Quebrando o silêncio (um texto em que o autor mistura gatos, ciências biomédicas, iPhones e os três pastorinhos)

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Uma semana inteira sem escrever no Número f/ é um triste recorde, mas tem uma justificação: o Sousa (que é, como alguns sabem, o meu gato).

É incrível o lugar que os animais ocupam na vida das pessoas. Alguns tornam-se membros da família e originam um fenómeno que a psicologia denomina transferência: algumas pessoas transmitem (transferem) aos animais de estimação as emoções que normalmente se sentem por outras pessoas. Embora não tenha bem a certeza de ter transferido seja o que for para o Sousa (a não ser um lado genioso que insisto em cultivar), o que é certo é que o meu gato se tornou num excelente animal de estimação.

Há cerca de duas semanas notei que o gato rejeitava alimentos, mesmo os que costumava ingerir com alguma voracidade. (O Sousa é um gato grande, pesando cerca de seis quilos e meio.) Mais tarde, tornou-se evidente que ele tinha dificuldade em respirar. Levei-o à UP Vet, a excelente clínica veterinária que está na dependência da Universidade do Porto, funcionando no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. A pleura estava infiltrada de um líquido que lhe obstruía dois terços dos pulmões, em consequência de um problema cardíaco: o átrio esquerdo do coração tem um volume cerca de três vezes superior ao normal.

Isto bastou para me trazer angustiado durante duas semanas, com a incerteza acerca dos resultados dos exames e análises a privar-me de interesse fosse pelo que fosse. Sim, os animais têm este poder – especialmente os gatos. Agora, além de protector e companhia, sou também o tratador e enfermeiro do Sousa. Administrar-lhe medicamentos é um suplício para o gato, mas também para mim: sei que mais tarde ou mais cedo ele vai detestar-me.

Por tudo isto, não tive muita motivação para escrever (tal como não a tive para muitas outras coisas). Apesar de, paradoxalmente, este episódio me ter feito ver as coisas como elas são – um gato nunca substituirá, de forma alguma, uma relação humana –, senti medo de perder o meu amiguito felpudo. (Se isto vos parece demasiado patético, fiquem sabendo que também lhe chamo coisas bem menos carinhosas, como «gato ridículo», «o leão das carpetes» ou mesmo «o gato das bostas».)

No entanto, passaram-se coisas interessantes no Planeta Fotografia durante estas semanas de angústia. A mais importante delas foi, a meu ver, o desmascarar da Apple e do seu iPhone 7 (e 7 Plus). Bem vêem: ao iPhone era atribuída uma qualidade de imagem superior, o que era suficiente para que os fotógrafos vendessem as suas DSLRs e lentes pesadíssimas e se despedissem fotojornalistas. Andava por aí uma tendência, que se manifestava sobretudo em alguns websites, de mencionar o iPhone como se fosse uma máquina fotográfica, digamos assim, de pleno direito. Isto teve o efeito de levar certas mentes sensíveis ao delírio, imaginando que o iPhone podia substituir uma DSLR; foi criado, para justificar esta adulação por um produto comercial, o chavão – que, justiça me seja feita, sempre procurei desmontar – de a melhor câmara ser a que temos connosco. Fotógrafos reputados desataram a usar o iPhone e a processar as imagens no Instagram, criando a ilusão de que o iPhone é uma câmara competente. Com tudo isto, o iPhone ganhou fanáticos impenitentes no seio da comunidade fotográfica e, aparentemente, induziu alguns deles em doenças severas do foro psicológico: com efeito, houve quem sugerisse que, se Henri Cartier-Bresson fosse vivo, usaria um iPhone para fotografar. Ao pé desta devoção delirante, as visões dos três pastorinhos da Cova da Iria são uma trivialidade.

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Ora, há algumas semanas o Digital Photography Review publicou uma galeria de fotografias feitas com o iPhone 7 Plus. Contudo, em lugar de usar a falácia de apenas publicar fotografias feitas em condições de luz especialmente favoráveis, resolveram fotografar cenas que exigiam valores de sensibilidade relativamente elevados.

O resultado foi a comunidade fotográfica ter aberto finalmente os olhos. As fotografias feitas com o iPhone só demonstram alguma qualidade se forem feitas sob uma boa luz e vistas em tamanhos pequenos. Contudo, mesmo vistas num monitor normal, fotografias feitas com ISO 100 debaixo de uma iluminação ideal patenteiam a mesma quantidade de ruído que uma fotografia feita a ISO 400 com uma câmara APS-C. O processador, quando tenta disfarçar o ruído, apenas estraga, roubando nitidez à imagem. Nas fotografias feitas com luz escassa, o algoritmo de redução do ruído faz com que os motivos ganhem um aspecto ceroso, com uma perda evidente de resolução nos contornos.

A Apple, desta vez, chegou ao cúmulo de acrescentar ao processador uma função que imita o bokeh, talvez para iludir alguns papalvos fascinados pelo aspecto piroso de fotografias feitas com uma profundidade de campo reduzida. Esta adição apenas serviu para confirmar que a aparência de qualidade das fotografias do iPhone é completamente artificial, dependendo em 99% dos algoritmos do processador. Uma mentira, portanto – e uma mentira intragável, que nem as duas lentes da versão Plus conseguem escamotear.

Estas fotografias são francamente desagradáveis de se ver. O mais importante, porém, é que elas mostram que houve uma regressão manifesta na qualidade de imagem em relação às versões anteriores do iPhone. Não sei por que isto aconteceu – se pelo aumento do número de pixéis, se pela introdução de um algoritmo de redução do ruído particularmente agressivo, ou por outra razão qualquer –, mas sei que se seguiu uma perda manifesta de interesse pelo iPhone, que de súbito deixou de ser uma máquina fotográfica para se tornar naquilo que sempre foi – um smartphone equipado com uma câmara de qualidade abaixo de sofrível, que serve para apresentar fotografias em tamanhos pequenos mas tem limitações muito sérias que proíbem o uso das fotografias em tamanhos que excedam 15×10. Ainda bem que a comunidade fotográfica recuperou a lucidez.

Quanto à Apple, aproveitou-se do culto criado à volta do iPhone para tentar impingir um produto de qualidade inferior por um preço proibitivo. Shame on them.

M. V. M.

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