Como ficar completamente neurótico (2)

Por vezes (dependendo da configuração da sala e da orientação que se deseja) as colunas exigem ser colocadas, para funcionarem bem, a distâncias que podem parecer absurdas – como, por exemplo, um metro de distância da parede traseira, setenta ou oitenta centímetros das laterais e afastadas mais de dois metros entre si. As monitoras são menos exigentes, mas nenhumas colunas funcionam bem encostadas às paredes. Há sempre que reservar algum espaço à volta das colunas e entre elas, o que explica que fabricantes como a ProAc e a Vienna Acoustics se preocupem tanto com a estética e a qualidade das caixas: se elas vão ficar implantadas quase no meio da sala, ao menos que sejam agradáveis de se ver.

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Vienna Acoustics Klimt

Mesmo com todos estes cuidados podem subsistir problemas. O facto de as colunas estarem devidamente afastadas das paredes pode ser reduzido a nada se o quarto tiver um tecto demasiado baixo ou um pavimento liso e reflector, como madeira envernizada. E, mesmo que as colunas estejam longe das paredes, estas podem ainda assim reflectir as ondas sonoras e impedir que se atinja o equilíbrio sonoro pretendido. Por vezes estes problemas são tão graves que o pobre audiófilo se vê confrontado com duas escolhas: ou abandona o hobby de vez ou transforma a sala num estúdio de som, com paredes cobertas de painéis de espuma acústica e coisas grotescas como edredões a cobrir as paredes (caso em que o cônjuge poderá, em alternativa, exigir o divórcio ou requerer ao tribunal que decrete a interdição do audiófilo por anomalia psíquica).

Pois bem: na semana passada fui acometido desta neurose. Resolvi que não pregaria olho enquanto não resolvesse um problema com uma ressonância que afecta principalmente a gama média de sons, repercutindo-se horrivelmente nas vozes femininas. Uma ressonância, diga-se, tão severa que é capaz de provocar dores de cabeça. Apesar de ter alterado a posição das colunas, afastando-as mais da parede traseira, o problema persistiu. Coloquei painéis de lã de rocha (devidamente disfarçados por baixo de molduras de juta que, uma vez pintadas da cor da parede, quase passam despercebidas) na parede atrás das colunas, o que melhorou o som mas não resolveu o problema.

Descobri então, por exclusão de partes, que o problema não estava na acústica do espaço, mas nos próprios aparelhos. Sim, porque ter um sistema de alta fidelidade numa sala pequena, mesmo usando colunas monitoras, implica que estas fiquem sempre muito próximas dos aparelhos, o que tem o potencial de criar um problema acústico grave e muito difícil de reparar – o feedback.

Pensavam que isto só acontecia com microfones e guitarras eléctricas? Enganaram-se. Os gira-discos – mas também os leitores de CD e os próprios amplificadores, especialmente se forem de válvulas – são microfónicos: em certas condições, como a proximidade excessiva entre as colunas e os aparelhos, a vibração provocada pelas ondas sonoras criadas pela própria reprodução musical (lembrem-se que todo o som é vibração) é captada, acrescentada ao sinal sonoro e amplificada. O efeito é, geralmente, um som de média ou alta frequência ser grosseiramente amplificado, atingindo uma pressão sonora que pode ser insuportável.

Há maneiras de evitar o feedback: a mais simples delas é manter uma distância superior a dois metros entre as colunas e os restantes componentes, mas isto nem sempre é praticável – especialmente em divisões pequenas. Neste caso há que pensar muito bem na superfície onde os componentes vão ser pousados. Os fabricantes de móveis especializados para alta fidelidade apregoam qualidades para os seus produtos que trazem à mente a expressão «banha de cobra», mas estes móveis são construídos de maneira a isolar os aparelhos da vibração, contribuindo deste modo para a melhoria da qualidade do som. Com uma contrariedade evidente – estes móveis podem ser caros. Alguns, como os Finite Elemente, são proibitivos. Mas, quando colocamos os aparelhos sobre eles, em lugar de tê-los pousados no chão ou numa cadeira, os benefícios tornam-se evidentes.

Ter um sistema de alta fidelidade é como ter um cobertor demasiado curto que nos deixa os pés de fora quando queremos cobrir a cara – e vice-versa. Mesmo que tenhamos as colunas ideais para as dimensões da sala, quando se resolve um problema surge imediatamente outro. Procurar resolver todos estes problemas é praticamente impossível, porque pressupõe uma sala enorme, toda recoberta de materiais de absorção das ondas sonoras e com as colunas quase no meio da divisão. (E convém ter a noção de que o próprio posto de audição deve ser afastado das paredes, para evitar que o som reflectido na parede atrás de nós seja audível!) Nem toda a gente pode ou está disposta a viver numa casa que tem uma divisão assim. À falta desse espaço, resta ir tentando resolver os problemas da acústica, o que pode exasperar mesmo a pessoa mais paciente e perseverante. Ou deixá-la neurótica.

E nem sequer me referi aos cabos de alta fidelidade…

M. V. M.

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