A fotografia instantânea e eu

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Recordo-me vagamente de, em criança, ter tido aspirações ambíguas de fotografar com uma Polaroid. Estas fantasias pertenciam ao domínio do irrealizável, porque as Polaroid eram caras e não serviam os propósitos de uma máquina fotográfica de família; por isso, quando tinha treze anos, o que recebi foi uma Agfamatic Pocket 1000, que usava rolos 110 e me convenceu que jamais faria uma única fotografia decente.

Também me lembro de que os meus sonhos infanto-juvenis esbarravam na limitação da escassez temática: depois de ter fotografado os meus pais, a minha irmã e mais um punhado de pessoas – tinha a certeza que os amigos considerariam ridícula qualquer manifestação da minha eventual vontade de fotografá-los e reagiriam com alguma hostilidade –, que me restaria para fotografar com a hipotética Polaroid? Os sonhos não duraram muito, mas deixaram qualquer coisa plantada na minha mente.

De volta aos nossos dias: a Fujifilm vai lançar papel para fotografia instantânea em formato quadrado (1:1), o projecto Impossible é um êxito e a Leica lançou a sua própria versão da Fujifilm Instax Mini 90, a que chamou «Sofort» (uma palavra alemã que é sinónima de «instantâneo»). Não parece haver dúvidas que a fotografia instantânea está cheia de vitalidade. Que pensar disto?

A fotografia instantânea é, e sempre foi, convivial por natureza. Embora tenha sido usada com fins artísticos por fotógrafos como Toto Frima ou William Albert Allard (que poderia ter feito as suas Polaroids com outra câmara qualquer), estas fotografias servem o propósito de amigos se fotografarem uns aos outros e se divertirem. O que não tem, evidentemente, nada de mal: pelo contrário, é muito menos absurdo que as selfies e, ao contrário destas últimas, implica um pouco de esforço cerebral.

Chegado aqui, enfrento uma encruzilhada: uma parte de mim deseja o sucesso desta forma de fotografia. Ela é parente próxima da Lomografia, porque em ambos os casos as pessoas que fotografam não levam o que fazem demasiado a sério: não têm pretensões de fazer arte nem de agradar a todos. São jovens conviviais, urbanos e sofisticados que querem simplesmente divertir-se a tirar polaróides.

Outro lado de mim – o lado pragmático, utilitarista e irremediavelmente fiel à terra – despreza a fotografia instantânea e considera-a frívola, oca e sem sentido; as polaróides são as selfies dos universitários ricos e a Toto Frima e o Allard foram provavelmente contratados pela Polaroid para legitimar intelectualmente a vacuidade da fotografia instantânea.

Uma parte de mim quer aderir a mais esta coqueluche revivalista; outra diz-me que a fotografia instantânea é um disparate. Mas depois vem a realidade intrometer-se e resolver em definitivo a questão, esclarecendo-me que, embora pudesse facilmente adquirir uma câmara instantânea – até as mais sofisticadas, as Polaroid SX70, podem ser adquiridas por valores módicos –, o preço do papel é proibitivo: a Impossible vende cassetes de papel fotográfico por €20, mas cada uma contém apenas 8 papéis – o que significa que cada fotografia fica por €2,50. Sai cara, esta fotografia convivial. Bem mais cara do que a fotografia com rolos 135.

Parece que os sonhos vagos e ambíguos da minha infância vão ficar por concretizar. Contudo, a minha costela que se recusa a envelhecer regozija com este sucesso da fotografia instantânea. Não é para mim – este tipo de fotografia não é para pessoas como eu –, mas há quem tenha imenso prazer em tirar polaróides. Este é um prazer que não prejudica outros, não tem consequências negativas (pelo contrário) e, sobretudo, ajuda a preservar a ligação da fotografia ao seu lado físico que se consubstancia no papel. Hoje a fotografia é praticamente imaterial; a fotografia instantânea mantém viva a tradição da impressão e do papel. Mesmo sendo em formatos minúsculos e com uma resolução discutível, esta é sem dúvida uma virtude. Um dia, quando todos os discos rígidos queimarem e as clouds deixarem de armazenar e disponibilizar dados, alguém manterá um acervo material de fotografias. Mesmo que algumas delas possam ser disparatadas, a memória terá triunfado sobre o efémero.

M. V. M.

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