O Kentmere 400

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Os que têm boa memória – ou paciência para reter na memória as coisas que escrevo no Número f/ – lembrar-se-ão decerto que prometi deixar aqui escrita a minha opinião sobre uma película a preto-e-branco de uma marca denominada Kentmere, mais concretamente o Kentmere 400 (não é impossível que se lembrem dos meus sarcasmos quanto à pedanteria deste nome).

Pois bem, aqui está. Cortando a eito, e estragando todo o suspense que poderia manter o interesse intacto até ao fim, tenho de dizer que o Kentmere 400 é excelente. Os únicos rivais que lhe conheço são o Tri-X e o Ilford HP5, os quais são consideravelmente mais caros. Este rolo é mais da estirpe dos Fomapan e Agfa do que dos dois primeiros, mas tem características que o irmanam com o Kodak e o Ilford. É uma película que resolve muito bem os pormenores subtis e que assinala todos os quadradinhos correctos com uma cruz bem entusiástica. Contraste? Sim. Muito, mesmo em circunstâncias de luz intensa que não favorecem as películas ASA 400. Nitidez? Sem dúvida. Quase ao nível do HP5, que é a referência. Gama dinâmica? As sombras são um pouco carregadas – o que o torna semelhante ao Fomapan –, mas as altas luzes raramente estouraram nas fotografias que fiz. Melhor: apesar de eu expor sistematicamente para as altas luzes, fiz muitas fotografias (deliberadamente) em condições que obrigaram a usar exposições que facilmente poderiam fazer com que as altas luzes estourassem. Pois bem, isto nunca aconteceu – mesmo em circunstâncias tão extremas como a iluminação de estações do metro. O que é notável.

Dizer que estou entusiasmado com o que fiz usando este rolo é dizer pouco. Tinha esperanças muito modestas, mas o Kentmere 400 é muito bom. Tão bom que estou, neste momento, a considerar se este não deve ser o meu favorito para fotografar com sensibilidade elevada. Como sabem, há uma falta generalizada de Tri-X e o HP5 é um rolo cujo grão nunca me entusiasmou: é abundante e grosseiro, mas raramente contribui para dar atmosfera às fotografias.

Chegamos assim ao que melhor define o Kentmere – mais que a nitidez, o contraste ou a gama dinâmica –: o grão. O grão do Kentmere 400 é abundante – muito abundante. Mais do que o do Ilford HP5 e muitíssimo mais que o Tri-X. Simplesmente, este é um grão que contribui para a estética da fotografia. Dá-lhe atmosfera, dá-lhe estado de espírito. E fá-lo sem destruir os motivos, o que é assinalável. As fotografias adquirem um ambiente muito noir, se for caso disso, mas é impossível que o grão destrua a subtileza das linhas como acontece com os Lomography.

O Kentmere 400 não é o melhor rolo para preto-e-branco de sensibilidade ASA 400. Esta distinção pertence ao Kodak Tri-X. Contudo, em relação a este, o que o Kentmere perde em requinte recupera em expressão. Este não é o tipo de grão com que os adeptos do lo-fi sonham, mas é um grão que atinge um equilíbrio único: mesmo se não tem a discrição do grão do Tri-X, o do Kentmere ajuda a obter certos resultados. É o tipo de grão, por exemplo, que favorece a expressividade em retratos. Por oposição, o Ilford HP5 tem um grão que se coloca numa posição antagónica em relação às qualidades desta película, fazendo com que seja percebido nas imagens como uma aberração. (O grão é uma aberração da imagem, mas pode ser usada em seu favor; o problema é que o grão do Ilford HP5 faz com que as pessoas retratadas pareçam ter varicela.)

Se o leitor ficou com a impressão de que gostei muito do Kentmere 400, acertou em cheio. De facto, fiquei muito bem impressionado com ele. Pertencendo a Kentmere à mesma Harman Technology que detém a Ilford, provavelmente não é surpresa nenhuma que apresente algumas qualidades, embora não seja nem de perto nem de longe um HP5 revisto para ser vendido mais barato. O Kentmere 400 tem um aspecto muito distinto, com muito carácter e umas altas luzes que são de chorar por mais. Não tem a acutância do HP5 nem a versatilidade que fez do Tri-X o favorito dos fotojornalistas, mas o que tem é um grão que resulta bem: se o fotógrafo tiver destreza e imaginação, pode usar este grão com resultados que o Tri-X e o HP5 não atingem por serem demasiado bons. O Kentmere é inferior em qualidade? Talvez. Mas é expressivo e nem por isso é desprovido dos atributos que constroem o conceito de qualidade de imagem.

M. V. M.

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