A distância focal ideal para fotografia de rua

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Bruce Gilden

Se o leitor está num daqueles dias que parecem nunca mais acabar e se quer envolver numa discussão estéril e sem sentido, tem um recurso inesgotável à sua disposição: a internet. No que toca à fotografia, as quezílias inúteis vão desde as teorias da «abertura equivalente» até às melhores câmaras para fotografar isto ou aquilo. Algumas pessoas parecem ter todo o tempo do mundo para se envolver em discussões que não interessam a ninguém.

A mais recente discussão com que me deparei nasceu da importante questão de saber qual a distância focal ideal para fotografia de rua. A resposta é óbvia – não há uma distância focal ideal para fotografia de rua –, mas há quem insista, usando argumentos que passam pelas distâncias focais usadas por alguns fotógrafos e por câmaras de distância focal fixa como a Ricoh GR, e pretenda impor a tese de que na rua só se fotografa com lentes grandes-angulares. Há alguma razão nisto?

Não. A regra é muito simples: cada um fotografa com a distância focal com que se sentir mais confortável. Usar lentes grande-angulares pode ser interessante – eu uso a 28mm com alguma frequência –, mas uma distância focal desta natureza tem, em regra, inconvenientes que a desaconselham. Antes de mais, o ângulo de visão é demasiado amplo, o que, além do inconveniente de incluir objectos indesejáveis no enquadramento, traz consigo o problema de o fotógrafo ter de se aproximar em demasia da pessoa ou objecto para que estes não surjam minúsculos na imagem. Depois, esta mesma necessidade de o fotógrafo se aproximar em demasia implica o risco de exacerbar as distorções típicas das grande-angulares, o que pode não ser ideal.

Por fim, nem todos têm o desplante – ou, pelo menos, o à-vontade – necessário para fotografar pessoas com lentes de 28mm ou mais curtas. Há quem o faça, como Bruce Gilden; outros, como Henri Cartier-Bresson, preferem usar distâncias focais «normais» (neste caso específico 50mm). Contudo, o facto de um determinado fotógrafo usar uma certa distância focal não torna esta última num cânone, nem implica que tal se deva erigir em regra ou dogma. Até por haver fotógrafos que, mesmo dando primazia a uma, usam diversas distâncias focais consoante a sua intenção fotográfica.

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Henri Cartier-Bresson

Evidentemente, o uso de outras distâncias focais tem inconvenientes. As lentes standard, mesmo se excluem o desconforto da pessoa fotografada por ter alguém a meio metro de si a fotografá-la, têm a característica de nem sempre a focagem ser a ideal. Quando se usa a focagem manual, pode ser demorado focar; quando a focagem é automática há o problema da demora na selecção do ponto de focagem, sem a qual a câmara pode focar num ponto que não é aquele que se pretendia. Este é um problema de profundidade de campo que afecta também – e sobretudo – as teleobjectivas, mas o inconveniente maior das distâncias focais grandes é a dimensão das pessoas e objectos no enquadramento: é necessária alguma distância para que as pessoas não apareçam demasiado proeminentes na imagem. O plano de fundo é importante na fotografia de rua, pelo que não pode deixar de figurar (e nem sempre convém que fique desfocado, como pode facilmente acontecer).

E há também uma questão de decoro que é a inversa da que se verifica com as grande-angulares: enquanto o fotógrafo pode parecer um descarado quando usa estas últimas para fotografar pessoas, com distâncias focais maiores corre o risco de ser confundido com um voyeur e dar a impressão de estar a fotografar furtivamente. Claro que isto pode ser evitado, mas é um perigo que existe e deve ser levado em conta.

No meu caso, prefiro usar a lente de 50mm quando fotografo nas ruas. É um compromisso com o qual me sinto bem. Como também gosto de linhas fortes e pontos de fuga bem pronunciados, recorro frequentemente à grande-angular – mas a proporção deve ser 70-30 em 100 a favor da 50mm.

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W. Eugene Smith

Por tudo isto, não há dogmas. Nem mesmo as teleobjectivas, a despeito dos seus inconvenientes, estão vedadas quando se faz fotografia de rua: W. Eugene Smith, quando fez a série The Jazz Loft, fez fotografias de pessoas na rua a partir da varanda do seu apartamento num 4.º andar usando teleobjectivas. É necessária uma mente muito estreita e limitada para se afirmar que uma determinada distância focal é a ideal para fotografia de rua – seja lá o que isso for.

M. V. M.

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