Tristeza

Como posso ter inspiração para escrever sobre fotografia? Aliás, nem sequer a tenho para fotografar. Os meus últimos quatro dias têm sido passados debaixo de uma tristeza infinita – já explico porquê, embora os mais atentos ao que tenho vindo a escrever já o suspeitem. A tristeza – a autêntica, não a simples neura que ataca todos pelo menos durante cinco minutos em cada dia – é frustradora da imaginação: ela monopoliza a mente e domina todos os pensamentos. Alguns poderão imaginar que a tristeza é frutuosa, criando produções belas e pungentes, mas pelo menos comigo as coisas não funcionam assim. Esta tristeza leva à esterilidade da mente, nada mais. É como um véu negro, denso e pesado que pousassem sobre mim e me turvasse a visão e o pensamento. Esta tristeza tem uma causa concreta. Essa causa é ter sabido que o meu gato, o Sousa, tem uma doença incurável e morrerá em breve. A hipertrofia do átrio esquerdo do coração que lhe foi diagnosticada é uma condição irreversível; deram-lhe alta para que ele pudesse morrer junto a mim, no seu ambiente, e não numa clínica hostil, rodeado de desconhecidos. Não sei quanto ele vai durar: sei apenas que pode morrer a qualquer momento, porque a morte súbita é uma das consequências possíveis da sua patologia. Resta-me esperar que não sofra e tenha uma morte isenta de dor.

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Na Segunda-feira dei com ele sentado sobre as patas traseiras, mas imóvel, com o olhar parado e sem reacção: quando recobrou, caminhou uns metros e deitou-se, com a respiração descontrolada; levantou-se, apesar de tudo – apenas para se deitar de novo um pouco mais adiante, sobre o seu lado esquerdo, com as patas estendidas e a cabeça pousada no chão, numa posição que me assustou: todos os gatos que vi mortos estavam deitados daquela maneira. Felizmente recuperou; levei-o para a clínica, mas o destino dele estava determinado.

Eu já vivi dores maiores e mais fundas. Primeiro foram os meus avós, mas era ainda uma criança e, por qualquer sortilégio, a dor da perda é mitigada e dura pouco – talvez por as recordações não serem ainda suficientemente vastas e intensas. Mais tarde foi o meu tio João, que eu adorava. A dor que senti chegou a ser insuportável. Depois foi o meu vizinho de quarto no alojamento de Coimbra, o João Pedro, que morreu de imprevisto, num fim-de-semana, por causa de um aneurisma cerebral. Tinha vinte e dois anos. E, evidentemente, o meu pai – mas a dor maior não foi a que senti quando ele morreu: muito mais negros foram o dia em que soube do seu linfoma e os que se seguiram.

Claro que o Sousa é apenas um animal. Um amigo, pragmático, não conseguiu proibir-se de censurar quem trata melhor animais do que pessoas e sugeriu que devia mandar abater o Sousa. A sua primeira asserção não me atingiu – as pessoas estão sempre em primeiro lugar –, mas apeteceu-me esmurrá-lo. Um gato não é uma pessoa, mas também não é igual a um cavalo, um boi ou uma galinha. É um dos que estão connosco no topo da cadeia alimentar e respeitamo-lo por os seus ancestrais terem ajudado os antigos egípcios a livrar-se do flagelo dos ratos (caso não saibam, esta é a razão histórica da adopção do gato como animal doméstico – pelo menos para alguns estudiosos da matéria). Mandar abatê-lo, por seu turno, está fora de questão: só o consideraria se evitasse o seu sofrimento, mas ele não sofre. (Ah, o refrigério de não ter consciência da morte: definitivamente, Martin Heidegger tinha toda a razão.) Sim, é apenas um animal, mas esta circunstância apenas torna a minha dor menos compreensível, não a atenua. Não, não é o mesmo que saber que vou perder uma pessoa que me é querida, experiência por que passei e é a angústia mais dolorosa por que alguém pode passar – mas o facto de esta tristeza ser tão presente e intensa quase equipara este animal a uma pessoa.

O pior de tudo são as recordações. As dos seus primeiros dias em casa, da sua irrequietude permanente de gato jovem e de como me divertia brincando com ele, mas sobretudo as dos momentos que se assemelhavam à pura camaradagem masculina. Agora olho-o e vejo-o a recuperar e a voltar ao comportamento que tinha antes de os sintomas da doença se manifestarem. Isto é bom para ele, mas não me ajuda: apenas serve para criar uma ilusão momentânea, a qual, por seu turno, tem o efeito de tornar o regresso à realidade mais doloroso.

Acima de tudo é a morte prematura de um inocente que me entristece. O Sousa nada fez para merecer um fim tão prematuro. Tem apenas nove anos: se fosse uma pessoa seria um quarentão, não um velho. Não sei se isto é arbitrário ou perverso, ou se obedece a um plano superior, mas é profundamente injusto. Podem argumentar que há gatos bem mais jovens a morrer atropelados, ou com doenças contraídas na rua, mas pouco consolo retiro destas evidências.

Agora sou o seu cuidador e enfermeiro. Os meus dias são vividos de acordo com a posologia dos medicamentos. Não lamento o tempo que gasto e o que não posso fazer por causa do imperativo de lhe administrar os medicamentos que o prendem à vida. Digamos que ele merece. Por ter sido (e ainda ser) o meu amiguito felpudo.

M. V. M.

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1 thought on “Tristeza”

  1. Coragem amigo M.V,M.!
    Já passei várias vezes, por situações semelhantes e (quando se tem filhas pequenas e se ensina a respeitar e a amar os animais, a maioria dos encontrados no caminho, acaba em nossa casa e a frequentar a clinica veterinária). Dizem os entendidos, que a melhor maneira de mitigar a dor (sim! Porque dói) quando se perde um destes amigos, é arranjar outro. Pessoalmente, custou-me e custa-me aceitar novos animais, porque sei que qualquer dia, vou passar outra vez pelo mesmo, mas quando o seu infortúnio os coloca no meu caminho, não consigo dizer, não. Pode-se arranjar outro para preencher o vazio, e mitigar a tristeza, mas nunca se esquece os bons e os mau momentos, o carácter e o lugar que cada um teve na nossa vida.

    Um abraço

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