

Um caso com que me deparei ontem é, até agora, o melhor exemplo do que os ignorantes que se obcecam com equipamento pensam quando são confrontados com uma fotografia. A notícia era sobre os vencedores do prémio Taylor Wessing, atribuído pela National Portrait Gallery de Londres. A fotografia vencedora, do suíço Claudio Rasano, é a que encima este texto. Depois de ver a imagem e ler o artigo, deu-me curiosidade de ver o resto das fotografias de Rasano, porque esta vencedora integra-se numa série intitulada Similar Uniforms: We Refuse to Compare.

A primeira nota é que não é necessário ver esta fotografia no contexto das demais que integram a colecção: ela vale por si mesma. A impressão inicial que esta fotografia causa é a de ser um retrato banal de um estudante de um colégio obrigado a usar uniforme, mas esta é uma daquelas fotografias que diz muito mais do que aquilo que se pode perceber à primeira vista. O olhar e a atitude do rapaz – só o facto de essa atitude ter sido capturada é um sinal de mestria do fotógrafo – estão em completa contradição com a própria ideia de uniforme: quase se vê, na face do estudante, a vontade de rasgar o uniforme e soltar o adolescente livre e rebelde. Aliás, o desalinho da gravata é um pormenor que, só por si, conta esta história: o rapaz não cabe no uniforme. Este é demasiado limitativo e falha o seu propósito de tornar as pessoas homogéneas. A mensagem desta fotografia – bem como das restantes da colecção – é muito clara: os seres humanos são individuais. Cada um tem a sua personalidade e o conjunto de personalidades de um determinado grupo heteronomamente imposto – como os alunos de um colégio ou os soldados de um regimento – não pode ser reduzido à unidade. O ser humano não pode, por outras palavras, ser homogeneizado. O indivíduo prevalecerá sempre, a despeito das tentativas de uniformização. (Continua)

M. V. M.

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