Adeus, Sousa (2007-2016)

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Aconteceu o que tinha de acontecer. O Sousa morreu hoje, às 13h20, na minha casa. Sinto-me, evidentemente, destroçado, mas o que trago na mente é sobretudo a incompreensão e uma revolta mitigada. Não percebo por que teve de morrer: o meu gato tinha nove anos (será ridículo confessar aqui que lhe atribuí o dia 4 de Setembro como data de nascimento, por ter sido num 4 de Setembro que nasceu Anton Bruckner?) e era inocente. Não merecia morrer. Se ele tivesse dezoito anos e estivesse em declínio, aceitaria tudo sem mágoa e sem me questionar, mas morreu novo, de uma morte particularmente cruel e dolorosa, depois de cinco horas de agonia em que se debateu sem conseguir respirar. Gostava que, ao menos, tivesse morrido de súbito, sem dor, durante o sono, mas não – teve uma agonia longa, cheia de sofrimento e consciente. Ainda lhe ouvi miados de desespero. Passou as horas de agonia no quarto onde me fez companhia por tantos e bons dias, mas um último ímpeto levou-o à cozinha, talvez para beber água (ele estava a tomar um diurético), numa caminhada dolorosa, interrompida por quatro vezes para tentar retomar o fôlego. Morreu sem forças, lutando desesperadamente para inspirar ar, emitindo com isso sons doridos, capazes de perturbar mesmo o mais insensível e frio dos homens. Sons que foram esmorecendo até finalmente se extinguirem.

E eu assisti à morte dele. Quando regressei do trabalho para almoçar, o Sousa estava exactamente no mesmo lugar em que o vi antes de sair de casa. Enquanto eu almoçava, ele percorreu pela última vez o corredor que liga os quartos à cozinha atravessando a sala. Comoveu-me que ele se tivesse dirigido à cozinha, porque era o que ele fazia de forma rotineira, quando se apercebia que eu estava prestes a acabar de almoçar.

E morreu na minha companhia. É talvez disparatado, mas senti que devia estar à beira dele, mesmo sabendo que ele não atribuía o mesmo valor que um ser humano a esta presença. Mas o meu gato foi uma companhia durante praticamente nove anos – morreu um dia antes de completar esse tempo – e entendi que não merecia morrer sozinho. Eu sei, é estúpido: está na natureza dos gatos isolarem-se e morrerem sós. Sim, o Sousa era apenas um gato. Um gato, evidentemente, não é um ser humano. Mesmo se não é um porco nem uma galinha, é um animal. Gatos e homens são aliados, quando muito. A sua companhia não é sucedânea das relações interpessoais. Sei de tudo isto, mas não consigo deixar de sentir a dor, a estupefacção e mesmo alguma recriminação (devia tê-lo levado para a clínica, apesar de lá me terem informado que a condição dele era irreversível, em lugar de ficar a vê-lo morrer?) pela sua morte.

Resta-me o consolo de saber que lhe dei uma vida boa. Sim, ao mantê-lo comigo roubei-o à natureza, na qual poderia ter cumprido a sua condição de gato em pleno, mas não devo pensar desta maneira. Se não tivesse sido eu a adoptá-lo no dia 16 de Novembro de 2007, quando tinha apenas dois meses, teria sido outra pessoa qualquer. E se tivesse sido uma pessoa indiferente, ou uma daquelas que abandonam os animais antes de ir para férias? E, até a doença se manifestar, era um gato alegre, bem disposto e alerta, que passeava pela casa com a cauda bem erguida e corria e desafiava-me. Tudo sinais de que sentia a sua vida como boa (pelo menos pelos padrões felinos). Devo deixar que estas boas recordações se sobreponham às deste dia lamentável.

Adeus, amiguito.

M. V. M.

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8 thoughts on “Adeus, Sousa (2007-2016)”

  1. Lamento. O Sousa teve uma vida com qualidade, teve um abrigo, alimentação e um amigo. Os gatos vadios, sobretudo os machos, não vivem tanto tempo. Com sorte vivem talvez metade do tempo de vida do Sousa. Mas como diria Robert. A. Heinlein: “qual é o tamanho de uma vida? quanto mede uma altura?”

  2. Lamento, MVM.
    Sinto algo semelhante ao que Maria Barão descreve (estou convencido que a conheço de algum lado!).
    Tenho um gato com 11 anos. Vai ser duro quando…
    Um abraço.

  3. Maria e Sérgio: os vossos animais ainda vão durar bastante tempo. Não se deixem sugestionar pela idade do Sousa, porque ele tinha um problema cardíaco congénito. Não é comum os gatos domésticos morrerem tão cedo: alguns duram até aos vinte anos.

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