O génio

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É extremamente difícil, nestes dias em que toda a gente fotografa, descobrir a verdadeira excelência. É como algo grande, de cuja dimensão não nos podemos aperceber por estarmos demasiado próximos. É simples olhar o passado e dizer quem foram os melhores; mas o tempo ainda não fez a sua selecção no que toca aos contemporâneos.

Isto aplica-se a tudo, evidentemente. Só poderemos dizer, com segurança, quem foram os melhores compositores, estadistas, pilotos de Fórmula 1 ou seja qual for a actividade humana em questão, quando tiver decorrido tempo suficiente para vermos a nossa era com clareza. Evidentemente, quando o conseguirmos fazer, esta já não será «a nossa era»: será o passado.

Nada disto impede que a verdadeira grandeza seja já visível, mas tal implica que tenha, pelo menos, havido uma certa consagração – pelo menos a quem não pertence ao meio em questão. É sempre possível, a quem conhece uma determinada actividade, dizer quem são os bons – mesmo que a subjectividade possa interferir com a validade desse juízo. Para quem está de fora tudo é mais difícil, sendo-se tentado a tomar a parte pelo todo.

Tudo o que disse implica que, mesmo que fosse possível conhecer uma actividade humana como a arte em toda a sua extensão, seria sempre extremamente difícil dizer quais são os mais destacados, porque tal relevância advém, sobretudo, da notoriedade. E esta pode ser independente do mérito. Richard Prince tem mais notoriedade que Harry Gruyaert, o que não significa nada a não ser que a notoriedade nada diz sobre a qualidade. Ainda, porém, que se consiga estabelecer um número de artistas meritórios, eleger os melhores entre eles é de enorme ousadia. Especialmente por um juízo desta natureza só poder, para ser válido, ser proferido por quem tenha um conhecimento vasto e profundo.

Este texto era para exprimir uma opinião que formei e se tem mantido consistente ao longo do tempo: a de que teria descoberto o génio da fotografia actual. Simplesmente, à medida que o texto se foi escrevendo, fui-me apercebendo do absurdo que seria ter a pretensão de erigir um fotógrafo actual em génio. Enquanto estas linhas se iam escrevendo, percebi que enunciar tal escolha contradizia todas as ideias que ficaram expressas neste texto. Não tenho um conhecimento assim tão pleno – e quem pode tê-lo, quando basta ter uma câmara e publicar umas fotografias na internet para ser considerado um fotógrafo?– e, seja como for, este juízo seria sempre arbitrário, porque tingido pela subjectividade.

Percebi, por exemplo, que não poderia dizer que esse particular fotógrafo é genial sem, do mesmo passo, mencionar Alec Soth. E que a genialidade pode estar escondida e pertencer a alguém menos reconhecido. Simplesmente, não é meu propósito dizer que o fotógrafo que tenho em mente é o melhor fotógrafo contemporâneo: o que pretendo é dizer ao meu universo estrito de leitores que, no meu entender de neófito sem pretensões de ter um conhecimento suficientemente abrangente para formular juízos de valor, existe um fotógrafo que considero genial – porque, quanto mais fotografias dele vejo, mais fico impressionado com a sua qualidade. Este fotógrafo, ao qual já aludi abreviadamente num texto escrito há pouco menos de um ano e meio, é William Albert Allard.

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Sim, William Albert Allard é um génio. Muito me surpreenderia se o tempo não o viesse a consagrar como um dos melhores fotógrafos deste tempo. Decerto há muitos outros, e já mencionei dois deles neste mesmo texto, mas em Allard há uma qualidade, uma consistência e uma capacidade de surpreender que fazem com que as suas fotografias sejam únicas.

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O que mais me impressiona em Allard é o seu domínio da cor – eu já escrevi aqui que é muito mais difícil fotografar a cores do que a preto-e-branco, o que pode parecer estranho mas é verdade, por razões que não interessa estar a desenvolver aqui – e, sobretudo, a sua tendência para fotografar o que ele mesmo diz ser as margens, o que está à margem – e não no centro – de um determinado acontecimento ou lugar. A fotografia de William Albert Allard não é directa, não é documental, não é nunca um relato objectivo: em lugar de nos mostrar o evento em si, Allard prefere mostrar o que se passa à volta deste, o que passa despercebido de todos por estarem concentrados no acontecimento.

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O que torna a abordagem de Allard extremamente original e interessante. Isto, aliado a um sentido de perspectiva e composição irrepreensível e à já aludida mestria no uso da cor, faz de William Albert Allard um dos melhores fotógrafos, não apenas da época contemporânea, mas de sempre. Há certamente fotógrafos menos conhecidos – William Albert Allard deve muita da sua proeminência a ter trabalhado regularmente para a National Geographic, tal como Gruyaert e Soth são reputados graças à Magnum – capazes de excelência, mas, de entre o pouco que conheço dos grandes fotógrafos actuais, este é certamente um dos melhores. E – repito – muito me espantará se não vier a ser reconhecido como um dos melhores de sempre.

(N. b.: todas as fotografias que ilustram este texto são de William Albert Allard.)

M. V. M.

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