É difícil fotografar a cores

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/13/ea/e0/13eae0b9a18cad8f8d10743b3135b12a.jpg
Por Alex Webb

O meu estado de espírito desanuviou consideravelmente nos últimos dias. O Sousa é, afinal, um lutador e tem recuperado admiravelmente. Não é exactamente uma luta, porque ele não tem consciência de que está a combater uma guerra contra a morte; é antes um instinto de sobrevivência ancestral e poderoso de que o ser humano não se apercebe porque, à custa de tanto racionalizar, esqueceu que é um animal. Seja como for – e a despeito de o risco de morte súbita existir –, é bem possível que o Sousa dure muito mais do que os veterinários esperavam. O que é bom.

Atento isto, e a despeito da preocupação que ainda me traz inquieto, já me vai sobrando algum ânimo para fotografar e escrever. No antepenúltimo texto, dedicado ao génio de William Albert Allard, afirmei que é muito mais difícil fotografar a cores do que a preto-e-branco, mas abstive-me de desenvolver esse assunto. Vou tentar fazê-lo agora.

Pode parecer estranho dizer-se que fotografar a cores é difícil. Afinal de contas, nós vemos a cores. O próprio Allard, no seu website, afirma que vê a cores – como se, com isto, pretendesse afirmar que não é concebível fotografar de outra forma. Tal não é, contudo, uma manifestação de radicalismo anti-preto-e-branco; como ele afirma, na sua fotografia a cor e a composição são inseparáveis. Isto ajuda a entender melhor a minha afirmação sobre a dificuldade da cor.

Ao contrário do preto-e-branco, no qual este problema não se coloca por estarmos a ver tons de cinzento, a fotografia a cores requer harmonia. As cores e os tons têm de ser harmoniosos para que a fotografia resulte visualmente. Este é, como W. A. Allard bem nota, um problema de composição: há que saber conjugar as cores dentro do enquadramento. Uma vez que os cenários com que nos deparamos são, por regra, caóticos, raramente existindo uma harmonia pré-definida de cores, compete ao fotógrafo descobrir como jogar com elas de maneira a que a fotografia seja cromaticamente harmoniosa.

Esta harmonia é mais difícil de conseguir do que parece. Não é como quando escolhemos que roupas vamos vestir em função das combinações de cores, porque as mais das vezes temos de aceitar os cenários fotográficos tais como eles são, não sendo em regra possível alterá-los. Tudo se torna mais difícil porque no mesmo cenário podem existir cores incompatíveis, o que é mais um desafio que se põe ao fotógrafo.

É aqui que o sentido de composição intervém. O facto de existirem cores incompatíveis não inviabiliza a fotografia. O que se deve fazer, neste caso, é escolher o enquadramento de maneira a que a carga visual de uma ou várias cores seja esteticamente tolerável. Se tal for possível, mesmo as cores mais díspares podem ser conjugadas com sucesso.

Mesmo depois de resolvida a questão da harmonia, há outras opções que dificultam a fotografia a cores. Vamos usar cores vibrantes, saturadas, neutras ou apagadas? Qualquer destas escolhas se torna decisiva para a agradabilidade da imagem, mas sobretudo elas ajudam a definir um estilo. Contudo, a mesma apresentação das cores pode resultar extremamente bem num tipo de fotografia e ser um desastre noutro. Uma fotografia com cores deslavadas pode dar um aspecto onírico a uma paisagem, mas será um fracasso se aplicada a uma cena de rua em Bombaim.

Claro que tudo o que escrevi se aplica a fotografias feitas com um bocadinho de juízo. Nada disto é necessário se só queremos fazer fotografias parvas para mostrar no facebook, ou se temos a ideia absurda de mostrar uma cena tal como ela é. Neste caso não é de todo necessário ter preocupações com a harmonia, carga visual ou tonalidade. É só quando vemos fotografias de Allard, mas também de Alec Soth, Harry Gruyaert, Alex Webb ou mesmo Steve McCurry que nos apercebemos de como a cor é importante e como é difícil fazer com que ela seja uma parte significativa da composição.

Como vêem, fotografar a cores parece fácil, mas não é. Longe disso. Como dizia aquele jingle da rádio Voxx, «parecendo difícil, não é nada fácil».

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s