Como ficar completamente neurótico (1)

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Caros leitores, hoje vou tergiversar. Amanhã também, porque este texto não cabe numa só entrada. Permito-me fazê-lo porque, francamente, não aconteceu nada relevante no Reino da Fotografia nem tenho nada de oportuno a escrever acerca do assunto (as digitalizações do Kentmere 400 vão chegar em breve, pelo que esta secura de assuntos fotográficos poderá ter um interregno em breve: watch this space).

O título deste texto pode afastar muitos leitores – duvido que haja muita gente que tenha por aspiração da sua vida tornar-se neurótica –, mas o meu interesse é, sobretudo, advertir-vos. De resto, podia usar um daqueles títulos muito cliché, que poderia ser «Como ficar neurótico em 10 lições», mas não o faço porque basta uma. Vou, pois, descrever-vos a maneira mais simples e eficiente de contrair uma neurose, que é adquirir um sistema de alta fidelidade.

Eu sei, eu sei: nos tempos que correm as pessoas gostam de ouvir música em ficheiros digitais, sendo a qualidade dos ficheiros FLAC mais que suficiente para muitos (até pode ser demais, no caso de se ouvir Katy Perry ou Rebecca Black), mas isto é como usar o iPhone para fotografar. Num caso ouve-se música, no outro tiram-se fotografias – em ambos com um nível de qualidade suficiente –, mas, tal como se tem maior qualidade usando uma DSLR para fotografar, é possível gozar muito melhor a experiência de ouvir música quando se usa um formato melhor que os ficheiros digitais e um meio superior à placa de som do computador (ou ao iPod, ou iPhone).

E não me refiro a qualquer sistema de alta fidelidade: a verdadeira qualidade de som – aquela que põe os músicos a tocar na nossa sala, produzindo uma imagem estereofónica verosímil e quase holográfica – só é possível quando se usam componentes separados e compatíveis em desempenho. Podem ser da mesma marca ou de marcas diferentes, mas têm de funcionar bem em conjunto. A conjugação de componentes é, por si só, uma ciência, e deve ser deixada em mãos experientes.

O componente mais importante de um sistema de alta fidelidade – como descobri ao longo de muitos anos de angústia e frustração – é as colunas de som. Na idade de ouro da reprodução analógica, dizia-se que a fonte (o que equivalia, na maior parte dos casos, ao gira-discos) era o componente mais importante; mais tarde essa preponderância passou a ser atribuída ao amplificador, por boas razões (é o coração do sistema), mas ter uma fonte sensacional e um amplificador fora de série é completamente inútil se as colunas não forem adequadas às dimensões e à acústica do espaço onde vão ser instaladas.

Se o leitor alguma vez se interrogou por que há colunas de som minúsculas e outras do tamanho de um jogador da NBA, aqui está a resposta: é para se adequarem à dimensão de cada sala. É um disparate completo instalar umas torres de três vias num quarto com doze metros quadrados, mas comprar umas colunas monitoras pode ser uma opção para esse espaço. Instalar estas últimas numa sala de cinquenta metros quadrados, porém, não dará nunca bons resultados: o som – especialmente na região dos graves – nunca atingirá uma pressão sonora suficiente, ainda que o volume esteja no máximo.

Mesmo que as colunas sejam adequadas à dimensão da sala, não se pode simplesmente pousá-las em qualquer lugar. As divisões de uma casa normal têm características que importa conhecer antes de adquirir umas colunas. Por exemplo, colocar uma das colunas (ou ambas) perto de uma janela com uma grande superfície vidrada é o caminho mais curto para o desespero e frustração: os graves tornar-se-ão ribombantes, as vozes sairão acompanhadas de reflexos que destruirão toda e qualquer verosimilhança e os agudos soarão duros e estridentes. O pior é que nem sequer é preciso colocar as colunas perto de janelas de vidro: paredes de estuque ou pladur nuas produzem efeitos muito semelhantes.

Claro que há maneiras de evitar que isto aconteça, e é aqui que o leitor pode converter-se num neurótico integral. O posicionamento das colunas dentro do quarto é fundamental para um bom equilíbrio sonoro. De uma maneira geral, nenhumas colunas funcionam bem se forem colocadas muito perto das paredes. Se ficarem perto das paredes laterais, o som sofrerá os efeitos dos reflexos a que aludi há pouco; demasiado recuadas na direcção da parede atrás delas, e o grave tornar-se-á pesado e excessivo e a imagem sonora perderá a tridimensionalidade que se deseja. A pior colocação possível é pôr as colunas nos cantos da sala, o que exacerba todos os problemas acústicos que possam existir. (Continua)

M. V. M.

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