Napalm

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Eu sei que sou a única pessoa do mundo que não gosta do facebook. Na verdade tenho lá uma conta, mas só serve para manter contacto com algumas pessoas. Há muitas razões para que eu não perca horas da minha vida no facebook, mas Mark Zuckerberg e seus associados continuam regularmente a fornecer-me provas de que este meu desdém pela «rede social» é inteiramente justificado.

A última delas foi a que se segue: o jornal norueguês Aftenposten publicou, não sei a que propósito, a conhecida fotografia de Nick Ut que reproduzo acima na sua página do facebook. Evidentemente, todos sabem que esta fotografia mostra a fuga de várias crianças de uma aldeia vietnamita atacada por engano pela força aérea sul-vietnamita com uso de napalm. A criança que se vê no meio do enquadramento está nua porque foi atingida pelo napalm, o que lhe provocou uma sensação de ardor insuportável. Nick Ut, o fotógrafo, atirou-lhe baldes de água, mas a criança, de nome Phan Thi Kim Phuc, continuou a gritar queixando-se do calor.

Não sei por que o jornal norueguês decidiu publicar a fotografia de Nick Ut na sua página do facebook; o que sei é que alguém entendeu que aquela imagem colidia com os padrões morais do facebook relativos a imagens de nudez infantil e houve por bem eliminá-la da página do Aftenposten.

Os leitores do Número f/ poderão, eventualmente, não compreender a razão por que a fotografia foi apagada; e, de facto, é difícil de entender. É, simplesmente, daquelas coisas que fazem recuar as fronteiras da estupidez humana. Francamente, em que estavam os guardiães da moral facebookiana a pensar? Que a fotografia de Nick Ut é obscena, ou mesmo pornográfica? Que a intenção do fotógrafo foi a de fotografar uma menina vietnamita nua, quem sabe para seu prazer e de alguns pervertidos?

Esta polémica absurda dá que pensar. Só uma mente muito perturbada poderia imaginar que a nudez de Phan Thi Kim Phuc tem algo de indecente, imoral ou ofensivo. Se há algo indecente, imoral ou ofensivo nesta fotografia é o que ela retrata – o horror da guerra e dos seus «danos colaterais» (que é o que agora chamam aos crimes contra civis cometidos durante guerras). Que isto passe ao lado dos censores e estes só vejam aqui uma fotografia de uma criança nua levanta questões curiosas, como a falta de informação e de ilustração desses guardiães do pudor. Não conhecer a fotografia de Nick Ut é, só por si, bastante grave; não entender a sua mensagem é ainda mais grave, mas reduzir tudo à questão da nudez da menina é gravíssimo. Ou melhor: a gravidade não está em que haja pessoas tão ignorantes e pervertidas: está em elas terem uma profissão que consiste em fazer censura com base em juízos morais.

Deste modo, temos o dever de concluir que o facebook é gerido por gente ignorante, moralmente dogmática, obtusa, completamente desprovida de noção do ridículo e pervertida. Sim, porque só uma mente doentia consegue ver malícia numa fotografia como esta, abstraindo por completo das suas circunstâncias e vendo apenas a criança nua.

Como também existe muito militantismo fútil na internet, o qual tem a sua manifestação mais visível nessa inutilidade que são as petições públicas, a eliminação da fotografia provocou aquilo que se chama, no péssimo jornalismo português, um coro de indignação. De tal maneira que o facebook admitiu rever as suas políticas de permissão de publicações, de maneira a possibilitar a «partilha» de imagens «merecedoras de notícias, significativas ou importantes para o interesse geral». E como se propõe fazê-lo? Através de novas ferramentas e novas abordagens à aplicação das regras. Parece-me pior a emenda que o soneto: vão inventar um algoritmo que consiga detectar se um nu é merecedor de notícia, significativo ou importante para o interesse geral? Boa sorte!

Eu aceito que tem de haver controlo numa rede como o facebook. Se não existisse, veríamos grupos de partilha de pornografia infantil, de aliciamento de crianças para prostituição e outras monstruosidades que normalmente só se encontram na deep internet. Contudo, este controlo tem de ser feito com critério. A nudez não é necessariamente perversa ou ofensiva. É só isto que o Sr. Zuckerberg tem de meter na cabeça. Na sua e na dos seus censores. Até lá, a melhor alternativa é desprezar o facebook – e há cada vez mais razões para fazê-lo.

M. V. M.

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2 thoughts on “Napalm”

  1. Queria apenas deixar-lhe uma nota que provém da minha total ignorância de como é gerido o filtro que originou este facto. Bem sei que são humanos que executam programação mas também reconheço que as formas de pensar desses programadores são diferentes e que nem todos reconhecem a necessidade de envolver outras valências quando desenham um programa de gestão de dados ( sejam eles de que natureza forem ! ). Assim sendo, ainda dou o benefício da dúvida e, embora divulgando como acto pedagógico este tipo de facto, não quero ser tão extremista.

    Melhores cumprimentos e desejo que o Sousa já se encontre totalmente recuperado.
    maria josé

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